Notas sobre a nossa terra arrasada e 2018

Ou: o que sobrou da esquerda para as próximas eleições

De Youtube/Psol. Freixo, em 2014, em vídeo defendendo o voto crítico em Dilma
  • O PSOL fez a escolha — não sei se mais ideológica ou política — de encampar o discurso do golpe e pagou um preço alto por isso. Nas capitais o partido do solzinho entrou com três candidaturas viáveis que morreram no primeiro turno: Porto Alegre (Luciana Genro), São Paulo (Erundina) e Cuiabá (Procurador Mauro). A primeira, da ex-candidata à presidência, naufragou, indo do primeiro lugar nas pesquisas a um quinto lugar frustrante; Erundina não decolou e viu parte do seu eleitorado votar útil em Haddad; Mauro liderou boa parte da campanha, foi alvo de ataques típicos, por exemplo de Silas Malafaia, fez videozinho jurando que é cristão e contra o aborto e contra a legalização das drogas e acabou em terceiro lugar mesmo assim. Patético;
  • Ainda falando do PSOL. O partido foi cheio de esperança para o segundo turno com Freixo no Rio, Edmilson em Belém e Raul Marcelo em Sorocaba. Três derrotas;
  • Sobre Freixo. Se um time joga ofensivamente o jogo inteiro é simplesmente um time armado ofensivamente. Se um time parte com tudo para cima depois dos 40 do segundo tempo é desespero e alguma coisa deu errado no resto do jogo. Freixo passou todo o primeiro debate, na Band, com amenidades e vamos discutir a cidade. Na antevéspera da eleição dedicou o debate da Globo a atacar Crivella. Foi até o meio do caminho com somos diferentes e na segunda metade resolveu fazer o óbvio, aproveitar a deixa dada pela grande mídia e partir para o ataque à problemática biografia de Crivella, um banquete pronto para ser devorado. O PSOL, mesmo depois de tantos anos, parece continuar com dificuldades para jogar conforme as regras do jogo. Freixo podia ter apontado o dedo na cara do Crivella e falado, Você foi ministro da Dilma, não eu; Seu partido era base do PT, não o meu; Foi no seu palanque que Dilma e Lula subiram, não no meu ou de alguém do meu partido, e com isso se descolar da imagem de linha auxiliar do PT que tentam imputar ao PSOL e ainda assim ter engajamento e votos da maior parte dos ex-governistas. Não fez. Ficou com medo de ferir a sensibilidade petista. O PSOL precisa crescer. Em todos os sentidos;
  • Tanto Haddad em São Paulo quanto Freixo no Rio tiveram seus melhores desempenhos a) entre os mais jovens b) entre os mais estudados c) entre os mais ricos. Fica especialmente fácil de enxergar quando olhamos para a votação por zonas eleitorais/bairros;
  • A cobertura da Globo à prefeitura Crivella deve ser de grande agressividade. Desidratar o projeto político da Universal tem tudo para estar no topo da lista de prioridades da família Marinho. A missão de Crivella e do PRB é das mais difíceis. Ter contra si, de corpo e alma, todo o barulhento campo de esquerda e a grande mídia é um bom desafio;
  • Duas das principais capitais do país — Belo Horizonte e São Paulo — tiveram a vitória do discurso anti-político: Kalil e Dória, sub-celebridades disputando suas primeiras eleições, um ex-presidente de time de futebol (e que fez uma gestão bastante irresponsável, nada austera) e um empresário com momento mais público como apresentador de um reality bosta. Quantos outros empresários e afins nos próximos anos vão ver Dória e Kalil como cases (!) de sucesso a serem seguidos?;
  • Porto Alegre começou a campanha com PT e PSOL na liderança e terminou com um segundo turno entre PSDB e PMDB vencido pelos tucanos. Primeira vitória do PSDB na capital gaúcha. O PT não levou nenhuma capital no nordeste. Inclusive, Rio Branco, AC, é a única capital que o PT administrará nos próximos quatro anos. O partido também passou por uma total desidratação na Grande SP. Não existe lado bom possível para os petistas verem nessas eleições. O PT recuou sei lá quantos anos no tempo, teve candidaturas de um dígito em mais de uma dezena de cidades importantes do país. A rejeição, claramente, se estende à ideia da esquerda de maneira geral. O PT perdeu todas as sete cidades que disputou nesse segundo turno;
