Por que as pessoas estão mais intolerantes?

Você já se perguntou por que a intolerância parece ter aumentado? Alguns autores ajudam a pensar sobre isso.

A filósofa alemã Elisabeth Noelle-Neumann cunhou o termo “espiral do silêncio” para explicar o comportamento da opinião pública. Segundo a teoria, as pessoas têm medo de serem excluídas da sociedade. É por isso que elas escondem seus pontos de vista, quando não estão de acordo com o pensamento da maioria.

Quanto mais as crenças do indivíduo estão distantes do socialmente aceito, mais ele tende a se autocensurar. O movimento só muda quando a cultura de um povo abre espaço para a discussão de novas ideias. Sentindo o apoio de quem está à volta, o sujeito pode expressar suas convicções sem medo de retaliação.

Esse modelo teórico serviu para compreender a relação dos grupos sociais com a mídia de massa. Até os anos 1980, a explicação convencia. Porém, hoje ela é insuficiente para analisar as relações humanas.

Um pouco disso tem a ver com as redes sociais. Nesses sites de relacionamento, qualquer usuário pode falar o que bem entende. O discurso público não fica mais restrito a quem aparece no jornal ou na TV.

Outra diferença é que ser excluído pelos demais não tem mais tanta importância. As ferramentas de block e unfollow são até um alívio para quem precisa fazer uma limpeza no feed. Se os posts do colega de faculdade ou daquele primo distante não agradam, basta apertar um botão. Pronto: um sem-noção a menos.

Discursos de ódio se intensificam na internet

O hábito de bloquear perfis ajuda a criar um fenômeno típico desta década: os filtros-bolha, que também se alimentam dos algoritmos dos sistemas de busca digitais. Quando alguém se cerca de conteúdo do próprio interesse, cada vez mais os sites mostram notícias, anúncios e páginas pessoais parecidas.

O resultado é que as pessoas deixam de conviver com a diferença e passam a acreditar que o mundo é formado apenas por gente da mesma ideologia. Essa sensação quebra a espiral do silêncio e abre espaço para textões emocionados e raivosos.

Por um lado, a rede permite que grupos antes marginalizados tenham voz para lutar por seus direitos. Coletivos feministas e de apoio à causa LGBT conquistaram uma visibilidade que, tempos atrás, era inimaginável.

No entanto, a proteção das bolhas virtuais também incita ao discurso de ódio. Recebendo likes de seus seguidores radicais, alguns usuários se sentem confortáveis para expor comportamentos preconceituosos e racistas. E, infelizmente, essas reações também causam barulho nas ruas.

Foi o que aconteceu em agosto deste ano, durante os protestos em Charlottesville, no estado da Virgínia (EUA). Manifestantes que defendiam a supremacia branca marcharam empunhando tochas e símbolos nazistas. Muitos gritavam palavras de ordem pela expulsão de negros, judeus, imigrantes e homossexuais.

Alejandro Alvarez/News2Share via REUTERS

A imprensa mundial tentou analisar o fato. Nos Estados Unidos, mesmo as opiniões mais extremas são amparadas pelo direito à livre expressão, garantido pela Constituição daquele país. Em outros lugares, como na Alemanha e no Brasil, a legislação proíbe apologia ao partido e às ideias de Adolf Hitler.

Acontece que grupos neonazistas não respeitam leis. Assim como organizações terroristas, eles planejam ataques para desestabilizar e gerar medo na população. Perseguem e espancam gays. Matam estrangeiros e afrodescendentes em nome da “purificação”.

Muitos atuam na clandestinidade, e tem sido assim desde a Segunda Guerra Mundial. Talvez, por temerem represálias, a maioria tenha buscado o anonimato. Ainda assim, o pensamento tirano sobreviveu ao tempo. Hoje, ganha novo fôlego — em parte, graças às tecnologias de comunicação.

Pluralidade de ideias faz parte do mundo

As crises de um povo têm impacto em várias partes do globo. Guerras no Oriente Médio, por exemplo, geram uma onda migratória de famílias em busca de um recomeço. Os refugiados chegam, sem dinheiro nem perspectiva, a países da América e da Europa. Eles precisam de assistência e de oportunidades de trabalho.

REUTERS/Stringer

O choque com uma cultura de fora assusta os cidadãos mais conservadores. Alguns respondem com violência, verbal ou física. A desculpa para a intolerância é quase sempre a mesma: proteger os empregos e os valores da nação.

Vários estudiosos se debruçam sobre essas questões. Segundo o sociólogo britânico Anthony Giddens, a dúvida é uma característica forte da atualidade. O século XXI é marcado por aceleradas transformações tecnológicas e comportamentais. Isso gera incerteza: o que fazer? Como agir? Qual papel devemos assumir?

Em meio ao desconforto, é natural haver quem se apegue às tradições e prefira deixar tudo como está — ou como era antes. Só que o mundo é plural. A informação não encontra mais fronteiras. A economia está globalizada e precisa da força trabalhadora de diferentes regiões.

O contato com a diferença é inevitável. Mais que isso, pode ser positivo. É no diálogo e na troca de experiências que uns conhecem as necessidades dos outros. Somente assim a sociedade consegue ir adiante.

O Digio acredita no respeito à diversidade. O ódio é fruto do preconceito e da ignorância. Entender que o outro faz parte do mesmo mundo que nós é o caminho para uma vida mais harmoniosa.

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