sábado tem chouriço
cozido em cima do túnel
que dá para uma ladeira
íngreme feito o diabo

pode haver também pé de porco
filé com fritas
tropeiro ou torresmo
rabanada fumegando na cara dos bebuns
mortos de fome

cumpre um ritual vulgar
e meticuloso
três stents no peito
e uma ponte de safena para segurar

ali é onde o pudor vai para morrer
abraço caloroso do balcão enrugado
travessas ovais de alumínio
singrando a imaginação faminta

a cerveja está sempre gelada
com a sabedoria centenária de levá-la
ao limite
espalhada à boca pequena entre montanhas
e vagões

a rotina sagrada dos dias
embebida em sal e gordura
curtida nas maquinações sussurradas
nas tramas ébrias, concretas e inventadas
quando se define o destino do mundo

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Dedicado ao boteco Chic Tácio, Rua Itamaracá, 25, Concórdia — Belo Horizonte


outdoors reluzentes a nos anunciar o próximo estimulante priápico & a solução definitiva para as dores da carne e do ego & o esgarçamento da idiotia cotidiana a grassar na nossa cara de palerma & relinchamos contentes ao menor sinal de bajulação & lustramos o cabelo oleoso de glórias fracassadas & atiramos dardos tranquilizantes na farda de simón bolívar & cavalgamos jatos de petróleo a inundar o deserto da sensatez & gozamos do desastre inevitável a nos expropriar a saúde & tombados em nostalgia perene & engolindo sapos com altivez & rosnando a identidade na face da bancarrota & a certeza afiada da decadência calculada em baldes de água impoluta & descendo o barranco moral dos pedintes bem fornidos & entregando a suposta dignidade em bandeja prateada & a fumaça do desmoronamento a escapar pelas janelas & enquanto gritamos impropérios inúteis & repletos de uma mentalidade arrastada & vamos até o consultório esperando a receita final & devorada com sofreguidão embaixo do viaduto da…


há uma angústia espessa
pintando as paredes de uma
baforada ébria
que anuncia o campo de concentração
em um suspense infinito

somos milhões a aspirar o gás
dos facínoras
trabalhando feito porcos no chiqueiro refrigerado
rumo ao abatedouro

jogamos farelos ao rei de cristal
adoramos um deus falso que nos trai
a todo momento
enquanto jabuticabas brotam dos pés

recortamos simulacros do fascismo
retirados de cadernos de palavras cruzadas
que se anunciam com doses de humor
em preto e branco

vomitamos balas de fuzil
com fios de cobre enfiados no ânus
jurando de morte
a sutileza final

respiramos o pó dos cadáveres mutilados
que nos esperam
no espelho do alçapão
quando tudo for treva e ruína
e o grito ecoar miúdo
calado
na neblina dos…

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