Shadia Mansour — palestina, considerada “a primeira dama do hip hop árabe”

Apropriação de culturas árabes: não é moda, é pacto narcísico

Finalmente um texto que não é sobre turbante UHUUUL

“MAS DE NOVO ESSE PAPO, GABI.RELA?” (typo intencional ‘gabi.rela’)

Vou falar pra vocês: eu não falo sobre tendências de moda porque não sou blogueira ou fashionista. Meu papo aqui é outro.

Falar de apropriação cultural não é falar de modismos ou de gostos pessoais. Se você acha isso, talvez não vá querer ler esse texto. Clique aqui para ser feliz e não ter que pensar mais a respeito desse assunto “chato”.

É tão difícil rever privilégios que se torna mais simples jogar o tema para debaixo do tapete chamando-o de fútil, como se falar de apropriação cultural tivesse algo a ver com os imbróglios envolvendo a chamada “geração tombamento”. E mesmo os mais bem intencionados comentaristas brancos têm transformado os debates sobre privilégio em uma grande e repetitiva repercussão de seu pacto narcísico — já expliquei o conceito de pactos narcísicos aqui — , por meio de materiais dramáticos, regados a muita culpa cristã, que terminam apenas por reforçar o local do subalterno. Por isso escolhi tratar novamente desse assunto. Porém, sob outro viés: o da cultura árabe. Assim, a gente deixa de lado um pouco o blábláblá de usar turbante por gosto ou chamar negros de vitimistas, e toda essa argumentação falaciosa que vem da direita e da esquerda, que prontamente se unem quando oportunamente negligenciam pautas negras.

O principal erro ao falar de árabes é tratá-los como uma coisa só. Como fazem geralmente com a África. Aqui, portanto, o foco será a Palestina e o uso do hijab por muçulmanos. Já expliquei a diferença entre árabes, islâmicos e muçulmanos aqui.

Breve história do keffiyeh

Tradicionalmente, o lenço preto e branco era usado por agricultores para proteger a cabeça do clima árido de seus campos enquanto trabalhavam. O padrão quadriculado tem sentidos diversos. Alguns alegam que é uma referência a redes de pesca, outros contam que o desenho é uma imitação do padrão de favos de mel. Em 1930, na Revolta Palestina, o keffiyeh tornou-se símbolo de resistência contra o domínio britânico e o colonialismo sionista. A partir daí, o lenço palestino passou a representar a luta daquele povo, passando a ser usado não apenas para proteção do corpo, mas como símbolo de união e solidariedade. O uso do keffiyeh como signo político se popularizou na década de 1960 com o surgimento da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), liderada por Yassir Arafat.

Já o keffiyeh vermelho e branco se originou em Manchester, pelo exército jordaniano. A cor vermelha fora escolhida para que se distinguisse da versão original preta e branca. Rapidamente caiu no “gosto popular”, e deixou de ser usado apenas por militares, sendo adotado de maneira generalizada. Esta versão do lenço teve importância política na batalha dos anos 1970 entre os palestinos e a Jordânia. Yasser Suleiman, autor de “Guerra das Palavras” escreveu que a luta entre o vermelho e branco jordaniano e o preto e branco palestino ganhou popularidade depois de alguns estudantes universitários jordanianos usarem os keffiyehs vermelhos uma identidade jordaniana e anti-palestina.

Fonte: Peace Alliance Winnipeg News

Palestinas usando o Keffyeh em cerimônia que marcou o aniversário da morte de Yassir Arafat

O que eu tenho a ver com isso, Gabe?

O keffiyeh (ou koufiye), o lenço palestino preto e branco, se tornou um símbolo de resistência sobre o genocídio que está sendo imposto a este povo. Não faz muito tempo que o item passou a ser comercializado como adorno, sendo visto como um lenço qualquer, porém de inspirações árabes. Um apetrecho “exótico”.

Existe mais de uma forma de pensar sobre este item que vai além do “eu sou ocidental, posso usar um keffiyeh?”.

