Cinco razões pelas quais a militância te adoece

Quando o motivo do seu estresse é o fogo amigo.

“O Inferno”, obra de mestre português desconhecido

Certa vez abri um post em meu perfil no Facebook pedindo sugestões de pauta para eu escrever sobre. Um amigo deu a ideia de falar sobre militância e saúde mental.

“Militância” é um termo meio genérico, mas aqui vou me ater a falar sobre o uso da tecnologia para gestão de movimentos sociais e coletivos. A partir desta ideia, vou apontar, por meio de reflexão pessoal, o que pode estar adoecendo os militantes.

Criação de ídolos

Dois anos atrás eu trabalhava em uma produtora digital, atendendo quatro empresas globais. Eu era responsável pelo Marketing e atuava diretamente com o departamento de redação. Tenho mór orgulho dessa experiência. Foi lá que eu conheci algumas profissionais com muito mais tempo de experiência que eu. Eram jornalistas com quinze, vinte, vinte e cinco anos de mercado. Algumas eram declaradamente feministas, já tendo participado ativamente de movimentos e marchas nos anos 80 e 90 — de uma delas eu até ganhei um material maravilhoso sobre negros na imprensa, foi lindo.

Sabe quando cai “a grande ficha”? Foi nesta época que a minha caiu. Eu estava ali, uma jovem profissional, trabalhado o feminismo em projetos pessoais, buscando lidar com mil questões que surgiam diariamente, e aquela mulher experiente me passando parte de sua história, me permitindo ter contato com algo que surgiu antes de meu nascimento, me deixava feliz e me relembrava todo o trajeto que eu ainda tinha pela frente. Eu admiti que eu não era ninguém. Mas não como forma de autodepreciação, e sim, como reconhecimento a quem veio antes de mim.

Na mesma ocasião viralizavam meu texto “Eu, ex-cotista, vagabunda” e um vídeo feito a partir destes escritos. O material foi traduzido para mais de cinco idiomas, compartilhado e reproduzido por diversos veículos de comunicação com viés político progressista, meu telefone e meu e-mail ferviam de pedidos de entrevista para que eu explorasse minha história. Cada portal que publicava meu texto tinha 50, 70, ou até 100 mil compartilhamentos. Também na mesma época, o Facebook borbulhava com grupos feministas, que no começo lotaram, e depois foram repartidos, esvaziados, até que a ferramenta caiu em desuso, e hoje é muito pouco aproveitada. Brigas, personificação de casos e problemas, preconceitos fantasiados de opinião, enfim, tudo isso contribuiu para que o hype de grupos feministas sumisse aos poucos. Seguiram firmes os coletivos com propostas bem embasadas, grupos coesos de pessoas que abraçam responsabilidades e militantes aguerridos que, cada um a seu modo, buscam compreender e melhorar a sociedade.

Esqueceram que militantes são humanos. Como comentei no meu texto sobre manipulação emocional dentro do feminismo:

Qualquer mulher feminista pode ser uma ótima teorizadora de gênero e, ao mesmo tempo, por personalidade, cultura ou outro fator intrínseco ou externo, causar dano a outra mulher. Esse tipo de coisa não se resolve em coletivo feminista, mas em divã de psicólogo ou psicanalista, onde levamos nossas frustrações e nossas sombras, aprendendo a lidar com nossas dores e aprendendo a não ferir.

Síndrome da Mulher Maravilha/Super Homem

Todos os dias eu recebo um punhado de mensagens, principalmente pelo Facebook. Frequentemente são pessoas pedindo bibliografia sobre certo tema, querendo tirar dúvidas sobre conceituações ou pedindo minha opinião pessoal sobre algum caso específico. Mas, também tem gente que exige disponibilidade de plantonista, manda prints de posts violentos, racistas ou misóginos, solicitando ajuda para denúncia, alegando não querer acionar os meios legais por não confiar nas ferramentas do Estado — como se uma pessoa tivesse um poder acima do Ministério Público.

E assim como acontece comigo, acontece com muita gente. E isso pode se tornar uma cilada para o ego.

