A famigerada planilha ‘Como é trabalhar nas redações do Brasil’

Circula na internet uma planilha intitulada “Como é trabalhar nas redações do Brasil”. De forma anônima, os jornalistas podem descrever como é trabalhar em vários jornais brasileiros. Entre os mais avaliados estão Folha de São Paulo, Estadão, g1, Record, e muitos outros, entre revistas, sites, diários, semanários. Redações mais novas como Buzzfeed e Catraca Livre também entraram na dança. A primeira descrição data do dia 18 de agosto de 2016.

É excruciante ler aquilo.

Sabe por quê? É tudo verdade.

Não tem como argumentar que “ah, devem ser funcionários rancorosos das empresas”, sabe por quê? Jornalista nunca é tratado como funcionário. Nunca. Jamais.

Somos “agregados” à uma redação, onde se justifica tudo: as horas causticantes a mais, trabalhadas sem pagamento de horas extras; os plantões intermináveis e os domingos longe da família; a falta do colete à prova de balas pra cobrir aquele confronto simpático na fronteira; a insalubridade da alimentação “correndo” todos os dias, e a vida à base de salgado e café pra aguentar o tranco, ou a comida lixo que é servida como se fosse um grande favor; os salários atrasados e com pisos infinitamente baixos, sem previsão nenhuma de crescimento.

E eu nem comecei a falar do assédio moral, sexual, psicológico, e os carões que você passa com dono de jornal, com o filho do dono, com o amigo do dono, e os jabás infinitos, e o sorriso forçado.

A depressão que você angaria, as férias atrasadas e sem pagamento, o estresse que você não vê retornar na forma de dinheiro nem, muitas vezes, reconhecimento.

E você vai lá todos os dias passar por isso, porque jornalista AMA o que faz. E porque não tem muita escolha.

Essa planilha está fazendo a gente se questionar se existe algum lugar no mínimo digno pra se trabalhar. Porque jornal e veículo de comunicação tem mania de fingir que não é empresa, que não tem CNPJ, e que, logo, pode pagar seus jornalistas com tapinha nas costas.

A planilha é assustadora. Destaco alguns trechos bem terríveis.

“Fiquei pouco tempo mas ninguém gosta realmente de trabalhar lá, é só algo que rola quando não tem outra opção, parece. A diretora manda e desmanda, os critérios são se ela gosta ou não do produto (e ela tem um gosto ruim). Parados no tempo, machistas e com muita gente babaca, embora tbm mta gente legal”.
“Editor altera as reportagens deixando o texto com erro de informações, além dos erros gramaticais. Promessas de contratação e meses recebendo como PJ, com atrasos salariais”.
“Do impresso ao digital mulher ganha menos e é minoria em cargos de chefia. Pagam em dia com beneficios (não fazem mais que a obrigação) e colegas incríveis, mas os chefes parecem que estão em 1940, atrasados, retrógrados, machistas e preconceituosos ( e pau mandados de políticos.)”.
“Pouca orientação clara dos donos, assédio moral em mensagens de grupo, atrasam salários, só contratam PJ e pagam muito abaixo do piso”
“Pedi demissão junto com outras dez pessoas no mesmo mês. O assédio moral dos três chefes principais é constante, as mudanças são bizarras e aleatórias, não existe progressão de carreira nem reajuste salarial. Além disso, fiquei dois anos sem horário fixo”.
“Trabalhei lá há alguns anos e tive contato direto com o dono da empresa, um cara extremamente abusivo e que gritava com todos os funcionários. Amigos disseram que ele ainda faz isso com frequência, no nível de ligar pra você durante a folga e começar a te xingar e gritar do nada. Fora as ameaças constantes de demissão. Pagava mal, só em cheque e achava que só deixar a cozinha com um monte de refrigerante serviria para matar a fome do pessoal. Trabalhávamos a semana toda e as folgas eram cassadas sem a menor cerimônia”.
“Não sei como é hoje. Mas trabalhava mais do que o horário padrão, inclusive domingos, cobrindo mais do que fui contratada para fazer falsificando as folhas de ponto. Jornalistas todos PJ e infelizes, reclamando muito do salário e das condições”.
“O salário era bom, tinha benefícios, mas você só aprendia na marra. Tinha gente que trabalhava muito, tinha gente que não fazia nada, tinha gente que fingia que sabia. Sofri assédio sexual também, mas fui instruída a me calar por um supervisor porque o assediador “tinha família””.
“Assédio sexual de diretoria acobertado pelo RH (curiosamente, a mesma postura no recente caso da repórter assediada pelo Biel). Ambiente de trabalho vergonhosamente ruim: de trabalhar em uma garagem sem janelas com mofo nas paredes e no teto a trabalhar no meio de um andar em processo de destruição, com cadeiras abandonadas e cabos expostos. Uma empresa fadada ao fracasso há tempos, só esperando pra saber quem vai apagar a luz e fechar a porta”.
“Plano de carreira é nulo. Aumento de salário é inexistente. Você almoça e janta na mesa de trabalho (se sair da redação para comer, trabalha uma hora a mais para compensar). Não dá treinamento adequado e insiste na mentalidade de jornal. Mas é uma das poucas redações em que escutei “por favor” e “obrigado””.

