Um pano na cabeça que trouxe o apocalipse

O caso do “racismo reverso” que fez parte da população branca jogar fora a fantasia da democracia racial

Contexto: uma menina branca com câncer fez um relato no Facebook sobre ter sido abordada no metrô por uma mulher negra dizendo que usar turbante era apropriação cultural, já que a menina usava um lenço na cabeça.

Primeiro: não colem aqui nem o nome, nem links, nem prints do relato da moça, tanto para não expô-la ainda mais, quanto para não dar ibope a todos os comentários violentos feitos contra negros que aquela foto causou.
Segundo: não vou falar aqui nenhuma opinião pessoal do que é ou deixa de ser apropriação cultural, porque honestamente, acho que no atual cenário, não adianta. A única opinião que vou dar sobre conceito “apropriação cultural” é que não li nada de coerente a respeito, exceto o texto da Suzane Jardim. E não é porque a Suzane Jardim é uma grande amiga, é porque ela é foda (e é minha amiga, me invejem rs rs). Fora aquele texto, é só groselha vinda de todos os lados.Particularmente, eu não faço questão de saber quem acredita ou não em apropriação cultural, porque racismo não é entidade divina pra gente escolher acreditar ou não.

Mas o que eu quero falar é sobre o racismo da presunção de inocência. E não falo do termo “presunção de inocência” no sentido jurídico, tá? Nem advogada sou. Mas no sentido popular derivado dessa expressão do Direito. Apesar de muita gente estar duvidando da veracidade do relato da moça, vou partir do princípio de que ela está falando a verdade. O que ocorre é que muita gente está vendo nesta situação a oportunidade perfeita pra destilar ódio e velhos conceitos, tais como “os negros são os maiores racistas”.

Nenhuma das muitas (MUITAS MESMO) pessoas negras que já passaram pela minha vida, já perderam tempo ou energia agredindo branco por causa do que ele usava na cabeça. Inclusive é um consenso em coletivos negros que essa atitude não faz absolutamente sentido algum. Em contrapartida, absolutamente todos nós já sofremos ofensas em público por causa do nosso cabelo ou por usar turbante. 
“Cabelo de bombril”
“Cabelo sujo que não entra água nem pente”
“Pano de macumbeira”
“Cabelo de empregada”
“Até bonito, pena que não deve dar pra lavar”
“Você também tem várias espécies de piolho como o Bob Marley tinha?”

São alguns exemplos de frases frequentes.
A presunção de inocência está em: ninguém cria auê nenhum sobre quão absurdo é sofrer racismo, mas basta UMA mulher branca ser agredida pra que a internet pare e comece a tratar negros como animais novamente.
E PELO AMOR DE DEUS EU NÃO ACHO QUE UMA MULHER BRANCA SER AGREDIDA É IRRELEVANTE.
É relevante pra caramba. Tomara que ela esteja bem e segura. Mas meu post não é sobre ela, nem sobre mim, é sobre você pessoa branca que em momento algum se importou com a nossa humanidade.

Das pessoas brancas que estão acusando negros de crimes bárbaros com base em um relato, mesmo sem conhecer a vítima, quantos se deram ao trabalho de entrar em contato com um coletivo negro pra sentar com um grupo de ativistas e perguntar o que essa história toda quer dizer?

Não tem muito tempo fiz um post sobre eventos negros abertos a todo o público, mas onde vemos uma meia dúzia de brancos na plateia. Onde estão vocês quando a gente se dispõe a ensinar, a conversar?

“Nossa Gabir, mas eu nem sei como encontrar esses eventos” -> Google

Em uma sociedade racista, privilégio branco é não ter sua palavra posta em dúvida jamais, e, ainda por cima, ter a sua palavra usada para violentar verbal e psicologicamente TODA a população negra com base em uma suposta agressora, cujo rosto nem sequer conhecemos.

Nessa história em específico, as duas partes são desconhecidas de nós todos: a vítima e a acusada da agressão. Qual lado está sendo ouvido e qual está sendo linchado?

A presunção de inocência aqui acontece porque se fosse uma negra acusando uma branca de agressão, pediriam provas, diriam que não foi nada demais, diriam pra ela que a vida segue e o mundo é assim mesmo.

O tratamento social dado a brancos e negros é proporcionalmente inverso.
 Ninguém julga toda a população branca por causa de filho de bilionário que atropela e mata trabalhador na estrada, nem por político flagrado em helicóptero com cocaína, nem por agressor de mulher (que seja branco). Ninguém lê esses casos e fala: “olha aí, ta vendo? Não sou eu que tô dizendo, são as estatísticas, brancos são violentos, mesmo”.