Quando muitas pessoas começam a te usar como referência, apresentam seu trabalho como modelo e acreditam em você, isto alimenta expectativas de ambos os lados, o que é normal. Quanto mais pulverizada for a sua ideia, mais pessoas terão acesso a ela e mais gente esperará que você se supere a cada texto publicado, a cada entrevista concedida. E você também irá querer oferecer sempre mais. Infelizmente, esta lógica transformou alguns coletivos em empresas concorrentes. Não há cooperação, não há apoio mútuo, mas há um nível de competitividade semelhante ao mercado — quem tem maior alcance, quem tem a ideia mais genial, que reúne as maiores “estrelas” em um evento. E talvez este seja o pior dos pecados capitais (utilizei este termo cristão de propósito) da militância ativa virtualmente: confundir ação social com estrelato.

Ano passado eu e a Bruna Rangel, advogada, amiga e companheira de trabalho, fomos a um telejornal falar sobre os alarmantes índices de violência contra a mulher e divulgar nosso então recém-lançado livro #MeuAmigoSecreto: feminismo além das redes. Era um trabalho, era um importante, alcançou um número incrível de pessoas.

Porém, enquanto aguardávamos nossa hora de entrar no ar, o jornal veiculava uma reportagem sobre pessoas que perderam suas casas após mais um incêndio em uma favela de São Paulo. A matéria focou bastante nas mulheres. Muitas estavam grávidas e não faziam ideia de como receberiam os bebês recém-nascidos no local onde estavam abrigadas — uma escola pública. Naquele instante, mais uma grande ficha caiu: a autocrítica. Me questionei para quem os movimentos feministas ativos na internet estão trabalhando, e o que vale mais: a área VIP de algum evento badalado, ou o ar denso que envolve o debate pesado sobre o direito à moradia, do qual pobres são excluídos?

A neurociência pode ajuda a explicar um pouco a busca incessante (e patética) pelo lacre a qualquer custo, e como isso talvez (talvez?) esteja ofuscando o que deveria ser o objetivo principal de um movimento feminista.

Como isso funciona em nosso cérebro? Rosana Hermann explicou:

O querer está ligado a uma substância química chamada dopamina. A dopamina está em todo lugar no nosso cérebro e alimenta nosso poderoso sistema de recompensa. E de vícios. É ela que leva você a sabotar sua decisão de fazer dieta, que induz você a verificar só mais uma vez seus emails no meio da madrugada, que detona seu cartão de crédito numa liquidação comprando o que você não precisa com o dinheiro que você não tem. A dopamina tem tudo a ver com dependência.
Essa descoberta foi feita no anos 50 por Olds and Milner. Os dois cientistas fizeram experiências com um ratinho de laboratório que recebia estímulos elétricos em seu cérebro quando ele apertava uma alavanca. O ratinho parou de comer, fazer sexo, brincar e só ficava apertando a barra milhares de vezes sem parar, para receber mais e mais e mais estímulos. Aquilo se tornou um vício irresistível, incontrolável,porque existia uma recompensa imediata que continha uma ‘saliência’ emocional insuportavelmente atraente e que liberava mais e mais dopamina, o alimento desse querer insaciável.
Agora pense no ratinho com o seu botão de dopamina e todos os nossos vícios moderninhos. Nós, postando fotos e mais fotos no Instagram para receber corações. Nós, trocando avatar no facebook vinte vezes por semana para receber likes e mais likes. Nós, subindo fotos de nós mesmos, lindos e arrumados, com filtros sensacionais, sendo recompensados com elogios de ‘tá gata’ , ‘arrasou’. O que é isso senão mais e mais dopamina alimentando nossos sistemas de recompensa?
Sim, nós somos o ratinho puxando a alavanca até morrer. Somos os fiéis e carentes devotos de Nossa Senhora dos Likes Alcançados, de joelhos, suplicando por atenção e afeto, trocando curtidas virtuais por sexo em 3D, comentários positivos nos posts de blogs em vez de piqueniques ao ar livre. Somos nós, uma China de escravos voluntários, trabalhando de graça para o Sr. Zuckerberg, gerando conteúdo infinito para um modelo de negócio baseado no vício da dopamina.
(…) Nossa sociedade está totalmente dopamina-dependente. A Internet é movida por nós e pela dopamina.Esse querer que não passa, que prende você no twitter, que obriga seu cérebro a comentar todos os assuntos do dia, que faz a pessoa entrar na rede social perguntando ‘qual é a boa de hoje’, com MEDO de perder algum assunto e ficar por fora. É dopamina, dopamina, dopamina ALL THE WAY DOWN.

