sábado tem chouriço
cozido em cima do túnel
que dá para uma ladeira
íngreme feito o diabo

pode haver também pé de porco
filé com fritas
tropeiro ou torresmo
rabanada fumegando na cara dos bebuns
mortos de fome

cumpre um ritual vulgar
e meticuloso
três stents no peito
e uma ponte de safena para segurar

ali é onde o pudor vai para morrer
abraço caloroso do balcão enrugado
travessas ovais de alumínio
singrando a imaginação faminta

a cerveja está sempre gelada
com a sabedoria centenária de levá-la
ao limite
espalhada à boca pequena entre montanhas
e vagões

a rotina sagrada dos dias
embebida em sal e gordura
curtida nas maquinações sussurradas
nas tramas ébrias, concretas e inventadas
quando se define o destino do mundo

Hoje é dia de capitular decisões, esquentar os pés gelados, de ver como abracei a felicidade adiposa e acomodada que tanto detestava. Sou um burguês pleno, bem alimentado, bebendo delícias proibitivas a homens de pouca fé no capital. Indispensáveis prazeres soporíferos.

Falsa estabilidade. O hoje como único elemento formador. O…

Maurício Angelo

Jornalista e escritor. Autor de “Meu Mundo é Hoje” e “11 Rounds”, de contos e “Latitude 19 & Outros Hematomas”, de crônicas e poemas.

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