A LITURGIA!

A comunidade se reunia naquela noite, submissas sentadas pelo chão aos pés de seus senhores, proibidas de portar joias ou adereços, itens exclusivos de rainhas e não de reles bottons. Todos deveriam ser tratados por “senhor” e se um deles falasse, toda e qualquer submissa deveria se calar e ouvi-lo. Naquele recinto no qual práticas eram realizadas, a teoria, salvo o mínimo necessário, não teria vez. 80% prática, 20% teoria.

No mesmo instante, em outro lugar, uma comunidade tal como a anterior se reunia em torno de livros e leituras, a teoria ali era crucial e a prática uma consequência de muito estudo. O respeito vinha da postura e não do uso dos termos. Todos deveriam pensar e se desenvolver dentro do seu caminho.

Duas quadras a frente dois amantes se revezavam para dominarem um ao outro, ele que tinha submissas amava quando sua amante em estado de predadora o possuía e lhe provocava intensos orgasmos.

Na manhã seguinte, um grupo discutia que não deveria haver amor junto ao BDSM e, no quarto ao lado, um casal tinha uma D.R sobre a expressão de seu BDSM com o intuito de manter sua relação. A D/s existia na cama, pois fora dela havia trabalhos, filhos e muitas outras coisas a gerir.

No andar de cima, um velho senhor, diante do fetlife, procurava novas meninas para seu harém, acreditando que o verdadeiro dominador deveria viver aquele estilo de vida 100% do tempo e, por isso, à exceção do caminho matinal casa-trabalho, trabalho-casa, no pós-expediente ele se isolava do mundo e aproveitava suas meninas batizadas com nomes de personagens dos livros de BDSM que ele tanto amava.

O que cada uma desses relatos nos faz aprender sobre a liturgia do BDSM? NADA.

Liturgia, palavra muito usada no BDSM é, por muitas vezes, bastante vazia devido às inúmeras possibilidades de preenchimento. As pessoas caem no erro de achar que a forma como foi educado é a única forma correta, se negando a olhar para o lado e entender que não se trata de certo ou errado, mas de diversas expressões da realidade.

Somos livres para viver nosso BDSM e criarmos ou aceitarmos a liturgia que nos aprouver com suas nuanças positivas e negativas, mas achar que todos aqueles que vivem de uma forma diferente da nossa estão errados pode ser, quem sabe, um possível medo de olhar para o lado e perceber que há jardins nos quais florescem outros frutos quando plantadas novas sementes e usadas novas técnicas de cultivo, mas que não podem ser plantados no seu jardim pelo simples fato de que o fruto que te alimenta não floresceria caso mudasse seu modo de cultivo da terra. E daí? Vida que segue!

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