Documentários sobre a indústria do sexo — #1 Nascidos em bordéis

Gabriela Moura
Jan 8 · 4 min read

Calcutá, na Índia, é o cenário do nosso primeiro documentário, que começa com a câmera passeando entre as estreitas ruas de um bairro onde a prostituição é atividade corriqueira. Fato é: o filme é um olhar estrangeiro sobre o local. Depois, essa nuance muda um pouco — explico já.

Zana Briski e Ross Kauffman são os dois documentaristas responsáveis pelo filme, embora apenas Zana apareça. Inicialmente a ideia era documentar a vida das prostitutas, mas o roteiro da documentação foi alterado ao perceberem o grande número de crianças que havia por lá. E é justamente uma voz infantil a primeira que ouvimos. Uma menina — cuja aparência me faz sugerir que ela tenha cerca de dez anos de cidade — fala sobre o estado e embriaguez dos homens que consomem prostituição no local. Ela diz, também, que muitas pessoas afirmam para ela que não demorará a seguir o mesmo caminho.

“Eles dizem que não vai demorar”

Zana comenta quão difícil é documentar o local. Ela precisou viver lá e conviver com as pessoas para ganhar sua confiança, e foi aí que ela conheceu as crianças, mostrou a elas o mundo da fotografia e começou a ensinar como elas poderiam registrar seu olhar por meio da captação de imagens.

“Eu sigo pensando se eu poderia ir pra outro lugar e ter [acesso a]educação”

Esse tipo de reajustamento de rota na narrativa é interessante por tirar o ar de “White savior” da produção, além de mostrar um outro lado do prisma da prostituição, que é a vida das crianças filhas daquelas mulheres — mais para frente vou falar de outro documentário que também mostra as consequências da prostituição para crianças, segura aê.

“Eu me preocupo que eu possa me tornar igual a elas”

Ao mesmo tempo, os processos fotográficos — captação de imagens, edição, curadoria, etc — são apresentados como uma forma de conexão entre os documentaristas e as crianças, além de inspirar nos pequenos um outro caminho. As crianças falam sobre o desejo de estudar para conseguir um trabalho com o qual possam se sustentar, ainda que não falem sobre riqueza material.

“ É preciso aceitar a vida como sendo triste e dolorosa…”

Tendo mães, avós e tias, todas na prostituição por falta de oportunidades de outros caminhos, vemos a ocupação não como uma profissão, mas como uma sentença à qual as mulheres estão fadadas e, por consequência, as crianças. A educação é vista como um caminho de saída, mas matricular uma criança em uma escola é um processo burocrático e longo. E, além disso, muitas crianças são afastadas da vida escolar por trabalharem limpando casas, por se casarem — casos de meninas que se casaram aos 11 anos — e por já terem sido levadas a se prostituírem — casos de meninas que começam aos 14.

“ Quando minha mãe trabalha no quarto, nós subimos para o telhado e brincamos lá”
“ Meu pai tentou me vender”
“Se minha irmã não tivesse vindo me pegar, meu pai teria me vendido”

Não há, no entanto, nenhum juízo de valor feito contra as mulheres que são prostituídas. Ou seja, elas não são colocadas como culpadas. Zana deixa claro que não é prostituta, que está lá como professora querendo apenas auxiliar que as crianças possam ter acesso a uma educação libertadora. O tempo todo o filme mostra um cenário de caos, sujeira e muita violência física e verbal como o cenário onde estão crescendo aquelas crianças lá nascidas. O que demonstra a obviedade de um ambiente nocivo para todos — crianças e adultos.

“As pessoas aqui vivem no caos”

O filme pode ser visto abaixo:

Gabriela Moura

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Alma presa numa mente maluca e um corpo descoordenado. É o que tem pra hoje. Escritora. Feminista. RP. Desenhista. Troublemaker. https://gabrielajmoura.com/