O sol que vem de dentro

Acorda, coloca aquela roupa que lhe cai melhor, lava o rosto, passa protetor solar — o sol arde lá fora -, atente ao canto dos pássaros no quintal, sente o vento no rosto ao caminhar na rua em direção ao trabalho, bebe um café — mas não pra acordar, pra saborear, sinta o café.

Caminhando pro trabalho pensa em todas as coisas que o sol lhe causa além do rubor facial. Causa-lhe vontade de praia. Vontade de fruta e água gelada. Causa-lhe fone de ouvido e aquela playlist animada (mas nem tanto). Causa-lhe uns espasmos nos músculos da bochecha que fazem com que os lábios se abram em direção à orelha, às vezes a abertura é tão grande que os dentes acabam por aparecer pra apreciar a luz solar também.

Quando o Tom Zé diz que “menina, amanhã de manhã quando a gente acordar a felicidade vai desabar sobre os homens” ele certamente falava de manhãs como essa. Elas acontecem vez ou outra. Pelo menos 4 vezes ao ano ela é necessária para que o trem siga ainda mais potente pelos trilhos certos (ou errados, mas siga). Manhãs como essa costumam ter o sol quente e o vento gelado em comum, mas o calor que diferencia uma manhã qualquer de uma dessas vem de dentro.

É aquela vontade excessiva de viver que lembra a gente que vinte-e-quatro-horas-é-pouco-pra-tudo-que-temos-e-queremos-fazer (ainda mais se considerarmos o tempo que a fisiologia humana nos exige em dormir, comer, etc etc etc). Aquela vontade excessiva de viver, de dizer que ama, de ir a praia, de ir a montanha, de ter filhos, de começar a correr, de mudar o corte de cabelo, de comprar aquele abacate que estava em promoção e fazer uma guacamole surpresa pra amiga que ama, de ligar pra mãe dizer que a ama e desligar, de mudar de cidade, de lado da calçada, de amores (mas nunca de amigos).

Esperando o ônibus responde com um sorriso à senhora que pede informação, fecha o olho quando a brisa que derruba as folhas secas das árvores (deixando o espaço para as que estão para nascer) lhe toca o rosto, pega uma caneta e escreve no caderno de capa verde os planos pra semana que vem, mas só aqueles que têm certeza que pode fazer.

No caminho prefere sentar na janela pra poder ter paisagem ilustrando seus pensamentos e planos. Decidiu que sabe o destino final, mas não quer se importar com o caminho, pois todos trazem delicias e tristezas. Tudo bem, desde que chegue lá. Entre o ponto de ônibus e o trabalho tem exatos dois quarteirões e meio. Vai caminhando devagar, não que não queira chegar, mas para ter certeza de que aproveitará todos os detalhes que o caminho lhe oferece.

-Bom dia Dona Maria, tudo bem? Porque vem andando tão devagar na chuva, está toda molhada, tá frio hoje, vai ficar doente.

-Bom dia Seu Eduardo, não tem problema não, é só trocar o casaco. Bom trabalho pro senhor!

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