Pavor Sociovirtual, Tempos de super Exposições e Cultura de Hypes

CATARINA MENDES
Aug 9, 2017 · 4 min read
A Incredulidade de São Tomé — Caravaggio, 1599

Não sou algum tipo de influencer, não tenho uma popularidade nas redes sociais, muito menos a uso para promover meus trabalhos e projetos pessoais (coisa que eu deveria fazer e com bastante ênfase). Na verdade toda essa cultura de hype me dá um certo pânico e pavor. Que loucura! Logo eu que fui procurar me especializar justo em marketing. Paradoxal, né?… Não. Sabe aquela história de “remédio ruim mas tenho que tomar pra ficar boa logo”? Pois bem…

Tenho algumas crises repentinas, de uma certa repulsa, relacionadas com a questão do uso das redes sociais e (super)exposições virtuais. Lidar com esse tipo de comportamento ainda é algo que estou tentando descobrir como fazer. Pois não faço direito e preciso!

É, Catarina, nossa mente é um labirinto de auto-sabotagem...

E é uma guerra pessoal exaustiva terrível, principalmente quando se tem uma visão muito autocrítica sobre suas próprias ideias, suas próprias criações, trabalhos, produções, e afins. Com certeza, as nossas inseguranças nos guiam facilmente pro caminho da nossa própria auto-destruição.

E aí, eu associo essa problemática à questão do tema desse texto por dois motivos:

  1. Fazendo uma auto-análise sobre como lido com questões relacionadas a tudo que remete à fama e popularidade, cheguei à conclusão que as duas problemáticas andam de mãos dadas (ao menos se tratando do meu caso em específico).
  2. Tenho passado a maior parte do tempo me perguntando, quietinha com meus botões, qual o grau de relação entre nossas batalhas pessoais com nós mesmos nessa busca angustiante de “sermos algo, ou fazermos algo” e a vontade que temos de mostrar para as pessoas como estamos (na maioria dos casos, felizes e bem sucedidos) e o que estamos fazendo (mais em termos de produtividade).

Pra encurtar esse texto (por que as reflexões dariam um livreto, rs) a única conclusão que exponho aqui (Eita! Eu disse Exposição!!) é que a ideia de “Sucesso” é totalmente abstrata. Como aquelas areias de deserto que se perdem no próprio espaço, virando poeira, na medida que sofrem com a pressão do sopro do vento. E é efêmera, se dissipa com o tempo e pode se perder em nossas próprias mentes.

Há uma semana atrás, mais ou menos, estava conversando com minha mãe a respeito disso, e uma das coisas que lembro que lhe falei foi: “Parece que a questão não é mais sobre ‘o que você tem’, ou ‘o que você é (em essência)‘ , mas sim com ‘o que você faz‘. É só isso que importa agora”...

Eu tenho me torturado mentalmente o tempo inteiro com isso. Principalmente nos últimos 7 meses, desde que começamos esse ano regido por Saturno, o pai da ordem. A divina tradução do conceito de “Tá na hora de ir lá e fazer! Já chega de irresponsabilidade, minha filha! Não tem como fugir não”.

E pra mim é tão interessante como a origem da cultura da super exposição midiática e virtual pode ser explicada através desse comportamento, que quanto mais leio sobre isso e entro nas redes para dar aquela famosa checada rápida mais eu associo ao que escrevi aí em cima. E aí, o que me acontece?Espanto, Surto e Repulsa.

Gosto de ler bastante sobre esses temas, não apenas para usar esse materiais como apoio de pesquisa de coolhunting em trabalhos que faço, mas porque sinto que ainda que eu fique martelando essa problemática em minha cabeça, uma parte de mim vai sempre gritar apavoradamente em determinados surtos de pânico por pensar em algo relacionado ao tal do “Hype” (aaaaaaaaaaa).

Acho extremamente curioso como esse comportamento ganhou uma dimensão de conceito relacionada a algo cultural (cultura de hype/cultura de super exposição).

  • “Hoje eu fiz isso.”
  • “Job do dia! #LACRE”
  • “Mais um job que eu fiz”
  • “Hoje, almoçando com fulano!”
  • “ Se sentindo: feliz”
  • “Fulano está em um relacionamento X com Ciclano”
  • “Fulano usou a panela de pressão pela primeira vez e não explodiu a casa”

Mas, paradoxalmente, ao mesmo tempo que acho tudo isso curioso (e engraçado até) eu me assusto.

Se eu tivesse como representar isso imageticamente, eu diria que me sinto como se estivesse protagonizando a cena da obra A Incredulidade de São Tomé, de Caravaggio, uma das minhas obras preferidas da vida de um dos meus artistas preferidos da vida, que por sinal fazia parte do movimento Barroco (paradoxo, paradoxo e mais paradoxo em forma de expressão cultural! Que coisa, né?)… Foi exatamente essa imagem que me veio na cabeça quando comecei a escrever o primeiro parágrafo desse texto.

Quanto mais eu vejo esse quadro mais me vem a certeza de que ele descreve praticamente a maior parte das minhas reações frente a maior parte das coisas que me são apresentadas. Mas o principal aqui: Traduz perfeitamente meu relacionamento com essa tal “Cultura da Super Exposição Virtual”… Mais outro paradoxo! Eu hein!

Talvez, em algum lugar entre as várias incertezas que carrego comigo diariamente, esse combo paradoxal da Curiosidade X Espanto, em relação a toda essa cultura de super exposição e conceito de Fama e Sucesso, me apareça de forma mais “leve”, ou deixe de representar em mim essa espécie de “bicho de sete cabeças” que me causa os surtos de repulsa momentâneos. Ao menos, posso afirmar a mim mesma que estou na prática desse exercício de transformação. E que exercício, viu?…

E tudo isso aqui foi só uma reflexão exposta. Eita…

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Acredito no poder das palavras. Tô aqui pra levantar questões. Arte. Cultura. Comportamento. Por aqui, fica o não dito (ou o dito) pelo escrito…

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