Existem elogios às empresas sim, na planilha. Dê uma olhada.

“Clt e paga em dia. Uma boa vantagem em relaçao a outros veiculos”.
“Melhor que a média das outras redação. Esquema de plantão tranquilo, pagamento de piso salarial e plano de carreira”
“Trabalho bom, apesar da rotina estressante e da falta de perspectiva de crescimento profissional”
“Uma grande escola de jornalismo, eles pareciam querer fazer a coisa do jeito certo. Minha chefia e colegas eram legais, aprendi muita coisa, então sem problemas. Doía um pouco o salário baixo e a velhice que a gente sentia dos gestores, que não entendiam nada do mundo digital e por isso evitavam criar coisas nessa direção”.
“A equipe era ótima; minha editora, fofa. O salário é muuuuito baixo, mas o restaurante era ótimo”.

É. Os elogios não são muito extensos.

Note o seguinte: os elogios não são muito bons, sabe a razão? Porque eles elogiam coisas que deviam ser OBRIGAÇÃO das empresas (CLT, salário em dia, plano de carreira), como se fossem um ~plus~, uma vantagem.

Tem redações cujo único elogio, como você pôde ver acima é: “recebi um ‘bom dia’ e ‘obrigado’”.

Vamos lá, pagar salário em dia é a obrigação que qualquer empresa tem com seu funcionário. Mas lembre-se lá atrás: jornalista não é funcionário, na cabeça de várias empresas de comunicação. Jornalista é mão de obra, e pelo jeito que somos tratados, das mais baratas, voláteis e descartáveis.

Quando a redação é um ambiente saudável pra se trabalhar — sem briga, sem assédio, pessoas de bom humor, respeito no âmbito do RH, mais coisas OBRIGATÓRIAS — mesmo que o salário e as condições de trabalho sejam um lixo, nós elogiamos.

Jornalistas: Tudo o que achamos que é “bom”, não passa de uma obrigação. Simples assim. Obrigação trabalhista. Vamos aceitar isso? Porque senão as coisas vão continuar ruins.

Ninguém está nos fazendo favor nenhum pagando em dia.

Ninguém está nos fazendo favor nenhum não assediando ou explorando.

O assédio é um capítulo à parte. Muitos comentários da planilha são claros ao descrever situações de assédio sexual e moral. E muitos comentários exploram a seguinte questão: é foda ser mulher e trabalhar em uma redação meus amigos, vou contar para vocês.

Só que assim, quando eu escrevo esse artigo, eu não estou me eximindo dessa realidade. Na verdade eu me considero sortuda. Hoje eu trabalho em uma das melhores redações da minha cidade. Sabe porque? Eu penso igual a todos os colegas. Aqui pagam em dia. Tem hora extra. Tem carga de trabalho respeitada. Então eu me sinto privilegiada.

No passado, meu salário era atrasado, sofria assédio moral de uma editora (que na verdade assediava todo mundo), era obrigada a ouvir de dono que tava, na verdade, é bom demais.

Até quando a gente vai viver assim, jornalistas? Até quando nessa síndrome de Estocolmo? Quando é que a gente vai olhar pra nossa profissão com o olhar de não-exploração?

Espero que essa planilha seja só o começo.