Por um lado, alguns ativistas, como a rapper feminista palestina Shadia Mansour, condenam o uso do keffiyeh como adereço de moda, como na canção El Kofeyye Arabeyye (O keffyeh é árabe). Analisemos a letra desta música:

“O que você gostaria que lhe oferecêssemos: sangue árabe ou lágrimas de nossos olhos?
Eu acho que é o que eles esperam receber de nós
Veja como eles estão confusos agora que eles perceberam seus erros 
É assim que usamos o koufiye, o koufiye preto e branco
Agora os cães estão empenhados em levá-lo como acessório de moda
Não importa o quão criativos eles se tornam
Não importa como eles mudam sua cor
Um koufiye árabe sempre será um koufiye árabe
A roupa que usamos simboliza nossa cultura
Querem a metade do seu país, querem a metade da tua casa
Por que? Por que? Diga a eles: Não!
Roubam algo que não é deles e não podemos permitir
Eles imitam o que vestimos
A terra não é suficiente para eles? O que mais querem?
São codificados por Jerusalém
Sejam mais humanos antes de vestirem nosso lenço
Estamos aqui para lembrá-los de quem somos
E você gostando ou não, é assim que nos vestimos
É assim que usamos o koufiye
Porque é uma marca do nosso país
O koufiye, o koufiye árabe
Nossa principal identidade
Não há nada como o povo árabe”

Enquanto isso, alguns ativistas palestinos vêem com bons olhos apoiadores ocidentais que usem o lenço palestino — desde que, claro, fique evidente que o uso é por uma questão política, não estética. É como erguer a bandeira daquele país e se posicionar politicamente contra o genocídio palestino. Então possivelmente podemos dizer que há um consenso neste debate, e encontrar as similaridades entre o racismo sofrido pelos negros no Brasil e a intensa islamofobia que cresceu graças ao esforço da mídia em representar o árabe como alguém naturalmente violento e perigoso, fato aliado à exclusão social dos povos árabes em consequência de guerras e conflitos (que, lembremos, são impostos por nações ocidentais).

Talvez possamos ainda problematizar a noção de privilégio com a qual as pessoas raramente querem se defrontar, transformando-a rapidamente num discurso de mérito e competência que justifica uma situação privilegiada, concreta ou simbólica. Quando se deparam com informações sobre desigualdades raciais tendem a culpar o negro e, ato contínuo, revelar como merecem o lugar social que ocupam. — Maria da Silva Bento

Mas e o hijab?

O hijab é o véu utilizado por mulheres muçulmanas para cobrirem seus cabelos. É uma prática religiosa não atrelada a um país específico.

Abaixo, segue a tradução de um FAQ desenvolvido pelo blog da página Thoughts of an Angry Hijabi, que pauta o feminismo islâmico interseccional:

1) É correto que uma mulher não-muçulmana cubra seu cabelo?
Apesar de lenços terem se tornado símbolos da fé islâmica, esta não é uma prática exclusiva do Islã. Homens e mulheres de outras fés também cobrem seus cabelos com propósitos religiosos. As mulheres não-muçulmanas que cobrem seus cabelos devem evitar se referir ao lenço como hijab, no entanto, já que essa palavra é usada exclusivamente por muçulmanos.

Mulheres de diferentes religiões cobrindo a cabeça

2) Posso usar o hijab para realizar uma experiência social?
Não. Isso é extremamente ofensivo, pois implica que minhas experiências como usuária do véu não são suficientes para convencer as pessoas de que a discriminação que enfrento é real. Por que é necessário que um não-muçulmano “prove” que a islamofobia é real? Há centenas de muçulmanos que foram mortos, perseguidos e assediados por ódio aos símbolos do Islã. Suas histórias têm sido amplamente divulgadas em todo o mundo. Além disso, há ampla evidência estatística para provar que a islamofobia é uma séria preocupação para os muçulmanos que moram no ocidente. Por que você não acredita em nós quando contamos nossas histórias?