  • A soma de nulos, brancos e abstenções foi recorde em todas grandes capitais do sul/sudeste no primeiro ou no segundo turno. Talvez esteja ai o campo de disputa mais interessante hoje;
  • O PMDB, arquiteto do golpe, colocou-se à prova nas urnas e passou. O PSDB cresceu e sai fortalecido. A população, de maneira geral, não comprou a ideia de que a Dilma foi golpeada. Aceitar isso, pensar em outros discursos e retóricas possíveis, repensar mais uma vez, se permitir a reflexão etc etc é urgente. Aceitar isso é sinal de maturidade e pragmatismo, tudo que o PT usou como desculpa para fazer atrocidades em série nos últimos 14 anos e tudo que não está tendo agora. A desidratação do PT — e consequentemente da esquerda — só tende a crescer até 2018 se nada for efetivamente feito;
  • O partido historicamente ligado ao campo de esquerda que sai mais forte dessas eleições, apesar da diminuição do número de capitais, é o PSB de Márcio França, vice-governador de SP e aliado importantíssimo de Geraldo Alckmin no seu sonho de Palácio do Planalto. O PSB é, hoje, o quinto partido com mais capitais e conquistou prefeituras muito importantes, a exemplo de Guarulhos. Há quem diga que se os tucanos optarem por Aécio Neves o PSB é o destino natural para Alckmin concorrer daqui dois anos. Não é a esquerda que gostaríamos, mas é certamente a que merecemos;
Do IG. À esquerda, o socialista Márcio França
  • Falando no Picolé. Aécio não elegeu João Leite, seu candidato em BH. Serra, citado na Lava Jato, pode ser o boi de piranha perfeito para a operação da Polícia Federal encarar de frente as acusações de partidarismo — e deixar muito petista sem pai nem mãe. Alckmin, por sua vez, encarou Serra nas prévias partidárias, forjou João Dória e levou a maior cidade do país para os tucanos. No primeiro turno. Alckmin, olhando para 2018, é possivelmente o maior vencedor dessas eleições. O sonho dourado de ver o PSDB explodir em um pega pra capar dos seus três principais caciques fica um pouco mais distante;
  • Ainda em 2018. Ciro Gomes continua viajando pelo país em sua empreitada de convencer todo mundo que ele tem a única candidatura possível. Entre uma entrevista engraçadinha e outra ainda conseguiu reeleger Roberto Cláudio, seu candidato, em Fortaleza. Ciro chama de golpe, faz críticas duras a Dilma, promete defender Lula, jura de pé junto que é de esquerda enquanto despeja boa parte dos jargões típicos à velha esquerda nacionalista-desenvolvimentista… A ideia parece ser mesmo convencer o PT a abrir mão de uma candidatura própria (em uma demonstração de humildade ou algo que o valha) e lançar o vice na candidatura pedetista — minha aposta pessoal é que Ciro quer Haddad;
  • Marina sai enfraquecida com o decepcionante primeiro pleito da Rede que, em capitais, venceu apenas com Clécio Viera em Macapá (eleito quatro anos atrás pelo PSOL). Bolsonaro sai fortalecido com a expressiva votação do filho no Rio. A não-demonstração de rejeição explícita ao PMDB deve fortalecer a ideia do maior partido do país de ter candidato próprio. Álvaro Dias, presidenciável verde, não fez questão de ter holofotes no Paraná, onde Curitiba elegeu o ex-prefeito Rafael Greca, do minúsculo PMN, que disse que pobre fede e que tem aversão a tudo que o PT fez. Ronaldo Caiado, presidenciável pelo Democratas, ajudou a eleger o octogenário Íris Rezende em Goiânia e deve continuar vislumbrando o pleito de 2018. Já o PSOL poderia se lembrar que sua melhor tentativa foi a primeira, com Heloísa Helena, e se concentrar em fazer as pazes com o PSTU e manter a boa relação com o PCB.

A esquerda, no seu sentido mais amplo possível, ou seja, qualquer coisa que se diga de esquerda, é a maior derrotada das eleições municipais de 2016.