Imaginação

Um café. Um cigarro. Uma canção. Uma conversa.
Era tudo que ele precisava naquela noite fria e dura. Os pensamentos, por mais que ele se policiasse, voltavam sempre ao mesmo assunto. O medo o assolava. Medo de que? Medo de tudo. Medo das contas que não paravam de chegar. Medo das responsabilidades que só aumentavam. Medo de crescer e do que isso significava. Pegou o maço de cigarro. Vazio. Decidiu então vestir uma roupa e ir até a padaria mais próxima. Tomaria um pingado e alimentaria seu vício.
Ao vestir-se, olhou no espelho. Não estava satisfeito com o que via. Os cabelos começavam a apresentar falhas. As entradas aumentavam a testa, denunciando que há muito havia saído de seus vinte e poucos anos. Ainda assim, saiu.
Ao entrar na padaria, sentou-se, pegou o café e então a viu. A observou bem. Em sua cesta, tinha sorvete, um saco de pão e frios. Algo nela chamou a atenção dele. Talvez fosse a comida, típica de alguém que mora sozinho. Talvez fosse o sorriso jovial. Talvez fossem os olhos que em nada condiziam com a felicidade que ela aparentava para quem apenas a via de relance.
Por algum motivo desconhecido, começou a se imaginar com a desconhecida. Imaginou seus olhos alegres, o riso que parecia um canto de sereia. Imaginou o beijo dela, em meio a risadas, enquanto a abraçava por trás naquele que seria o apartamento deles. Imaginou uma vida inteira. Esqueceu-se de todos os problemas. E então foi acordado de seus devaneios.
- Boa noite.
Ela sorria para ele. Ele sorriu de volta. Então ela deixou o recinto. E ali ele decidiu que voltaria no dia seguinte, numa vã tentativa de vê-la novamente.
