30 DIAS COM ELE

Disseram-me uma vez que o amor é o melhor remédio: cura e salva até alma perdida. Eu, que sempre amei em excesso, não quis contrariar. Aceitei a ideia do amor. O amor… Ele, que de maneira tão linda é nos ensinado na teoria. Ele, que tão devastador pode ser na prática. Anos depois — após uma grande desilusão e alguns goles de cerveja barata — tive uma epifania: o amor cura, mas dependendo da sua dose também mata. E morrer de amor, meu amigo, ficou para os exagerados, como eu.

Trocamos as primeiras palavras no dia 12 de agosto deste ano. Agosto, o mês do desgosto para alguns. Para mim, não. Agosto me apresentou àquele amor que fez meus olhos brilharem e o coração bater mais forte durante os 30 dias que decorreram. Nos conhecemos pelo instagram. O amor, nesses novos tempos, chega assim. Após algumas trocas de curtidas, resolvi puxar assunto. Para minha surpresa, três dias de conversa foram suficientes para trazer à tona a vontade de se ver. O amor, que por vezes mata devagar e aos pouquinhos, parece ter pressa para acontecer.

No dia 15 de agosto, ele veio do interior ao meu encontro. Era fim de tarde de uma segunda-feira e fui encontrá-lo na faculdade onde está terminando a sua graduação. O seu olhar doce, ainda que um pouco tímido, era mais profundo que qualquer oceano. Bastou um encontro para saber que era alí que eu queria mergulhar. Tanto quis, que o fiz: mergulhei de cabeça. Mal sabia que a pancada desse mergulho perduraria por tantos dias…

Era um amor encantador. Eu parecia brilhar mais quando estava ao seu lado. Seu cheiro, seu sorriso e sua voz faziam despertar em mim algo que ninguém jamais tinha conseguido. Era desejo, mas também era mais que isso. Eu, que nunca pensei em casamento, brincava sobre como seria nossa cama e ele, rindo, dizia que o nosso futuro cachorro — que, agora, talvez jamais adotaremos — não poderia dormir em cima dela. Ríamos dos ciúmes que tentávamos (com êxito!) provocar um no outro, disputávamos, ridiculamente, queda de braço na mesa do bar e nos beijávamos como se o universo fosse só nosso. E quem sabe até fosse… O fato é que nunca fomos um casal convencional. Fomos intensos e exagerados. Fico me perguntando se, nesses 30 dias, consegui fazê-lo feliz como ele me fez.

Aquele amor, que nunca poderá ser chamado de despretensioso, foi tomando, dia após dia, conta de mim. Durante 30 dias ele acordou com minha mensagem de bom dia. Durante 30 dias fui dormir com a dele de boa noite. Geralmente, nos víamos nas segundas e quartas. Eram, pra mim, os melhores dias da semana, desde então. Nos outros dias compensávamos a ausência física com mensagens e áudios que duravam o dia todo. A gente sabia que era amor. Foi amor quando me pediu pra ajudar a escolher a camisa que ficou melhor nele. Foi amor quando ele disse que estava com fome e eu o levei para comer. Era amor todas as vezes que lhe dava tchau com o coração apertado por não saber quando iríamos nos ver novamente. Era amor quando, cuidadosamente, ele colocava a mão debaixo da minha coxa enquanto eu dirigia (hábito que até hoje me faz sentir sua falta). Foi amor todas as vezes que ele beijou meus olhos e sorriu.

Nós tínhamos planos para um futuro próximo. Ele queria passar um final de semana comigo em alguma praia. Na verdade, ele não tinha uma praia específica na cabeça. Talvez só o fato de estarmos juntos já fosse suficiente. Dizia que iria me ensinar a dançar forró, enquanto eu o intimava a conhecer todos os lugares alternativos da cidade. Ao meu lado, claro. Promessas que ficaram soltas por aí, perdidas em algum lugar. Meus amigos, para os quais tanto falei sobre nosso amor, talvez não terão a oportunidade de conhecê-lo, como eu tanto quis. Minha mãe deixou de ganhar um genro lindo e educado. E eu deixei de ganhar o seu amor.

Seu silêncio foi mais cruel que qualquer ausência poderia ter sido. Hoje convivo com as dúvidas que aquela história — rápida, mas intensa — deixou. Provei do amor e de todos os seus efeitos colaterais. Para ele, dei a minha melhor versão. Para ele, fui a melhor pessoa que eu poderia ter sido. Ele fazia isso comigo… Instigava-me a ser cada dia melhor. Talvez não tenha sido suficiente. O meu coração, ainda tentando voltar a ser o que era, guarda a saudade dos 30 dias em que o meu sorriso tinha uma razão especial em existir. Incrivelmente, ele segue batendo. Parafraseando Mário Quintana: É tão bom morrer de amor e continuar vivendo!

F. R.

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