É uma corrida ou apenas um passeio?

Marta Santos
Nov 4 · 2 min read

Tenho pressa, não sei de que, mas tenho pressa. Tenho corrido os últimos meses, sempre de braço esticado porque estou quase, quase a conseguir, mas ainda sem saber aquilo de que tanto corro atrás.

Talvez seja o sonho, mas qual sonho? Em 365 noites por ano quase todas têm direito a umas horas de sono recheadas de sonhos e fantasias, mas atrás de qual deles estou a correr durante o dia?

Esta pressa de ser e existir, de fazer diferente e de distinguir. A urgência de não ser mais uma pessoa, de ser a pessoa. A pressão de fazer bem e rápido, uma tentativa forçada de ser incrível mesmo que o exigido seja apenas estar.

E eu, que pouco talento tenho para a corrida, lá me mantenho de ritmo contínuo, que é como quem diz em desespero constante porque depois de cinco passos já estou a arfar, tento manter-me focada na linha final desta corrida. O fim há-de valer a pena: um dia vou atingir a meta.

O mal de quem corre atrás de algo vago é que a meta é tão ou mais vaga do que o objetivo da corrida. Felicidade? Mas onde raio é que isso se encontra? E que género de triatlo tenho de fazer para conseguir chegar lá? Basta coragem ou é também necessário apanhar um avião? Será que a conversa do “sair fora da bolha” é suficiente? O que raio é a felicidade? Sou simples de agradar, uma bola de gelado de stracciatella é felicidade e não preciso de correr para isso.

Continuo, já a arfar e sem saber quanto mais consigo aguentar. Continuo sem saber o motivo ou de onde surjo esta força de seguir em frente. Acho que o facto de não ser uma corrida em linha reta é o que me mantém ainda motiva. Ora uma curva mais apertada, ora um parelelo solto na calçada que me obrigada a saltar para não tropeçar. Engraçado que nisto de correr parece que somos apenas nós, no entanto tudo em redor nos faz continuar, nos dá ganas de chegar mais longe e ver o que vem mais além.

Estou a correr, ainda não sei atrás do que corro, mas já não me sinto tão aflita. Estarei eu a desfrutar disto da corrida? O coração continua a saltitar, a respiração é intensa e os pulmões expandem a um ritmo louco. É por isso que sei que continuo a correr. Mas agora consigo ver a rua por onde corro, consigo pensar além do que sinto, consigo sentir os cheiros que me rodeiam. Sei que continuo a correr. Continuo sem saber para onde ou porquê, mas algo mudou. Já não custa tanto seguir em frente.

Marta Santos

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Licenciada em Comunicação e Media que gosta de partilhar os seus rascunhos com a internet. Vive atualmente em Lisboa, mas chama casa a Idanha-a-Nova

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