Meu Irmão Gui

Eu imagino que todos que tenham um irmão mais novo tenham boas histórias para contar. Irmãos mais novos, talvez por isso, são aqueles tão destemidos quanto sem noção. São os que se dão bem com todos, ao mesmo tempo em que estão no centro de todas as tretas. São os que unem a família, fazem barulho, riem e choram pelas coisas mais bobas. E são os que querem ter todas as coisas do mundo (principalmente as suas), mas têm pouca ambição ou ganância.

É, eu sei como é ter um irmão mais novo. Nas conversas noite à dentro, regadas à cerveja e teorias da conspiração. Nos abraços apertados de saudade, e também na disponibilidade prá uma cervejinha no finalzinho da noite antes da partida. Nas inúmeras viagens que só saiam do papel por que ele era muito chato.

Bom, as pessoas dizem que é preciso "fazer o luto". Eu sempre achei essa expressão esquisita e tive dificuldade de entender isso até que eu compreendi o que "luto" significava. E a verdade é que eu não "fiz o luto". Mas não, não foi inconsciente e este texto não representa o luto perdido. Eu carrego comigo o meu luto e também não, não sou infeliz e triste por causa disso. Esse tal de luto é só um nome chique para aquela cicatriz que nunca sara. De vez em quando sangra, de vez em quando dói. E esse meu luto representa a memória, a lembrança. É essa dorzinha, que na maior parte das vezes é só um pequeno incômodo, que me faz nunca esquecer.

Eu aprendi muitas coisas com meu irmão e talvez a coisa mais importante que aprendi foi a priorizar. Mas não aquela priorização baseada na responsabilidade e no bom senso (não era o seu forte, com certeza), mas a priorização baseada no que realmente importa na vida. A colocar em primeiro lugar não o óbvio, mas sempre questionar se o que está em primeiro lugar é por que a sociedade quer assim, ou se é por que eu quero assim. No fundo, o que é opcional nunca pode ser prioridade.

Mas a cicatriz sempre fica, independente do luto ou do não-luto. A questão não é a existência ou inexistência da cicatriz. Não podemos escolher se teremos momentos felizes ou momentos tristes em nossa vida, mas podemos carregar todos estes momentos conosco como prova de que estamos vivos. O não-luto para mim significa essa lembrança, esse carregar junto, sempre. Foi o que consegui prometer a ele, mesmo quando ele já não estava. Não me esquecerei da alegria, da vida, da irresponsabilidade pelo que não importa, e como consequência também nunca me esquecerei da dor, da saudade, da ausência.

Nosso cérebro é meio esquisito, né? Tenho uma incrivelmente vívida lembrança da ligação do meu pai e de sua voz embargada, forjando uma força inconcebível para mim hoje que tenho filhos e de suas poucas palavras "Perdemos nosso Gui". É tão vívida que me arrepio enquanto escrevo este texto (e também quando o releio) e é difícil não sentir um ressonar dessa dor em tão longínquos 7 anos. E eu acho que ainda sou mais estranho que o normal, por que, agora com muito menos frequência do que nos primeiros anos, é comum para mim acordar assustado a exatos 05:56 da manhã, horário em que meu pai foi obrigado a me dar a pior notícia que ele já deu a alguém. Como meu cérebro é capaz de fazer isso? Será alucinação ao olhar o relógio do celular? Eu não tenho explicação e muito menos vontade de tentar desvendar isso. A memória deste momento é a que mais pesa carregar, mas é a mais vívida de toda a última semana de vida do meu irmão. Depois dela, só a memória da última carona, do último abraço, e do momento em que poderia ter trocado um desligado "te cuida" por uma bronca de irmão mais velho. Teria salvado sua vida? Não sei. Mas essa dúvida é a segunda maior dor que sinto. Nem eu sabia o quanto eu o amava, e muito me dói não saber se ele sabia.

E exatos 39 dias depois desta ligação eu me tornava pai. Louco isso né? Em um período de 30 e poucos dias se opõem um dos dias mais felizes da minha vida e o dia de maior desespero e tristeza. E talvez por causa disso, o que mais dói é pensar no meu pai e no tamanho de sua dor ao fazer aquela ligação e ao carregar, junto comigo, aquele caixão. Se eu pudesse mudar uma única lei da natureza seria essa "pais nunca deveriam enterrar seus filhos, nunca". E não há luto que possa apagar este sentimento, que possa me fazer esquecer.

E, enfim, carrego comigo as minhas cicatrizes. Bem guardadas talvez, é verdade. É que aprendi a sofrer sozinho, ou talvez não tenha aprendido a sofrer junto. E talvez o momento em que pude experimentar sofrer junto com meu pai foi quando tomamos as alças daquela pesada caixa de madeira e caminhamos juntos, em silêncio (eu, pelo menos, não ouvia nada a meu redor), mas com o coração destruído. É também incrível como você pode realmente sentir uma dor física no coração, que dá a vontade de colocar a mão dentro do peito para arrancá-lo. E também como simplesmente contar esta história me faz sentir aquele peso novamente nos braços, literalmente.

E por que escrever sobre isso então? Não é por que gosto disso ou por que queira algum tipo de exposição (algo que fujo arduamente sempre que confrontado com estes sentimentos entre outras pessoas). Mas por que ele ajuda a me definir, faz parte de minha identidade. O Gui faz parte de mim, sempre fez, sempre fará. Esta cicatriz, mesmo que às vezes invisível externamente, conta uma parte muito importante da minha história. Talvez seja impossível saber quem eu realmente sou sem a conhecer. Nem para mim isto é possível. E, por isso, escrevo este texto. Não quero que ele seja público, e quero muito menos que meus pais o leiam, ressuscitando dores que vivem adormecidas também em seus mais íntimos pensamentos. Escrevo por que é minha identidade, por que me explica (apesar de provavelmente mais confundir do que explicar).

"As cicatrizes existem para que nunca nos esqueçamos que não somos mais como éramos antes das feridas."
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