Três observações sobre a saga da Princesa Isabel e sua avó correntista do Bemge

¨A sabedoria não está em nenhum livro. A sabedoria está em encher uma lata de arroz de arroz e colocar essa lata dentro da dispensa.¨ José Gerusa Souza Mansur

Vasco acordou particularmente bem humorado naquela segunda-feira quando decidiu ir à brasília testemunhar à Proclamação da República no Brasil.

Vasco tinha sentimentos ambíguos em relação a seu nome, guardava profunda admiração pelo navegador português, bem como carinho por sua mãe que escolhera o nome, porém era flamenguista como todo bom mineiro da Zona da mata. Após pensar nisso, começou a arrumar sua bagagem, consistia numa mochila de acampamento na qual colocaria um par de calças, duas camisetas e um cobertor, além de algumas cuecas e várias meias, detestava usar meias por um longo tempo, era um dos poucos luxos que se permitia após adotar o caminho do andarilho dois anos antes.

Arrumou as malas com calma, pois tinha bastante tempo, já que a Proclamação da República não aconteceria em menos do que 20 dias, o que lhe dava tempo suficiente para caminhar de sua cidade até a capital do Império. Vasco estava pouco interessado em testemunhar a tomada do poder pelos militares e a elite agrária privada de seus escravos, mas profundamente interessado em ver e ouvir o que as pessoas comuns do planalto central tinham a dizer sobre a Princesa, seu pai e o Marechal Deodoro.

No dia seguinte, após uma boa noite de sono Vasco comeu os restos de pão de centeio que tinham sobrado da refeição da noite anterior, colocou a mochila nas costas, deu uma olhada nos calos do pé e pôs-se a caminhar pela BR 040. No caminho acabou encontrando um chapéu e um par de óculos escuros que lhe tornariam a viagem muito mais fácil.

Três dias depois e já arrependido da decisão de fazer a viagem, Vasco descansava em um posto de gasolina às duas horas da tarde, na sombra de um abacateiro sem frutos nos arredores de Sete Lagoas quando finalmente encontrou Marcos, aquele que seria seu companheiro de jornada, pelo menos até Luziania, no estado de Goiás. Marcos era bastante lacônico e dizia apenas coisas como: ¨Você está acima do limite de velocidade¨ e ¨Em oitocentos metros, siga em frente¨, mas Vasco se sentia confortável na companhia do amigo.

Como previsto, chegando em Luziania, a bateria acabou e Marcos teve que ficar na cidade, Vasco, dessa forma, terminou a viagem sozinho, quando chegou a Brasília e se surpreendeu com os ares coloniais da metrópole. Visitou então o Imperador que lhe recebeu com um sorriso largo e um forte abraço, muito embora soubesse que as horas que viriam pela frente não seriam muito agradáveis.

Apesar disso, seguiu-se o seguinte diálogo:

¨Meu amigo Vasco, como é bom vê-lo novamente, fazem vinte e cinco anos que não nos encontramos¨

¨Pois é, meu caro Pedro, estive muito ocupado combatendo a praga de caramujos em Governador Valadares¨

¨E conseguiu¨

¨Consegui, mas não por um motivo meu, ou de quem comigo houvesse, que qualquer querer tivesse, porém como decorrência inevitável do derramamento de lama no leito do rio com o rompimento da barragem em Bento Rodrigues¨

¨Pois é, há males que vêm para o bem… Mas me diga logo quais são as razões que o trazem de tão longe. Suponho que não seja apenas para visitar um velho amigo em seus últimos dias no trono¨

¨Sinto confirmar sua hipótese, vim para realizar uma pesquisa de campo com o objetivo de testar uma hipótese que li num livro de um escritor inglês sobre a proclamação da República no Brasil que pretendo refutar na minha tese de doutorado¨

¨Ainda com essas tolices de tese de doutorado, Vasco? Pensei que já tivesse passado da idade de se envolver em atividades tão dolorosas¨

¨Que nada, minha vida anda muito melhor agora que a Capes adotou esse novo sistema de avaliação¨

Despediram-se, não sem antes realizarem a saudação secreta da Sagrada Ordem dos Cavalheiros Observadores de Gotas de Orvalho no Alvorecer de Dias Frios em Piracema-MG que consiste em uma biodança performática seguida de um abraço e três tapas nas costas.

Vasco dirigiu-se então às ¨ruas¨ da capital e pôs-se a conversar com os transeuntes. Encontrou três velhinhas sentadas num ¨ponto de ônibus¨ perto de uma ¨esquina¨ particulamente agradável e com elas confirmou sua hipótese de que ao contrário do que dizia o livro do especulador inglês, Lula não apenas sabia de tudo, como teria sido por uma ordem sua que Bezerra da Silva tinha iniciado as movimentações que culminariam com a queda do Império. Tomou notas e voltou feliz para Ewbank da Câmara, onde optou por não terminar de escrever a tese, seguindo o conselho de seu avô e abrindo uma pequena mercearia.

Luiz Caldas ao saber desse desfecho ficou bastante triste, pois estava realmente empolgado para ler o que teria sido a tese do amigo.

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