Ao mesmo tempo, é inegável o poder de comunicação da internet. Conhecer gente alinhada aos seus ideais, criar um grande hub de ideias, encontrar apoio, divulgar projetos, produzir, difundir e consumir conhecimento. A internet é agridoce.

Cabem a nós duas principais tarefas:

  1. Saber dizer não, reconhecer os próprios limites e não se deixar atolar de trabalho com uma síndrome de super herói;
  2. não exigir que o outro seja nosso salvador.

Ninguém está aqui para trabalhar por nós. Se uma pessoa não pode ou não quer nos atender, nos cabe respeitá-la.

E nós não temos como dar conta de tudo. Se não podemos ou não queremos adentrar problemas que muitas vezes nem são nossos, podemos, gentilmente, nos despedir daquilo que nos está afetando negativamente.

A construção coletiva passa pelo trabalho, mas também passa pela autocrítica, pelo descanso, pelo saber “dar um tempo” quando for preciso.

Fazer do coletivo um divã

Apoio para aguentar todos os perrengues que o movimento social apresenta, é necessário. Aliás, é imprescindível. Como não somos robôs, inevitavelmente nos veremos em uma situação de fragilidade emocional em algum momento. Acontece.

Mas, lidar com estas questões exige um certo preparo pesado. Em tese, o ideal é que coletivos pudessem contar com uma rede de apoio psicológico bem estruturada, com profissionais da área. Na prática, contudo, a Psicologia, coitada, é a coisa mais negligenciada.

Um breve passeio em grupos “de apoio” e é possível perceber que se tornaram grandes celeiros de olimpíadas de opressão para saber quem sofre mais. Relatos de tentativas de suicídio, uso de medicamentos, violência sexual e assédio moral. São diversas as experiências e vivências dolorosas compartilhadas nestes locais. E o que pode ser feito? Oferecer à pessoa que sofre um gif de gatinho? Estampar na foto de perfil uma faixa amarela em setembro?

Não me levem a mal, eu pessoalmente acredito na boa intenção, mas isto não resolve. E também sei que esses grupos, às vezes, são o único local onde alguém pode se abrir.

Todavia, uma coisa é você desabafar com amigos em um momento crítico. Outra coisa, bem diferente, é acreditar que um punhado de semi-conhecidos de uma rede social tem as ferramentas e técnicas necessárias para auxiliar alguém que padece de algum transtorno/sofrimento/doença mental.

Movimento social não é psicoterapia ou psicanálise, porque essas práticas são conduzidas por pessoas que se capacitaram para tal. O ideal é que conseguíssemos nos organizar para encaminhar para estes profissionais as pessoas que apresentassem sintomas de sofrimento psíquico, e que tentássemos formas de popularizar e desmistificar estes serviços, para que se tornassem mais acessíveis, valorizando os profissionais e apoiando os pacientes.

Não dar atenção ao mestre Bilu

Durante certo tempo foram comuns as acusações de academicismo, um neologismo que significaria um apego ególatra à academia em detrimento de outros meios e práticas pedagógicas. E claro, eu reconheço quão irritante e inadequado é limitar tudo à academia, um ambiente pouco democrático e pouco acessível, portanto, não é disso que estou falando. Falo de situações como esta: certa vez, em um grupo feminista, alguém citou que determinado dado poderia ser facilmente encontrado no site da ONU Mulheres, bastava escrever “ONU Mulheres” no Google. Pronto. Foi o suficiente para que a moça que fez tal sugestão fosse acusada de academicismo, com a alegação: quantas mulheres têm acesso ao Google pra fazer tal pesquisa, Fulana?

Confesso que não me contive e respondi: das que estão acessando o Facebook neste instante? Todas.

