Matapost#2

- Ainda sobre o amor: a saudade passa, por que a memória resseca e perde a qualidade, o sentimento… ao contrário de alguns sonhos cujo sentimento é puro, sem narrativa, a memória é narrativa sem sentimento, é puro texto — imerso no discurso, dizia empolgado o velho de sotaque italiano no momento em que Carlos chagou na esquina da antiga padaria. Agora ali só havia a velha luteria que, após o anoitecer,
tornava-se o centro gravitacional do mais interessante ecossistema de ideias da redondeza.
Neste noite em questão, além do velho Benjamim e Carlos, havia apenas Walter.

Carlos era a homenagem estúpida de seus pais ao cantor que ele próprio detestava. Walter não era ninguém. Era um apoio para copos de cerveja e um trocadilho engraçado quando sentado no velho estofado de Benjamim.

Além de restaurar violões com singela maestria, Benjamim era colecionador de livros, vinhos e ideias. Pareceu feliz
com a presença do recém chegado, Carlos, mergulhar na mente de Walter era como mergulhar no vazio e tinha um certo temor de adentrar naquele puro vazio.

O fato é que, naquela noite, falava-se de amor e tempo, e Benjamin, como grande amante do saber que era,
poderia seduzir qualquer mente.

- Boa noite Walter. Boa noite Benjamin. “A piada estúpida era ineviável.”

Não escreverei mais sobre Walter.

- Falava sobre amor, saudade e memória … Mas já que você chegou, não preciso me preocupar em lembrar-me de ti. — Estendeu a taça para que Carlos a segurasse, esperando o brinde ainda com o braço estendido e continuou:

- Sabe que encontrei hoje cedo a página final do meu livro?

- Está escrevendo um livro?

- De certa forma.

- De certa forma?

- É. De certa forma. Eu estou construindo um livro, mas de fato não escrevi nem uma palavra.

- Hum… Carlos sentiu-se estúpido. Benjamin poderia falar logo o que pretendia, para não mantê-lo naquale estado de ignorância.
Pairava em sua mente que, por certo, o desfecho seria medíocre.

- Estou compondo a partir de pequenos recortes de outras obras, dobrando a linha do infinito sobre si mesma. Desenhando pequenos novos infinitos a partir de outros infinitos. Assim como Cantor o fez. Quero compor com acordes, não mais com notas soltas. Criar uma espécie de pós-palavra, sintetizar termos complexos para então chocá-los em universos particulares. Acredito que isto seja, em algum sentido, uma busca pela evolução da escrita.

Demorou alguns segundos, diga-se, eternos, para que Carlos entendesse o que o velho falava. Sentiu-se novamente estúpido ao confundir Cântor, o matemático, com a palavra “cantôr”.
Lembrou-se de Roberto Carlos, o registro de sua desimportancia no mundo…

-Este trabalho — continuou — me consumiu toda a vida, mas enfim está findo. Encontrei pela manhã o último retalho na obra de Árib — Curvou-se para trás sobre o encosto do sofá até alcançar um pequeno retalho de papel dobrado. Procurou por cima dos óculos a taça, apanhou-a e leu em vós alta:

“… então o homem, na ânsia de desvelar os signos, diluiu a si mesmo em solução aquosa, mas nada viu. Soube da pior forma que não se pode enxergar o vazio… era também ele um signo. (…)”

- Encontrei esta pedaço de página amassada e a dobra do papel sobre si mesma foi quem criou o texto — Disse, mostrando a um pequeno pedaço de papel amarelado e dobado como uma sanfona.

Carlos encontrou o que procurava. Há duas semanas parara de fumar, unicamente para viver a tensão e o amargor do seu vício.
Sabia que só assim poderia consumir a si mesmo e no processo de auto digestão, nutrir-se de si. Naquele momento, tomara um choque de prazer e satisfação por que aquele texto, apesar de não ser seu, emanava forte sentido do que era. Talvez fosse ele mesmo quem o tivesse pensado, mas tivesse deixado escorrer por aí e alguém o tivesse apanhado e grafado naquele retalho…. tanto faz.

Sentiu Walter adentrar seus pulmões e atravessar suas narinas rumo ao teto do porão da luteria. Relaxou aliviado.

E este é o final do livro?

- Não. Este é o começo. O último retalho diz: “ a saudade passa, por que a memória resseca e perde a qualidade, o sentimento… ao contrário de alguns sonhos cujo sentimento é puro, sem narrativa, a memória é narrativa sem sentimento, é puro texto.”

Árib Chassebœuf
em
Visões do Tempo.

imagem: Composition VII Kandinsky, Wassily
1913

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