Amar alguém com depressão

Quem cuida também precisa de cuidado

É difícil, mas esse texto não é um romance. Não há poesia na doença que nos arranca da presença daqueles que se importam.

Eu não quero tornar isso romântico. Não é sobre se jogar às cegas ou carregar tudo sozinho. Até porque, as histórias são diferentes para cada um de nós. Não é sobre ser durão e aguentar tudo firme e forte. Mas sobre ser sincero consigo mesmo e entender o sofrimento como parte de um processo. E aceitar o sofrimento não significa se resignar à dor, mas saber que a existência humana tem seus muitos momentos de dor. E um deles é quando você está ao lado de alguém que sofre e quer ajudar.

Vai doer. De todos os lados. Você vai descobrir dores que não sabia que existiam. A frustração vai bater à sua porta e rir da sua cara. Sua preocupação vai alcançar níveis inimagináveis.

Não sei como você vai lidar com a dor: quebrando um copo, guardando tudo para si, indo à terapia. Mas eu sei que ela está aí. E que em certos momentos você quer gritar e pedir ajuda também. Quando você ama uma pessoa que enfrenta um quadro depressivo, e você sabe quão sério é aquilo, você vai descobrir novos sentimentos. Especialmente se você também tiver depressão, seja qual for a causa ou o grau. Você sabe que, às vezes, você quer sumir, mandar todo mundo para o inferno e ficar na sua, bem quietinho. Mas quando você também for afastado, vai sentir desespero. Você vai ter medo de ser esquecido, vai achar que o outro sente raiva de você, mesmo sabendo que não é bem assim.

Eu sei, cada caso é um caso. Você sabe que a pessoa com depressão está pedindo ajuda, e você quer ajudar. Você sabe que, para isso, o principal é jamais julgar, porque aquela dor invisível não é culpa de quem sofre. Você vai se questionar. Todos os dias.

Caminhando pela rua nós vemos rostos diversos. Aquele amontoado de desconhecidos com quem compartilhamos miasmas e trocamos eventuais cotoveladas. “Todo mundo sofre” você lembra. E, por um segundo, uma faísca de compaixão aparece em você. Essa faísca vira uma fagulha maior e, finalmente, uma grande fogueira de amor e apoio.

Você vai sentir vontade de ir embora. Talvez você vá. Você vai aprender melhor sobre seus próprios limites, sobre espera, sobre força.

Vai sorrir querendo chorar, para que ninguém desconfie do que há por trás da sua aparência calma. Quando ficar insuportável, você permitirá que uma ou duas lágrimas molhem seu travesseiro à noite. Se for depois do banho, você vai culpar o shampoo pelos seus olhos vermelhos e inchados.

Amar alguém com depressão requer força e compreensão. Diálogo e apoio. Cuidado e companheirismo. Mas, sobretudo, auto-cuidado.

Você precisa respirar, também. Sentir o vento na cara.

A dor de barriga causada pela ansiedade pré-notícias vai ser tua companheira, mas não pode dominar a sua vida.

Você vai olhar para aquela pessoa e pensar: queria que ela se visse como eu a vejo.

Você vai reconhecer nela força, doçura, potência, energia, idoneidade. Mesmo que ela esteja momentaneamente cega por uma névoa de dor.

Às vezes você vai ser deixado de lado. Por que? Porque sim. Você não vai saber, e se tentar muito, vai doer.

Você vai querer pegar no colo, e não vai poder. Vai querer levar pra sair, e não vai conseguir. Mas vai estar lá pra mostrar além da muralha.

E, sobretudo, vai lembrá-la que você a ama e que ela pode confiar em você.

Mas você sabe que isso pode não ser suficiente.