A “concursificação” da sociedade brasileira
Porquê uma constante se faz ser revelada: caso dê nada certo, apele para o concurso público. E acredite: isso não é nada bom.
Seres humanos, no geral, gostam de conforto. De estabilidade, segurança. Ao passo que gostariam muito de trabalhar com algo que tem paixão, com a devida remuneração todo mês, e que lhes possa propiciar um certo conforto, produto do nosso amor pela profissão que escolheram.
O grande problema começa a residir quando as pessoas, frustradas em seus supostos “empregos dos sonhos”, trabalhando em algo que, em teoria, queriam, perceberam que as coisas não são como elas pensavam. Elas se sentem frustradas com as remunerações cada vez mais vergonhosas, que não compactuam com o investimento realizado para se trabalhar na área pretendida. E vem a pressão da família, dos amigos, da sociedade.
E aí que a solução típica pra muita gente começa a pipocar (e muita gente levar a sério): faça concurso público.
CONCURSO PÚBLICO: A SAGA
Para que se ingresse a carreira nos órgãos públicos, se faz necessária a realização de um concurso público. Sempre foi uma constante no país, mas com o advento do governo Lula, isso foi intensificado. E então surge o sonho dourado da classe média brasileira, ao lado dx filhx formadx em Medicina ou na casa de praia: um emprego estável em algum órgão público, cuja remuneração é maravilhosa, conseguido por meio de um excelente concurso público.
Claro, isso não é fácil de ser conseguido. Horas e horas de estudo são utilizadas, cursinhos gastos para auxiliar na assimilação de conteúdo, lazer e diversão são palavras proibidas. Além de receber aquela aura (e nome) de concurseirx: aquelx que posta frases motivacionais no Insta e acha muito legal passar na cadeira umas 12 horas por dia estudando e tentar passar em algum concurso que não passe fome.
Mas endossando novamente: nada contra quem quer isso. Acho válido seguir carreira na esfera pública, uma vez que há uma ausência gritante de bons profissionais no país. O grande problema é essa SUPERVALORIZAÇÃO no que tange a fazer concurso.
ISSO PODE PREJUDICAR O PAÍS? TEMOS CULPADOS?
Acredite. Pode prejudicar, e temos culpados, sim. Mas a culpa é no Brasil como um todo. O Brasil, cuja reputação se pauta no inflacionamento do serviço público. E é um paraíso pautado na zona de conforto, dada a instabilidade de emprego que tem assolado no país nesse último século (o XX, vale constar). E vale constar que a culpa recai sobre as empresas, que não valorizam os profissionais que possuem, e visando tão somente o lucro.
O Brasil precisa de professores, engenheiros, pesquisadores, cientistas. Jornalistas, publicitários, músicos, atores. De empreendedores. Precisam também de médicos, advogados e até mesmo servidores públicos. O que o Brasil não precisa é de mais bacharéis em Direito cujo objetivo é passar em concurso público. Precisa-se parar com essa glamourização do concurso público, que não se é possível sendo feliz de uma outra forma. Mas para isso precisa-se mudar a mentalidade da sociedade brasileira como um todo, e isso passa por todos os campos possíveis.
E comece a abandonar a pecha da cultura de concurseiro: isso é ridículo, a começar pelo nome.