in the garden of eden

um dia, eu quero chegar aos meus 35 anos, digamos assim
eu quero chegar num ponto na minha vida, quero tanto lembrar do passado que é meu presente agora e poder falar pra minha eu de 19 anos ou de 15 anos ou de 10 anos que “as coisas vão melhorar”
eu quero estar bem o suficiente um dia (não completamente bem porque ninguém, nunca está completamente bem) pra poder lembrar de como eu me sentia e sinto agora e sentir pena de quem eu era e sou agora porque eu não vou nem me lembrar de como era isso tudo
quero não sentir todo dia que é possível, é provável que eu esteja chegando aos meus últimos dias cada vez mais, e não é nem pelo fato de que a expectativa de vida de mulheres trans no brasil é 35 anos e eu já passei da metade disso, é cansaço, é exaustão 
eu sinto todo dia pelo menos uma vez que eu tô chegando em um limite, no meu limite, e o aperto no meu peito eventualmente vai explodir e eu não vou saber o que fazer
eu sinto todo dia pelo menos uma vez que eu nao posso estar NEM PERTO do meu limite porque tem tantas possibilidades ainda
tanto do mundo que eu não vi e preciso ver e experienciar, tantas experiências que eu não tive, tanto que eu ainda posso fazer e nunca fiz, tanto que eu já fiz e quero fazer de novo, tem TANTO que eu ainda posso fazer e tanto no que eu posso me tornar que eu acho simplesmente… incabível eu me impedir de ter essa chance
é impensável, é injusto, é desonesto que eu tire as oportunidades da minha eu futura e simplesmente diga “eu não aguento mais, então você não vai existir”
e por um segundo eu me distancio e concluo que isso tudo é um ciclo vicioso
eu passo todo o meu tempo do mesmo jeito, com os mesmos processos de pensamento e refazendo tudo, do início ao fim, querendo melhorar e ativamente sentindo que posso melhorar, caindo em rotina e lentamente desistindo de pedacinhos de hábitos bons até abandoná-los completamente e sem motivo (que eu digo a mim mesma que é por preguiça e por falta de necessidade, mas eu sei que é autosabotagem) e nesse saber, por um segundo eu me distancio e concluo que isso tudo é um ciclo vicioso
e recomeço
um dia, eu quero chegar aos meus 35 anos, digamos assim
eu quero chegar num ponto na minha vida e lembrar de como eu vivia cansada e exausta emocionalmente, sentindo que eu ia explodir porque ou eu estava deprimida ou eu estava vazia, mas eu sempre estava cansada
e aí eu me perguntava “será que tem algum jeito pra mim? será que eu não estou completamente além da salvação? será que eu ainda devo ter esperança de que vai haver uma versao minha que vai ter saúde mental e condições de vida suficientes pra poder sentir pena da pobre menina de 19 anos que escreveu isso tudo?”
e o otimismo em mim diz “sim, claro que tem jeito”
e a razão em mim diz “é provável que sim, afinal, você não sabe o futuro, essa versão sua não tem rosto ainda e não tem características ainda mas ela existe sim, justamente porque você não sabe”
e o pessimismo em mim diz “você não tá cansada de não saber? não tem variáveis demais? não tem dúvidas demais e possibilidades ruins demais?”
e o pessimismo em mim é pesado e ele puxa o otimismo pra baixo e ele puxa a razão pra baixo e no fim das contas a escala fica levemente abaixo de zero, mas levemente mesmo
e o pessimismo em mim diz “você podia desistir” e eu acho uma ideia ao mesmo tempo ótima e aterrorizante
e o próprio pessimismo diz “e se a única coisa que passar pela sua cabeça quando você estiver morrendo forem as palavras “eu me arrependo de ter feito isso”?”
e o pessimismo se autosabota, afinal, sou eu
e o ciclo vicioso recomeça
um dia, eu quero chegar aos meus 35 anos

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