Interrompendo a programação

Maria Eduarda Ribeiro
Nov 5 · 2 min read

Ultimamente tenho sentido muito aquela antiga vontade de gritar e não me lembro exatamente quando fiz isso pela última vez. Acho que foi no início do ano, naquela praia. É, definitivamente foi naquela praia antes de fazer amor na areia, quando eu estava me sentindo feliz e aventureira. Estranho como tudo muda em poucos meses e, de repente, tornamo-nos pessoas as monótonas e sem graça que sempre desprezamos ou que, talvez, sempre fomos. Não sei o porquê dessa vontade súbita, mas não consigo me livrar dela _ tanto quanto não tenho coragem de fazê-lo. E não importa quantas horas eu durma o cansaço está sempre lá junto com essa necessidade de gritar que, hoje, parece inexorável à minha existência. Mas é aquela coisa: falo que não me importo com o que os outros pensam mas não consigo me livrar das minhas vontades por medo do que pensariam os estranhos com quem, hora ou outra, posso encontrar na rua. E é engraçado, porque eu, estranhamente, converso com pessoas desconhecidas na rua para sentir que consigo ser simpática além da timidez e acabei descobrindo que posso conversar com moradores de rua, com ex usuários de droga, com alcoólatras, com tatuadores, com pedreiros e com uma mulher assustadora e linda que vende bongs e narguile. Mas o ponto é que nenhuma dessas conversas foi importante para nenhuma das partes e, salvo o Ricardo e o Miguel que andam sumidos da frente do Banco Do Brasil, acredito que nenhum deles se recorda de mim, assim como muitas pessoas que me marcaram profundamente, em alguns anos, terão me esquecido, assim como eu as terei deixado para trás. Porque a vida é mesmo esse ciclo de idas e vindas, mas ainda não aprendi a ser livre. Estou tentando, é verdade. Recentemente me permiti não entrar em pânico e foi libertador respirar sem estar naquela maldita noite em ouro preto. Por que não grito? Por que não saio do quarto em que moro em um dos muitos prédios no centro da cidade e berro todas as minhas mágoas pela janela do setimo andar? Não é fraqueza, acho que já superei a autopiedade. Talvez seja só covardia. Não sou fraca mas, definitivamente, sou covarde. É isso. É covardia.


Por enquanto seguimos a programação de horas de estudo diárias e palavras vazias com grandes sentimentos entalados na garganta. Tenham uma boa tarde cinza.

    Maria Eduarda Ribeiro

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    Fosse eu borboleta, decerto não seria azul, mas preta.

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