Máquinas orgânicas

O que nos é essencial? O que eu sou além dessa carcaça orgânica? Como o inorgânico torna-se orgânico num pulo? Esse salto lógico nunca vai me parecer óbvio, acho. A resposta está nos aminoácidos, nas cadeias peptídicas, no DNA. Tenho quase certeza que sim. Como pode o que é somente coisa passar a ter consciência? Eu sou uma máquina, um mecanismo orgânico, igual a você. Nós temos um processador capaz de ler as informações que chegam através de nossos receptores de sinais. Vários sinais, sejam sonoros - ondas mecânicas -, seja pela luz visível - ondas eletromagnéticas -, seja até mesmo pelo tato, que nada mais é que a sensação do atrito entre esse aglomerado de células que compõe a minha pele e as moléculas de uma superfície qualquer.

Eu sou como esse computador que ta do meu lado, sou como esse smartphone no qual eu gravo essa mensagem, que agora aparece na tua tela. E teus olhos (receptores) captam, enviam pro teu cérebro e teu lobo frontal processa, milhares de sinapses nervosas estão a acontecer agora enquanto eu digito e você lê. Parte do que eu digo será descartado já que você tá usando a memória recente o tempo todo (que nem eu), ela é uma espécie de HD de menor capacidade de armazenamento, ou pode ser que tu considere tudo isso tão especial que guarde no teu HD de maior capacidade, mas acho que não. Na verdade, acho que esse texto vai ficar perdido nesse oceano binário virtual, poucos conhecem meu blog, eu nem divulgo... Então vai ficar aí.

Às traças cibernéticas eu dedico este monólogo.

Como ia dizendo, somos duas máquinas processando informações. O que somos além disso? Estamos sempre a processar qualquer coisa que nos cerca. Tudo o que eu sou, tudo o que eu sei, tudo isso foi apreendido pelos receptores e processado. E dentro de uma linha lógica, de acordo com informações processadas anteriormente, eu tirei todas as conclusões - as quais formam meus posicionamentos acerca de tudo o que me ronda - através de um encaixe de coerência das novas informações que chegam o tempo todo. Política, religião, hábitos, gostos, repulsas, até mesmo meu caráter.

Tá, eu não to sendo muito objetiva, deixa eu me fazer entender: Nosso cérebro é plástico, assim como nosso caráter (é um dos motivos de eu acreditar muito na educação). Estamos infinita e indefinidamente em processo de mudança, pois, a cada momento, nosso processador central recebe mais e mais informações, de modo contínuo, e as encaixa naquela linha lógica pra que haja coerência em todo aquele código que já foi processado e forma o que chamamos de conhecimento.

Eu sou um troço que recebe o tempo todo do meio externo tudo aquilo que me compõe e que acredito ser eu, ser minha identidade, aquilo que me caracteriza como um indivíduo, único. Se tudo o que eu recebo vem de fora, então o que me resta essencialmente? Meu código genético? E no que meu DNA é capaz de implicar em minhas ideias? Eu sou mesmo única? Eu só sou quem sou por ter vivido as situações que vivi, ter recebido informações variadas das máquinas que entraram na minha vida e trocaram ideia comigo, ter captado o que captei a partir de meus receptores... Se não fosse tudo isso, mesmo mantendo o mesmo código genético, eu seria esse "eu" que digo ser? Então me pergunto novamente, o que me é genuíno? Eu sou única? Especial? Eu nunca curti muito esse lance de ser especial. Parece ir por um viés religioso e, na minha humilde opinião, nós só somos um acidente cosmológico, físico, bioquímico. Não há nada que garanta o contrário, aleatoriedades vivem a acontecer por aí... O nosso grande problema é que somos máquinas. E, como tais, buscamos razão lógica em qualquer evento. Mas muitas vezes não há, simplesmente. Pode mesmo ser que haja qualquer entidade que foi capaz de desenvolver toda essa rede de sinapses, mas não teria qualquer razão pra sua existência, qualquer fundo lógico. E pode mesmo não haver. Ficamos elas por elas. Sendo o acaso ou não, não faz sentido nenhum qualquer que seja a raiz de toda essa porra. Ou talvez faça, sim, muito sentido, mas, devido à pouca informação que eu pude processar ao longo desses 19 anos, eu simplesmente não tenha encontrado coerência nenhuma pra poder correlacionar com o conhecimento anterior já armazenado no meu HD. Vai saber. Como eu disse, continuamos no elas por elas. Acho mais provável ser aleatório mesmo. Assim como minha (in)existência. Assim como o combo de sobreposições que possibilitaram a condição perfeita pro desenvolvimento de vida baseada no carbono. Assim como a possibilidade de existência da consciência.

Temperatura ideal, hidrogênio, nitrogênio, metano, oxigênio, descarga elétrica. Carbono! E estavam formados os primeiros precipitados, os primeiros aminoácidos, posteriormente as cadeias peptídicas, o DNA. E, voilà, os primeiros terráqueos, unicelulares primitivos. Buceta! Como isso é possível!!! E o pior vem depois, quando essas pequenas máquinas se desenvolvem e chegam num ponto em que são capazes de compreender todo esse caralho. Cara, meu deus do céu. Isso é muita viagem. A consciência é um troço muito bizarro.

Teve um cara que disse que nós somos o universo se contemplando, uma parada assim, achei o máximo essa frase. Às vezes, eu penso que o Cosmo é uma máquina egocêntrica que quer ser admirada por qualquer coisa, mesmo que seja só virtualmente, como é o caso da nossa consciência, da nossa existência, inclusive, uma vez que sequer existimos, é tudo virtual. Como tudo isso é possível eu não faço a mínima ideia.