Estudar é preciso. A questão é que muita gente acha que estudar é sinônimo de estar matriculado na universidade, e não é. Existem formas múltiplas de realizar trocas de saberes, sejam eles teóricos ou experienciais. E também cabe a quem se propõe compartilhar uma ideia, que o faça com responsabilidade, o que pode ser traduzido, a grosso modo, por: é terrível quando alguém que tem acesso a muitas fontes de conhecimento, cria um conteúdo sem fonte, com dados históricos inconsistentes e com um teor sensacionalista só para se manter em evidência. Também há diferença entre escrever algo por uma reflexão pessoal e escrever uma desinformação.

E além de tudo isso, é um erro crasso achar que pessoas mais pobres, por exemplo, são incapazes de absorver conhecimento “erudito” quando este é apresentado.

“Pô, tal termo não chega na favela”

Primeiro: como sabemos que não chega?

Segundo: se não chega, por que não levar?

Terceiro: é possível substituir estrangeirismos por termos em português e compreender os diferentes conceitos teóricos ilustrando-os com nossas realidades.

Racismo no feminismo e o gaslight das migas

Um dia eu estava revisando uma dissertação de mestrado sobre o embranquecimento da cultura brasileira por meio da inserção de valores eurocêntricos nos hábitos e na cultura trazidos por escravos africanos. A demonização da cultura negra e, em contraponto, a cultura europeia sendo posta como uma “solução” para o que então era visto como um problema. O ideal de “educação” e “civilização” de acordo com valores gregos, a reminiscência da ideia do negro como alguém pouco apto a seguir a própria cultura e menos apto ainda a construir uma sociedade, uma globalização que foi mais forçada do que natural, e seus reflexos na sociedade ainda hoje.

Vejo isso no feminismo. Embora o trabalho em questão não falasse sobre gênero, resolvi eu mesma fazer a ponte. Por mais “inclusivo” que seja, o feminismo branco vai tratar as negras em algumas caixas:

O “Gaslight das migas”: é quando ela vai se colocar no lugar de vítima da tua “agressividade”. Frases como “mas eu só queria ajuda” e “eu só queria entender melhor” vão ser repetidas pra você achar que o problema é você ser uma péssima militante com péssima didática. Logo você começará a acreditar que existe uma culpa e ela é tua.

Não é aceito o fato de que negras têm agência, autenticidade, autonomia e intelecto suficientes para liderarem suas próprias pautas. Qualquer demonstração de altivez sobre a própria vida vai ser encarada como: implicância, agressividade. É a fase do “nada do que eu faço tá bom” e “você não está entendendo”.

Por fim, vem a reprodução de um comportamento muito criticado em homens brancos que usam suas parceiras negras como carta na manga para afirmarem que não são racistas — o que se popularizou internamente com o termo “token”. “Não sou racista pois (insira aqui uma pessoa próxima) é negro”.

Um dia eu fiz um post sobre UMA moça muçulmana e um grupo de feministas muçulmanas odiou, alegando que a moça em questão (que, confesso, eu mal conhecia) não era parâmetro para nada. Apaguei, me desculpei e redobrei meus cuidados. Não por eu ser especial (até porque tô suave disso, a minha parte prefiro em dinheiro), mas porque tento todo dia ser menos tosca e ter mais bom senso no que eu faço, e isso inclui aquilo que eu quero produzir com esmero.

É muito louco pensar que a mentalidade colonialista é tão profunda dessa forma. Comecei a perceber isso acompanhando mulheres incríveis que passei a admirar demais. Até então, por incrível que pareça, eu aceitava — sem notar — um feminismo negro “adequado” a padrões do feminismo branco, aceitava que fôssemos uma aba em um site, uma série especial de posts em uma fanpage e ponto.

O desejo colonizador é tamanho que não há uma preocupação mínima com as questões básicas das mulheres negras pelas quais lutamos e, mais do que isso, essa agressão psicológica diária que tira de você a ideia de ser um humano pensante igual a mulheres brancas, para te colocar no lugar de “a barraqueira”, “a eterna insatisfeita”. Tal qual o comportamento masculino com mulheres que deu origem ao termo “gaslight”, adaptado para o qu chamamos de “culpabilização”. E não é raro, pelo contrário.


Com tantos problemas que enfrentamos todos os dias, não basta mais apenas selecionar as lutas que queremos lutar. Agora existe uma tarefa extra, que é a de se proteger, se preservar, e cuidar para que a saúde não seja ainda mais afetada pelas melhores intenções.