Desapega

Se eu fosse uma bilionária, entendiada com as fotos instagramescas de minhas costas flanando por vielas do mundo, largaria os jantares conceituais onde desgustam-se aromas e sons, abandonaria meu ambiente planejado com tapete de urso (era condição pra entrar no clube, mas a menina da loja me jurou que era pele sintética), diria au revoir aos saraus quinzenais de vinho e poesia. A fortuna, mantida no ambiente virtual, todos os dez números em dígitos não palpáveis, não seria mais um empecilho para abdicar das coisas materiais. Num ato final de desapego, rasgaria os cartões de crédito e doaria as últimas notas juntamente com a carteira para um malabarista de semáforo amigo de um vira-lata. Livre das mesquinharias humanas, entraria nua em uma floresta erma, extremamente erma (mandaria meus homens checarem), pois se pequenos nacos de pele exposta já são interpretados como “tá pedindo”, imagina o que significaria estar só no pelo, sozinha, no mato. Sri Prem Baba que me livre!

Uma vez inserida na natureza selvagem, buscaria conexão, comigo mesma, com o cosmos, com as nobres verdades. Transcenderia meus conhecimentos, motivada pela iluminação, que aliviaria todo o sofrimento, meu e de todos os seres. Ensaiaria diálogos de comunicação não-violenta, praticaria mindfulness, slow living, slow food, slow motion. Seria adepta do no poo, no makeup, no ego. Redefiniria a estrutura da minha consciência, tão condicionada a não viver o presente, não amar como se não houvesse amanhã, não estar sintonizada com meu eu interior.

Seria espiritualizada e evoluída.

E tudo isso seria possível porque eu saberia. Ah, sim, eu saberia. Todo um mundo de estabilidade estaria lá fora, esperando por mim. Um botãozinho dourado escrito páputaqueopariu, protegido das intempéries da floresta tropical por uma delicada redoma de cristal. Um belo dia, bam! Taco-lhe a mão e em algumas horas estou em um terraço com vista 360° comendo, empanadas em ouro, as formigas que vieram em meu cabelo.

Ok, agora se joguem da cobertura comigo até a realidade. Sim, atravessa a marquise. Chegamos. Veja bem, aqui temos um problema. Sabe esse murro no peito? É a pressão dos competentes e bem-sucedidos. Não, não vai morrer coisa nenhuma, é ataque de pânico, respira que passa. O lance é que não dá pra curtir essa pira de desapego total se você ainda não conseguiu juntar nem seus cacos, quanto menos um patrimônio que dê conta da subsistência. Isso muda de nome por esses becos. Quem não tem nada por aqui não é minimalista, é fudido mesmo. Se, por inspiração nos artigos sobre empresários que vendem tudo e vão viajar o mundo, um vivente do lado de cá do arame farpado decidisse fazer o mesmo, chegaria no máximo em outro estado, já sem um puto, em desespero pra arrumar um troco, um pf, um colchão na casa de um amigo. É cruel. Esses dias mesmo eu tentei pegar a estrada da iluminação, só não rolou porque o uber não aceitou gratidão como forma de pagamento. Fazer o quê.