Tentativa de crônica (sem pé, nem cabeça)

Era dezembro de 2011 e uma patinha nos auge de seus quinze anos estava sentada num banco retrô de madeira em um dos polos gastronômicos de São Paulo. Era o grande dia. O dia em que eu pensei dar um grande passo para minha independência -mesmo que somente financeira. Era minha primeira entrevista de emprego.

Fiquei deslumbrada com o lugar. Um café estilo francês, desse com cores mais neutras e detalhes miudos. Passei. O gerente na época era um descendente de japonês maromba que almoçava atum com pêssego em calda. E eu, uma menina. Comecei como atendente. Um mês depois já estava de douma e touca. Dois anos depois eu era a Sous Chef. Quatro anos depois e eu me tornei estudante e -em breve- professora de história.

Hoje assisti a um filme de mais de duas horas e meia sobre culinária. Dirigido pela Nora Ephron, o filme “Julie & Julia” me fez relembrar dessas coisas. Tirando o comprimento,o filme é bom. Desses românticos, fofinhos e que envolvem muita comida e paixões. Mas o foco foge -um pouco- dos clichés do gênero. A história gira em torno de duas mulheres, em tempos diferentes, uma em Paris e outra no Queens, que encontraram na cozinha o seu querer fazer, o seu dom.

Um semestre depois de ter ingressado na faculdade de história meu pai, que não é de falar muito, me perguntou: “Por que desistiu da cozinha? Você só falava disso, só queria isso… E poderia ter perguntado mais. Afinal, o que aconteceu com a menina que batia claras cruas com açúcar pro seu irmão, fazia macarronada de miojo pra eles enquanto sua mãe trabalhava, seguiu a receita de torta de banana gourmet do livro de capa vermelha, aparentemente caro, e que provavelmente a tia Meire trouxe da patroa junto com as revistas Veja. Será que você não confundiu o cansaço, a rotina, a viagem de ida e volta de quatro horas de trem, com o fim do amor? O fim do amor pela cozinha?

Estou buscando respostas. Enquanto isso vou comer rabanada e pensar no que me tornarei amanhã. Astronauta? Talvez…