Os filhos da Poeira
Bom, como ainda não deu tempo de me inspirar e escrever alguma coisa, como primeira publicação eu queria contar uma história que me inspirou. Eu ouvi a história num episódio do podcasts INVISIBILIA do NPR, chamado THE POWER OF CATEGORIES, que conta várias histórias sobre a importância de pertencer. De ter uma categoria.
O episódio é bem maravilhoso, e no final elas contam uma historinha, pra você se identificar…
Vou traduzir livremente tanto a história, como algumas coisas que elas dizem, mas fazendo adaptações pra não ficar totalmente um transcrito do episódio que ficaria meio sem contexto.
Essa história de Simon Rich é chamada “Os filhos da poeira”
De acordo com Aristophanes (naquela obra de Platão o Simpósio/o Banquete), existem originalmente três sexos: os filhos da lua, que eram metade masculino e metade feminino, os filhos do sol que eram inteiramente masculinos, e os filhos da terra, que eram inteiramente femininos. Todos tinham quatro pernas, quatro braços e duas cabeças, e passavam seus dias abençoadamente felizes.

Zeus no entanto, ficou con inveja da felicidade dos humanos, então ele decidiu dividir todos eles em dois. Aristophanes chamou esta punição “A origem do amor” porque desde então, os filhos da terra, da lua e do sol tem procurado desesperadamente pelo mundo as suas outras metades.

Só que história de Aristophanes está incompleta, uma vez que há também um quarto sexo: os filhos da poeira. Diferente dos outros sexos, os filhos da poeira consistiam de apenas uma metade. Alguns eram masculinos, alguns eram femininos, e cada um só tinha dois braços, duas pernas e uma cabeça.
Os filhos da poeira achavam os filhos da terra, da lua e do sol totalmente insuportáveis. Sempre que eles viam uma criatura de duas cabeças andando por perto, falando consigo mesmo com vozinha de bebê, os deixava com vontade de vomitar.
Eles odiavam ir à festas, e quando não tinha jeito de fugir delas, eles sentavam no cantinho, meio deprimidos e azedos demais pra falar com qualquer um.
Os filhos da poeira eram tão infelizes, que eles inventaram o vinho e a arte pra apaziguar a sua dores. Ajudou um pouco, mas na verdade não muito.
Quando Zeus furioso puniu os humanos… ele decidiu deixar os filhos da poeira em paz. Eles já estavam fodidos demais, ele explicou.
Casais gays felizes, descendem dos filhos do sol. Casais lésbicos felizes descendem dos filhos da terra. E casais héteros felizes descendem dos filhos da lua. Mas a vasta maioria dos humanos é descendente dos filhos da poeira. E não importa quanto tempo eles procurem, eles nunca irão encontrar o que eles estão procurando já que não há nenhuma metade pra eles, ninguém no mundo.
E agora a pergunta. Em qual categoria você se encaixa?
A parte impressionante dessa história, é que pra alguns ela faz muito sentido, pra outras nem um pouco.
E se você deu uma risadinha na parte do “vinho e da arte, se essa história te deu uma animadinha de alguma forma mínima, você provavelmente está se sentindo um pouco sozinho, e se identificou com os filhos da poeira.
Só que na verdade, essa história se relaciona de alguma forma à ideia de categorias, lembra? E essa história tem quatro palavras mágicas que mudam absolutamente tudo…
… vasta maioria das pessoas…
Com essas poucas palavras, Simon Rich faz uma coisa muito gentil. Se você é alguém que está sozinho, e acha que está meio sobrando por causa da sua solidão, imediatamente você é colocado em uma caixa com um bando de outras pessoas solitárias… e você se sente melhor.
E esse é o estranho poder das categorias.
Porque na verdade, nada em você mudou, mas simplesmente desenhar uma linha ao seu redor te fez sentir um verdadeiro alívio.
A parte do podcast termina aqui, mas aí eu fiquei pensando…
Na verdade todo mundo é filho de poeira, de duas maneiras:
Primeiro, todos somos filhos de poeira até… que se prove o contrário, não é mesmo? Diga-se de passagem, o autor que quis corrigir Aristophanes por não se identificar nas categorias dele, já não se reconhece no próprio texto, uma vez que agora ele está em um relacionamento, e inclusive a dedicatória do seu livro é para essa “metade”.
Segundo… no fundo, no fundo… não somos todos poeira?