Uma vez do lado de dentro do cérebro, desconfie das instruções do guia.

Ás vezes ela entrava na casa, subia vagarosa as escadas, observando a bagunça que encontrava em todos os cantos: jornais velhos, embalagens de comida do mês passado, caixas vazias de remédio e garrafas de vodka caídas e sem tampa. Isso sem contar as roupas sujas, muitas vezes não só da dona da casa. Era preciso tirar tudo do lugar, jogar tudo para os ares, e só então limpar e organizar tudo (e é claro, como em toda faxina, jogar algumas coisas velhas fora para que outras novas pudessem tomar lugar).

Ás vezes ela batia três, quatro vezes na porta de entrada e esperava a porta se abrir, mas na maioria das vezes era preciso pegar impulso e dar de ombros com força na porta se estatelando no chão do outro lado, arrombando-a. Uma coisa que ela sabia bem era que, uma vez do lado de dentro, deveria sempre desconfiar das instruções do guia.

Ela nunca conseguiu organizar as coisas com gente na casa, era preciso expulsar todos ou esperar algum momento em que saíssem por vontade própria. Ela só conseguia limpar tudo em uma companhia: da solidão.

Sempre que anunciava: OBA, DIA DE FAXINA, vinha alguém se oferecer pra ajudar, seja com palavras de apoio ou baldes, álcool e sabão-neutro, mas ela sempre soube: só ela podia fazer isso. Só ela sabia a organização perfeita para tudo, o que podia ser jogado fora, o que valia a pena guardar, as roupas que ainda havia esperança de caber e quais, mesmo servindo, era melhor jogar fora.

Um dia ela aprendeu, não adiantava anunciar e era melhor que ninguém percebesse que o fatídico dia chegava. “Vou estudar, tenho muita coisa pra fazer”, dizia, e lá ia ela enfiar um fone de ouvidos, arrombar a porta da casa, tirar tudo do lugar pra então limpar e organizar tudo de novo — mas com uma organização diferente da última vez, a fim de achar a organização que mais valorizasse todos os cantos e paredes descascadas. Como num feng-shui da alma.

Depois do árduo trabalho, quando a casa estava organizada, limpa e, nas faxinas mais dolorosas, até com cheiro de tinta fresca, ela costumava a tirar os fones de ouvido, respirar fundo e anunciar: hora de fazer uma festa, convidar todo mundo e colocar a casa de pernas pro ar de novo!

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