Jornalismo, o mensageiro de quem não produz

Marcelo Odebrecht mostrou em sua delação premiada o que se sabe há tempos, mas que poucos abordam: o jornalismo tradicional é a voz do estado. Veja bem, eu não disse que é a voz de um governo petista ou tucano, por exemplo; é a voz de uma organização que precisa de apoio popular para existir. O jornalismo, assim, tem como fim vender à população a ideia de que o estado é necessário. E faz isso mesmo que de forma indireta.

Nas faculdades de jornalismo, alunos e professores partem do princípio de que o jornalismo é a busca pela verdade, e, por isso, funciona como um “pilar da democracia”. Alguns chegam até mesmo a acreditar que é possível a isenção frente aos fatos. Isso tudo, como sabemos, é mera demagogia, com a finalidade de manter credibilidade frente aos consumidores. Pura encenação. O máximo de oposição à estrutura estatal é momentânea, específica; ocorre quando um veículo tentar enfraquecer um político, um partido, uma pauta. A estrutura em si nem de longe é questionada.

Assim, para o jornalismo, o estado é um fato. O estado, para o jornalismo, é o meio pelo qual as coisas são e serão resolvidas.

Atentem-se para os termos utilizados pela imprensa na época de eleições: “Festa da democracia”, “exemplo de civilidade’, “o povo vai às urnas escolher seus representantes”, “democracia participativa”. Quantas vezes ouvimos certo colunista, comunicador, afirmar que a sociedade só pode ser transformada através da política? Ou melhor, que tudo é política na vida das pessoas? É um tema tão batido que nem se discute. Virou “verdade”. E de certa forma é, infelizmente.

Hoje, no Brasil, nada pode ser revolvido sem a política porque é justamente o estado gigante que temos que proíbe que as coisas sejam resolvidas pelos indivíduos. Eu não posso sequer negociar um contrato de trabalho, por exemplo. Mas será mesmo que não podemos ter uma sociedade na qual política (ou políticos) sejam irrelevantes? O máximo de organização que somos capazes de criar é essa que temos? Para o jornalismo, as coisas devem continuar como estão.

Mas e por que o jornalismo é tão favorável à democracia e não a outras alternativas, como, por exemplo, uma sociedade sem estado? Por que nenhum veículo defende que o estado seja mínimo ou inexista? Respondo: por uma questão de sobrevivência.

Os veículos tradicionais, de tempos em tempos, posicionam-se favoráveis à redução estatal em algumas áreas. Mas nenhum deles é favorável a mudanças que impactariam seu modelo de negócios. Algum de vocês já viu um jornal que defende o fim de gastos públicos (municipais, estaduais, federais) com publicidade?

Esses pontos levam ao questionamento central deste texto: Como os veículos tradicionais se sustentariam numa sociedade de livre mercado? Quem pagaria a conta se não existisse o governo para pedir que a Odebrecht “ajude” aquela revista ou jornal em dificuldade? Ou, ainda, quantos deles seriam lucrativos sem a publicidade pública, de sindicatos, de políticos em época de eleição?

E nem é um problema um veículo de informação atuar para defender interesses de empresas privadas. Desde que isso seja feito com dinheiro próprio, é claro. A questão é que veículos tradicionais, que se dizem sem lado, posicionamento, defendem interesses, mas os mascaram sob o guarda-chuva do jornalismo. Falta transparência, honestidade, para assumir que apoiam A ou B. Isso em todos os campos ideológicos.

É aquilo que o depoimento de Marcelo escancarou: um dos atores desse jogo que visa manter o poder nas mãos de uma casta que não produz sequer um parafuso. Os que produzem algo, como a Odebrecht, o fazem apenas nas condições de quem tem o monopólio da decisão. Ou seja, para empreender, crescer, empregar, é preciso seguir tais regras. Romper com elas significa prejuízo.

O jornalismo, como bom marqueteiro que é, beneficia-se disso. Tem pauta para todo dia, consegue público para algo (política) que é “essencial para a vidas pessoas”. Em tempos em que questionamos a estrutura das instituições, do estado, da política, não veremos uma autocrítica de veículos e jornalistas? Será que estes não contribuem para nossos escândalos de cada dia?