Da impossibilidade da presença versus sua obrigatoriedade: reflexão sobre uma Superexistência

Deixe de postar uma semana pra você ver.

Formamos, talvez, uma massa que se desloca entre a ausência e a presença nas redes sociais muito mais do que se não as tivéssemos, potencializando, especialmente, a força da ausência. Primamos por abastecer e narrar nossa presença, nem que seja a conta-gotas, no intervalo do almoço, engulo a comida enquanto “posto”. Uma presença que se imprime justamente no imaterial e precisa de cultivo tácito: postar é posto e seu arsenal. Como uma “superexistência”.

Da gravidade de superexistir como jogo social [ou “malha do networking padrão”], por exemplo: pensei que uma amiga havia morrido por não encontrá-la mais em parte alguma, em nenhuma rede social. Entrei em pânico [físico, este sim], por não ter seu telefone. Até descobrir que ela estava ótima entre suas receitas ancestrais e cuidados com o filho, meus nervos estavam em estado de absoluto abalo e comi dois miojos [físicos, muito físicos]. Era impossível aceitar a ausência da minha amiga, me peguei com raiva, reivindicando uma presença obrigatória. Todo mundo está na rede social, está conectado de alguma forma. Como ela conseguiu? De certa forma, analisando o caso: ela, professora do estado, carteira assinada forever, não precisa, realmente, estar na cybermalha para viver. Pelo menos, não até aqui. Não enquanto esse Estado para o qual ela trabalha não lhe exigir que parte de suas aula sejam trabalhadas via rede social ou algo parecido.

Ainda do outro lado do roteador, um amigo, este realmente falecido, transita novamente por nós via mensagem do calendário que está conectado, por sua vez, aos eventos da minha rede social; aniversário. Se alguém com a senha se encarregasse de sua voz na rede social, teríamos uma macabra sessão de ressuscitamento, onde ficaríamos entre a indignação e a saudade e reviveríamos, entre outras coisas, nossa própria condição de malamigos, que não aproveitamos mais sua presença material, na carne, no suor e na pinga, e agora ainda temos sua cabeça flutuando pelo insípido mundo paralelo da expressão radical de sua inexistência. Agora não adianta mais chorar. Esse, talvez, seja um proto-terror da “superexistência”.

Penso no que não somos e fica de fora dessa narrativa compulsória do outro plano de existência social, no que queremos ser, no que precisamos ser, no marketing em que nos acotovelamos, posição ou oposição — mas sempre com total adesão. Não importa, estamos vivendo disso agora, da perseguição por alguma existência, da venda dos nossos pensamentos, das nossas imagens, das nossas narrativas, nosso chefe está de olho, nossa família, uma foto pode colocar um emprego/freela a perder, um texto de 140 caracteres pode te trazer um problema jurídico, uma “story” postada no horário certo pode trazer mais 50 seguidores e isso vai aumentar sua relevância no plano da superexistência, fazendo subir seu capital [erótico, social, etc. etc.]. E agora temos o “influenciador”, o topo da cadeia alimentar da superexistência em toda sua glória entojadinha de tudólogo, mas não quero falar sobre isso agora.

Meu amigo continua morto enquanto recebo anúncios com base nas minhas pesquisas e conversas em aplicativos: a tentativa forçada da materialidade em minha casa, a um clique de desespero. Na semana pós-black-friday, deixamos muitas pegadas, cyberregistros da nossa ansiedade liderada por um vazio que gerou muitos cliques, arrematou muitas vendas, várias delas indicadas por influenciadores, aliás e inclusive. Consumir para não sumir, ver coisas entrando pela casa para sentir um pouco o cheiro das coisas saindo das caixas: presença bruta do mundo líquido.

Não tenho condições agora mesmo de sair das redes sociais, de não existir: preciso dar de comer aos gatos e comprar passagens de avião, mas realmente, é de se pensar como os que agora se alfabetizam em alguma estrutura de leitura terá opções de não existir através do que parece ser hoje a [mais aguda e possível] forma de existência. A existência derradeira. Parece que já respiramos por equipamento há alguns anos, mas ainda temos opções de desligar os aparelhos e levantar a cabeça um pouco, pra alongarmos o pescoço, especialmente quem já está às portas dos 40; somos até incentivados pelos novos treinadores de mentes [coach, coach, coach, coaxando por aí] e até lembramos um pouco de como é existir num só espaço, ou melhor, no não-cyberspaço. Aqui, de onde escrevo e respiro, ainda sei como é usar um telefone de disco e, de cor, alguns números de telefone que são os mesmos há décadas. Não é mérito, é quase uma marca de sofá no meio da cara depois de uma longa soneca numa tarde de verão; é preguiça e um pouco de incompetência em aderir totalmente à superexistência.

Sempre que me vejo expressa na tela percebo que ser “eu” nesse contexto do “outro plano” seria remeter a tudo que não sou, que não consigo expressar que sou e/ou que não convém; não tenho como participar desse jogo sem que me ausente em minha presença material. Mesmo meus amigos mais esforçados, povo da ciência, do empirismo, do pé direito alto, da coluna de Trajano, aquele povo que posta foto 50mm com ângulo “é o que é” [selfie, jamais, eles pediram para alguém fazer a foto], sem pentear cabelo nem usar de nenhum artifício, mesmo esse povo, está reivindicando, incansavelmente, uma narrativa, uma ficção e está, junto comigo, pessoa maquiada e lacrada em filtro, nadando no vácuo da impossibilidade da presença terrestre e pedestre, no origami feito com a conta de luz vencida que é a vida. Ninguém liga, de verdade, se você é “transparente”, “real”, “verdadeiro”, “sincero” ou não. Tudo o que você manifestar só é possível através de um trabalho de auto-apropriação e ficcionalização. Aceite.

Precisamos da dinâmica da ausência nas redes sociais para consolidarmos nossa presença aqui e agora? Sim e é aceitar. A partir daí, começamos outro ciclo e abraçamos um pouco do potencial da loucura. Há alguns meses, sinto que preciso me ausentar para me presentificar mas, como já disse, não posso porque “contas a pagar”. Possivelmente, em breve, a ausência vai sobrepor de vez a materialidade e vamos “viver” de um “in memoriam” perene. E acabo de lembrar que, nessa “superexistência”, também podemos escolher quem deixa de existir para nós: um bloqueio, um silenciar por uma semana ou um ano. Vamos matando a presença nossa e dos outros, dos dois lados, na existência e em sua superversão. Talvez a possibilidade de escolha já tenha sido removida do livro de regras – versão ilustrada.