Será que, neste contexto, a moça — ou quem está lá comentando — gostaria de ouvir um “para de mimimi, você fica ai se vitimizando em vez de seguir em frente”?

Então por que uma suposta agressora negra faz vocês vomitarem ódio e preconceito dessa forma? Porque o racismo brasileiro é tão vivo e pulsante que basta qualquer oportunidade para que saiam do armário.

“Ah, Gabe, mas isso é fácil de explicar. É porque a agressora acusou a moça de apropriação cultural por ser branca e usar turbante”.
Primeiro, não temos provas (há, tá vendo como dói?). Mas, como eu falei que ia partir do princípio de que o caso é verídico, seguirei minha promessa. Ainda que essa mulher negra malvada e agressiva, louca de pedra e doidona tenha feito algo tão desumano e sem sentido, ela NÃO fez em nome da população negra. Justamente porque negros não operam em relação de poder sobre brancos. Negros brasileiros não tiveram nenhum período histórico onde desumanizaram brancos em prol de benefícios próprios, e negros não gozam de privilégios simbólicos ou materiais por serem negros.

Logo, o que está havendo ultrapassa os limites da desonestidade.
Estão, inclusive, abusando da imagem da própria garota agredida para massagear o próprio pacto narcísico e dar vazão ao seu racismo.

E sejamos coerentes: em um país onde um negro morre a cada 23 minutos, quase 80% dos jovens assassinados são negros e o índice de feminicídio entre mulheres negras aumentou cerca de 60% em 10 anos, acredite, nós temos coisa muito mais importante pra fazer do que criar picuinha aleatória em transporte público.

Não individualizar o problema que é estrutural

Tudo bem, também sabemos que racismo é estrutural. Mas a construção textual ruim pode levar até mesmo esse entendimento por terra. Um texto de um famoso coletivo feminista diz que “apropriação cultural é um problema social, não de indivíduos”.

Estruturas são feitas de indivíduos. Racismo é um problema social porque vivemos em uma sociedade DE INDIVÍDUOS RACISTAS. Logo, é co-responsabilidade dos atores sociais (vulgo = nós todos, sim, eu você, papai, mamãe, cachorro e papagaio).

O que não faz sentido é CULPAR uma pessoa por algo muito maior que elas. Mas precisamos ter cuidado com o argumento de não individualizar debates, porque isso tem feito muita gente se isentar da responsabilidade em não reproduzir racismo.

É preciso entender que militantes jovens que eventualmente comentam tal erro, não são “pós-modernos” como a fútil e frágil argumentação da esquerda ortodoxa gosta de apelar, sem nem mesmo se dar ao trabalho de explicar o neologismo frequentemente usado para apontar aquilo que não se gosta.

Posicionamentos políticos e posições pessoais são coisas que se amadurecem. Não somos imutáveis, tampouco precisaríamos ser inflexíveis. Então é normal que haja um tempo de maturação de idéias, assim como no desenvolvimento humano da infância à fase adulta. Chega uma hora que você descobre outros meios de chamar atenção sem ser pelo choro e outras formas de expressar seu descontentamento com o coleguinha sem ser colando meleca de nariz no moletom dele.

Então, já estamos em 2017, passou da hora de pára de chamar de “pós moderno” tudo o que nos desagrada como se fosse xingamento. Parece aquelas pessoas raivosas de portal de notícias que chamam qualquer coisa que ande de “comunista” como se comunista fosse palavrão, né?
Pois é. Vocês podem discordar do conjunto de teses que formam a linha de pensamento denominada “pós modernismo”, mas tendo em mente que um adepto pós moderno não é inferior a você, oh rei da superioridade moral esquerdista. Dá pra ser enérgico em sua defesa sem agir como criança mimada cuspindo na babá e se achando a reencarnação de Mao Tsé-Tung.

“Eu uso o que eu quiser”

É verdade. Pano na cabeça ou saco de batata, tanto faz. Não há implicação legal alguma que nos proíba de vestir o que queremos. E isso é de conhecimento geral. Então esse comportamento é só birra.

E o que me faz ter mais certeza do privilégio branco em jamais ter negado seu direito de indignação, é que o caso já foi publicado em grandes portais como Estadão e Extra. Porém, até o presente momento, não tive conhecimento de os mesmos jornalistas terem procurado o outro lado da moeda para compor matérias de igual destaque.