Road to nowhere

As duas malas caíram das minhas mãos ao mesmo tempo e o pó se levantou diante de mim. Analisei o quanto tinha andado e o quanto tinha para andar. Poderia ser o dobro, mas tudo parecia amargamente igual.

Caminhar por uma estrada sem fim soava rebelde. Não ter a história da sua vida pronta antes de ela acontecer parece óbvio, mas é um ato de coragem contra o relógio. Eu só não contava com o fato de que a filosofia do caminho também desanima a viagem. Há tempos não sei o que vim fazer nesse lugar e achava a descoberta uma coisa muito excitante. Agora é como uma coceira na sola do pé. Tesão às 4 da manhã. Falta de cigarro às 4 da manhã.

Olhei para a estrada e o mais longe que conseguia ver era sedutor. Quando eu era criança e viajava, gostava de observar as montanhas distantes e doía o quanto eu queria estar lá naquele exato momento. Como se meu coração idiota dependesse disso para bater mais rápido por alguns segundos. Mas se eu estivesse na natureza e visse a rodovia, a dor seria de vontade de andar a 150 por hora. O que nós realmente amamos é sempre o horizonte.

Eu sentia um ar cortante, o nariz machucado e a boca seca. Pior era sentir que parar ou andar não fazia diferença. Sentei embaixo de uma árvore firme e me vi. Eu sempre criei raízes grossas e profundas. Mas, diferente dela, eu as arranco com muita violência diversas vezes durante a vida. A estrada me chama ou a terra não é fecunda. E é quando tudo dói um absurdo: ficar, ir embora, dar um passeio. Uma árvore não pode andar. Ela deve continuar onde está. Quer ser pássaro e carregar o mundo com você? Uma árvore que cruza continentes? Você é mais louca que seu coração.

Suspirei cansada. Pensei em como explicar à solidão que eu queria que ela me deixasse sozinha. Casa deveria ser de onde partimos, mas era para onde eu estava tentando ir.