Painroots

Mandy
Mandy
Aug 22, 2017 · 3 min read

Quando eu era criança, meu maior medo era perder a minha mãe. Sonhava com isso noites e noites, vivia na iminência de acontecer e cada vitória me mantinha caminhando e me preparando para sentir a mesma coisa de novo no dia seguinte.

O medo não se torna corriqueiro.

Quando entrei na escola aos 5 anos, sentia saudade de casa, da minha mãe e eu tinha muito medo de não saber lidar com as outras crianças. Era amada pelos meus pais. Meus problemas familiares estavam só começando. Não tenho uma lembrança dessa idade que me explique de onde veio tanta dor.

O medo do nada é pânico.

O desespero é a loucura das pessoas sãs.

Quando fiz 6 anos, fui adiantada do pré II para a 1ª série porque era inteligente demais. Nova escola. Chorei e sofri tudo de novo.

Frequentemente um talento significa uma solidão.

Perto dos 14 anos, perdi minha mãe. É bem estranho o choque que seu cérebro recebe ao vivenciar a pior coisa com a qual ele sempre contou a vida toda. Eu me lembro de falar pra minha madrinha que tinha medo de não ser feliz de novo, nunca mais. Eu não queria vê-la sofrendo. Eu queria encontrar uma maneira de não sofrer também.

Meu medo não foi egoísta.

Especificamente hoje, eu sou só alguém que viu nos próprios olhos o brilho da loucura. Nada além disso. E eu me pergunto como é para quem está de fora ver esse olhar. Se as lâminas das palavras que eu cuspo sem querer cortam eternamente, como algumas coisas me cortam. Se é divertido de ver para quem não tem empatia. Se quem me diz para “focar um pouco mais no trabalho” tem alguma noção da violência que isso me desperta.

Tenho consciência de que nunca fui completamente sã. O que eu sempre quis, do fundo do meu coração, era que as pessoas pudessem me ver por dentro de um jeito mágico, e perceber que eu nunca quis fazer merda. Eu nunca quis machucar ninguém. Eu não sou uma pessoa ruim. Mas parece. Eu sei. Muitas vezes.

A doença te torna réu de coisas que você não fez.

Mas eu também me pergunto se conseguem imaginar o que eu sinto sendo alguém que sempre se definiu pelo que tinha medo de perder. Eu não pretendo tornar minha dor superior, mas eu não acho que alguém comumente viveu tantas vezes a experiência de ser abandonada por ser difícil demais de amar. Que ficou tanto esperando uma visita e ninguém apareceu.

Nessa vida, eu tenho certeza que a minha missão é aprender a não precisar de ninguém. Ou sentir como é precisar e não ter. Talvez eu tenha tido 400 anos atrás. Talvez eu tenha sido uma pessoa muito ruim.

Eu voltei a rezar. Eu não faço todo dia. Tenho uma estranha dificuldade de falar com quem eu tenho que olhar pra cima. Meu pai, Nosso Pai. Sei lá.

mas nesses momentos

só nesses momentos

em que meu pai me leva num hospital psiquiátrico sem saber como escreve p s i q u i á t r i c o em que Nosso Pai me amolece os braços quando eu fecho os olhos diante de uma vela meio torta

eu

me

sinto

redimida

minha raiva de existir diminui

o amor me abraça como quem chegou no Tietê cheio de malas.

)
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