Não tenha medo de pronunciar a palavra: RACISMO

Com todas as letras e sem eufemismos

Por definição, racismo é o preconceito contra outra raça ou etnia. Se você já acompanhou alguns escritos meus aqui, não preciso explicar que, na lógica da sociedade brasileira, racismo contra brancos não existe, pois em momento algum foi erguida uma nação sobre valores de supremacia de negros contra brancos. Brancos não foram escravizados, não foram proibidos de exercer determinadas funções e nem foram tidos como intelectualmente inferiores em decorrência de sua cor. Saiba mais aqui.

O papo aqui é: por que é tão difícil apontar que uma situação foi racismo?

Ontem acompanhei o caso de uma estudante negra que teve seu turbante arrancado à força em sua festa de formatura por pessoas brancas — não vou colocar o link da publicação aqui para não expô-la a mais ódio, mas o post está rodando o Facebook e, neste exato instante (segunda-feira, 24 de abril de 2017, 12h09, o post tem 38 mil likes e mais de 9 mil compartilhamentos. Obviamente isso me remeteu ao caso da suposta agressão sofrida por uma moça branca que usava turbante em um transporte público. Foi um alvoroço. Pessoas alegando que o movimento negro é “doente”, pessoas da esquerda (esquerda rs) alegando que aplicar tanta energia no tema era “pós-modernismo”, pessoas brancas alegando que “não sou racista, mas não gosto desses extremismos dos negros”, tudo isso sem nem sequer sabermos se o fato era real ou fanfic - na ocasião, tudo o que eu comentei a respeito foi partindo do princípio de que aquilo de fato havia ocorrido e não era uma mentira.

O que me chama atenção nesse e em tantos outros casos, são os eufemismos ou, do popular, as “passadas de pano”.

Quando a mídia noticia um caso de racismo como se fosse mera “polêmica”, o que ela está colocando, nas entrelinhas, é que o debate não é útil. Por definição, polêmica é algo que gera controvérsia, debate. Por senso comum, o termo comumente é referente a contestações coléricas pouco racionais. Ou seja, os debates sobre racismo seriam, nestes casos, contraproducentes. É essa a imagem que a mídia faz de quem debate raça: violento, reclamão, chato, procura pelo em ovo.

A comunicação tem um papel de educação social — repito isso à exaustão. Como comunicadora, eu tenho responsabilidade sobre o que eu propago.

É por esse motivo, pela pouca responsabilidade da mídia em abordar a forte tensão racial existente no Brasil, que o ditado “dois pesos, duas medidas” é perfeitamente ilustrado no caso da “polêmica sobre turbantes”, fazendo as pessoas acharem que esta conversa é sobre ornamentos de cabeça.

A menina branca que alegou ter sido agredida foi prontamente acolhida. Para ela foi direcionada a cooperação coletiva com frases de repúdio aos movimentos negros. Para a menina negra foram pedidas provas da agressão, e a ela foi direcionado o famoso e preguiçoso jargão: mimimi.

Aqui me valho de um fato curioso que sempre levo em minhas palestras, e que coloquei no meu artigo no jornal Le Monde Diplomatique: como o brasileiro vê o racismo?

(…)segundo pesquisa do Instituto Data Popular:1 92% dos brasileiros afirmam haver racismo no país, enquanto apenas 1,3% se considera racista. Onde essa equação não fecha? Se existe uma dificuldade em assumir-se parte dos 92%, é porque estamos falando de moralidade. O ato de discriminar alguém por sua etnia é execrado publicamente, mas é perpetuado nas relações sociais e mantido pelo sistema como um todo. Se perguntarmos para uma pessoa se ela acha aceitável que negros sejam subjugados por sua cor, é pouco provável que ela diga sim. No entanto, ao mesmo tempo existe a ideia errônea de que racismo é apenas a verbalização de termos pejorativos.

Moralidade, então, pressupõe um tabu. Tabu é algo sobre o qual não se fala, onde o silêncio é imposto para evitar exposições vexatórias sobre o assunto tratado. Se racismo é tabu, ele não é explicitamente abordado.

As pessoas têm vergonha/medo de dizer que foi racismo. Talvez com receio de parecerem exageradas — o racismo também faz isso: te tira o direito de se proteger dele e de apontá-lo.

Se começarmos a estampar RACISMO nas capas de jornal, se começarmos a dar o nome de RACISMO em vez de “polêmica” quando uma pessoa for discriminada em qualquer local da sociedade por ser negra e se começarmos a dizer abertamente que é RACISMO quando a história afro-brasileira não ganha a mesma atenção que a história europeia nos livros didáticos, o contragolpe vai ser intenso. As pessoas não gostam de terem suas certezas questionadas, muito menos seus privilégios colocados em cheque. A sensação de exclusividade se perde e o branco deixa de ser o ponto de vista a partir do qual o mundo é analisado.

O romancista estadunidense James Baldwin certa vez colocou: “ser negro e ser relativamente consciente na América, é estar em constante estado de raiva”.

Compreender que racismo vai muito além da verbalização de um termo é uma obviedade que nos vemos tendo que relembrar o tempo todo.

Aquela piada, aquele estranhamento, aqueles olhares de reprovação.

Não tenha medo de falar que foi racismo.