3) Um não-muçulmano pode usar um hijab em solidariedade?
Há outras maneiras de mostrar solidariedade conosco. Apoiar nossos negócios, lutar por nós quando estamos sendo perseguidos em público, se oferecendo para nos acompanhar para nos proteger do ataque islamofóbico, e nos dar mais representação em suas obras de arte são apenas algumas das muitas coisas que você pode fazer para nos ajudar. Infelizmente, os não-muçulmanos vestindo um hijab não nos ajudam muito.

4) Um não-muçulmano pode comprar roupas lojas islâmicas?
Absolutamente sim, contanto que não seja roupa tradicional como kaftans ou shalwar kameez. Vestidos, saias e hijabs são jogo justo.

5) Posso usar um lenço porque é bonito?
Uma vez que as mulheres religiosas são hostilizadas por cobrirem seus cabelos, é impróprio usar um véu só porque você pensa que é “bonito”.

6) Posso seguir blogueiras de beleza muçulmanas e compartilhar fotos de hijabis na minha página?
Claro. Contanto que você não esteja nos fetichizando.

7) Posso cobrir meu cabelo para me proteger do clima?
Eu não vou te encorajar a congelar até a morte ou sufocar em uma tempestade de areia, porque você estava tentando ser culturalmente sensível.

8) E se um usuário do véu insiste que eu uso um para um evento especial*?
Isto é considerado intercâmbio cultural, não apropriação, e é completamente certo.

*Nota da tradutora: em alguns contextos, como ao adentrar uma mesquita, o uso do hijab é obrigatório mesmo para mulheres não-muçulmanas. Neste caso, trata-se de um respeito à cultura, que indica que para estar naquele espaço é necessário cobrir os cabelos.

Creio ser perceptível uma similaridade: no item 7 a autora ironiza explicando: “olha, não quero que você morra de frio só porque evitou usar o véu em respeito a mim”. Lembrei de tutoriais de turbantes para pacientes com câncer, em vídeos apresentados por mulheres negras, tipo este aqui, bem lindão.

A imagem de mulheres de diferentes religiões cobrindo seus cabelos também nos eleva a outra questão: por que apenas muçulmanos são questionados sobre cobrir a cabeça?

Shadia Mansour usando trajes típicos da Palestina — incluindo o keffiyeh em sua cintura

“Cultura não tem dono”

Mas cê jura? Eu tava crente que era só negociar com alguém e PIMBA, eu possuo a cultura do mundo.

Eu nunca sei se quem fala isso se refere ao conceito de posse legal, registrada em cartório ou o que. Mas fato é que culturas têm origens, e o debate sobre apropriar-se dessas origens, esvaziá-las de sentido e transformá-las em algo meramente vendável é o cerne da equação. Como explicado nesta matéria, que eu sei vocês vão ler tudinho.

“O fenômeno acontece quando um estrato social historicamente dominante marginaliza uma etnia, religião ou cultura, tornando seus símbolos e práticas abomináveis aos olhos da sociedade. Com isso, o grupo marginalizado abandona tais práticas, como uma forma de se adequar, na tentativa de sofrer menos preconceito.
‘Com esse processo concluído, o mesmo grupo responsável pela marginalização passa, então, a ressignificar essas práticas e símbolos antes condenados, tentando torná-los atrativos para a maioria da população e visando o lucro”, explica. “Nesse processo, toda a essência simbólica dos elementos é perdida. Eles passam a ser apenas objetos de desejo, cada vez mais caros e inacessíveis para os que foram primeiramente hostilizados’.”

Curiosamente, que conveniente é abraçar o argumento da globalização cultural ao mesmo tempo em que nega a povos negros, indígenas e árabes que estes tenham poder de decisão sobre sua própria história e cultura, não?

Além dos “deslizes” históricos, que resultam em coisas tipo essa:

Já dizia a grande pensadora Inbonha: “ata”