Glow in the darkness
Eis que tive uma epifania óbvia. Sou uma pessoa noturna.
De dia, quando tudo está insuportavelmente escancarado e a vida não para de acontecer, a minha reação à tanta invasão pelas minhas janelas e poros é pensar. Processar. Receber fluxos. Mastigar a comida. Um processo angustiante pra mim, porque não evoluo na conversa com esse espírito doentio, mas absorvo até o que não devo. De dia, eu só existo. Sou negada o direito de puramente sentir.
É à noite que sinto tudo o que pensei. É quando o que me perturba vem me assombrar de maneiras desesperadoras, mas também é quando tudo o que há de mais mágico dentro do meu espírito acorda, como se tivesse hora marcada. É até um momento de tradução, eu diria. A língua da minha mente é muito diferente da do meu coração — sobra pra mim fazer o intermédio.
Quando tudo está escuro, quieto, somente com as luzes e sons que eu deixo existirem, eu tenho a chance de realizar as minhas alquimias internas. O mundo é o meu quarto. Deixo de ter vergonha do demônio que habita em mim e funciono do jeitinho que ele gosta, o único que eu sei: intensa, urgente e viva. Louca, na língua dessa gente rasa.
Eu não durmo bem à noite. É meu horário comercial.
Só que às vezes acontecem rebeliões do lado de cá — e é quando as distrações do dia seriam finalmente úteis. É quando a companhia de qualquer coisa que não esteja da minha pele pra dentro faz falta. De luz.
Há noites em que meu coração iria embora se pudesse largar a caixa de ossos. Eu acordaria na manhã seguinte sendo a criatura gelada que me pedem pra ser. “Não volto nunca mais”. Ele partiria em busca de um lugar que não existe — um lugar lindo que eu sempre busquei para nós mas nunca encontrei, embora saibamos reconhecê-lo até cegos. Eu fracasso no nosso propósito há duas décadas e por isso sou torturada sem dó. De dia sempre lembro, aliás, que a noite vai chegar. Ela não me perdoa também. O mundo não é suficiente para nós três. Como não ficar louco vivendo com uma sede impossível de saciar?
Coração rebelde à parte, amanhã é um novo dia. E ele tem a sua função. Viver só de noite seria como uma overdose ininterrupta.
Não que eu não flerte com essas merdas também.