Santo cristo, alguém me explica como o inanimado é capaz de tornar-se um negócio que realiza funções, que tem metabolismo e o caralho? E, pior, como posteriormente essa porra consegue desenvolver consciência, porra! Isso é absurdo! Quase insano! Se me contassem essa história, trocando as personagens, eu diria que é balela e mandaria pastar. Porque, vc sabe, eu sou uma máquina. Assim como você. E nós nem existimos. Mas isso é real.

A conclusão é que eu não existo, nunca existi, nem você. Nós somos uma engenhoca de carne e osso, com sangue sendo bombeado, um processador cefálico, repletos de receptores, mas nem todos eles. Tem uns bichos que possuem receptores que nós não temos, eles são capazes captar ondas que a gente nem imagina como devem ser... É tipo tentar explicar o vermelho pra alguém que nasceu cego. Imagina que louco se houver outros meios de propagação de matéria ou energia que não sejam os que já conhecemos e que nenhum dos seres que conhecemos sejam capazes de captar. Pode até existir, mas como vamos estudar isso? Não vamos. Só. Vai ficar aí, jogado às traças, que nem esse solilóquio. Mmmm.

Pera, acho importante diferenciar dois conceitos, senão estarei jogando pérolas aos porcos esse tempo todo: ideias e fatos.

Fatos são objetivos, concretos, eles existem independentemente de nossas ideias ou consciência; já as ideias são conclusões às quais chegamos através de saltos lógicos que damos a partir de toda a informação que recebemos do meio exterior.

Ideias não surgem de nós do nada, elas se desenvolvem a partir de informações pré-recebidas. Há ideias corretas e outras incorretas. Não me refiro às questões morais, até pq o universo não tem bússola moral, já sabemos, mas falo da realidade objetiva. Algumas ideias estão em conformidade com a realidade, outras não, seja por falta de informação, por compreensão ou transmissão equivocada de determinado dado ou erro do receptor responsável por captá-lo.

Continuando, se eu não existo, nem você, nem nada disso... Então como tudo parece tão real? A única coisa que carregamos essencialmente é nosso código genético. Não é que tua carcaça não exista, mas você, essencialmente, não existe, pq o teu "eu", enquanto consciência, é só informação coletada (do meio externo) e que é facilmente descartada, basta a morte. A morte biológica finaliza nossas faculdades mentais, nosso processamento, morre tudo. A única coisa que não morre são tuas ideias. Quer dizer, isso se tu tiver as salvado em outro HD como eu to fazendo agora. To salvando tudo isso no teu HD. Toda essa informação que eu guardava só aqui dentro (da minha carcaça) eu to transmitindo pra tua memória, mas tu nem ta percebendo, é quase automático.

Então, na verdade, nós não existimos, mas podemos, de certa forma, tornarmo-nos eternos com transmissão de dados. As ideias. Elas não morrem se são transmitidas. Basta existir sempre meios de se armazenar e transmiti-las que elas existirão. Elas só morrem se são enclausuradas. Mas ideia é tipo um fóton, sabe? Carece movimento, carece transmissão, senão de que adianta? Nesse momento eu to me eternizando através do teu HD. Faça o mesmo, só pra que eu não morra. Aliás, a morte é um fato, a inexistência tbm. Enquanto houver máquina, como nós, haverá ideia. Quando tudo isso morre, só exite o universo, de modo objetivo, os fatos continuam a existir, só as ideias é que tornam-se incapazes e não são transmitidas. As idéias, elas são imortais, desde que transmitidas, a realidade objetiva taí, a gente só tenta entende-la. Mas não consegue direito. Acho que somos como aqueles terráqueos primitivos unicelulares. Tão rústicos... O sono já não me deixa elucidar mto bem o que estou pensando. Por isso a telepatia seria uma parada incrível, eu nem precisaria me esforçar pra transmitir esses pensamentos dessa maneira arcaica que é a escrita. Bastava a telepatia e você entenderia tudo em poucos minutos, talvez segundos. E teríamos uma consciência coletiva, todo mundo entendendo todo mundo facilmente. Muitos erros lógicos surgem justamente por dificuldade de comunicação. Ah, a telepatia seria um salto! Tornariamo-nos uma só consciência. Mas ao mesmo tempo parece sombrio... Pensaríamos exatamente igual e empacaríamos pelo mesmo motivo: não mais por erro de comunicação ou lógico, ja que várias cabeças pensam melhor que uma. Mas, talvez, por ausência de sentidos necessários mesmo e, consequentemente, por desconhecimento de certos fatos. Mas isso aí já é viagem. E perderíamos tbm essa noção de individualidade que carecemos tanto… Ahhh, o ego…

Enquanto nada disso acontece, eu vou fazer logoff e experimentar mais um pouco da não-consciencia ou quase-morte. Mentira, pq eu nem existo! Hsuahsuahua Parece que eu to chapada, mas to normal. Eu nunca fico chapada, nem bêbada, nem nada, sou mto controlada. Eu cheguei à essa conclusão absolutamente sóbria. Na verdade, fiquei matutando sobre a nossa individualidade estar na interação entre DNA + meio externo. Mas como o que sabemos é tão pouco sobre o quanto a informação genética é capaz de interferir em nossos pensamentos, eu fico na dúvida mesmo. Essa porra desse código tem que ser descriptografado logo. Que saco. Eu quero saber! Queria manjar mais de biologia, mas sou leiga e burra demais pra entender certas coisas. Deixo o pepino pra você, que é só fruto da minha imaginação... Você nem me conhece afinal de contas, foda-se. Boa masturbação mental e boa madrugada. (=

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