Quando eu recorro à poesia…
Já dizia Camões, o amor arde, dói. Quando estamos em um relacionamento tendemos a romantizar toda a coisa e não entendemos absolutamente nada do que é dar a sua vida pelo outro. Não entendemos nem se quer o que é fazer o bem ao outro. Olhar para o outro e enxergar o sofrimento, a vida, o passado desta pessoa e que dizemos que amamos. Fazemos cobranças porque queremos o melhor pra nós. Nos esquecemos que o amor é doar-se por inteiro. E que doar-se por inteiro é abrir mão de si mesmo.
O amor é este sofrimento, é acreditar que a história vai ser dura e que até chegar o grande dia iremos pastar. Andar uma estrada com pedras, e que às vezes algumas pessoas vão jogar essas pedras em nós.
Ter um relacionamento baseado em um objetivo bem maior do que dar uns beijos e trocar uns carinhos é bem difícil. Ainda mais quando há muitas barreiras. Barreiras que nem com uma escada poderíamos pular.
Em um momento de desespero ou choro não conseguimos nem ao menos pensar. A melhor coisa que fazemos é recorrer aqueles que entendem mais que nós. Eu recorri a Camões. Ele já dizia que o amor arde, doi…
“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
Depois deste me lembrei de outro e que me ajudou a entender que o relacionamento é a mudança. Não é transformar o outro. É se transformar.
“Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,
Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.”
Quando deixamos de romantizar o relacionamento entendemos que o relacionamento é bem difícil. Ainda mais quando nossos defeitos são deixados de lado e apontamos defeitos demais no outro. E quando fazemos isto vemos que o outro não está sendo amado. Que falhamos e que no fim somos tão inseguros. E quando isso acontece, vemos que erramos feio. Tem como voltar atrás? Sempre tem. Mas é nesta hora que devemos recorrer a quem sofreu mais.
Reconhecer o erro é difícil, mas aceitar que erramos é quase impossível. E é aqui que sofremos. Sofremos porque queremos consertar o erro, queremos nos livrar do peso. Conseguimos entender que o outro estava carregando um peso enorme e não nos demos conta o quanto ajudamos com que essa cruz ficasse mais pesada. Quando enxergamos que não conseguimos consertar devemos recorrer a quem sabe mais, quem sofreu mais e quem pode mais. Esse poder é o de nos fazer entender que amar é sofrer, é esperar, saber esperar que além disso temos que nos transformar e que há um tempo para que o outro também se transforme.
E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações; sabendo que a tribulação produz a paciência,
E a paciência a experiência, e a experiência a esperança.
E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado.
Romanos 5:3–5
