As dificuldades do jovem negro na sociedade atual

Michael Fonseca
Nov 6 · 5 min read

Por dia, milhares de jovens negros morrem, seja por homicídio, suicídio ou outro motivo. As estatísticas só aumenta e a cada dia se torna mais difícil sobreviver na sociedade

Por Michael Fonseca

O racismo ainda prevalece no Brasil. Faz apenas 131 anos que o país deixou a escravidão e o reflexo desse atraso pode ser visto nos tempos de hoje. Os negros sofrem muito na sociedade, mais especificamente o jovem negro. Ele é o que mais carrega os traumas desse passado sombrio, vulnerável na sociedade, em questão de segurança, saúde mental e emprego.

Segundo o Atlas da Violência 2018, a cada 100 vítimas de homicídios no Brasil, 71 são negras, com um crescimento de 23% de 2006 a 2016. A pesquisa revela que a faixa etária que mais morre é o jovem negro, de 15 a 29 anos. Além da taxa de homicídios ser alta, o homem jovem negro também é o que mais morre por suicídio. A pesquisa “Óbitos por suicídio entre adolescentes e jovens negros 2012 a 2016”, do Ministério da Saúde e da Universidade de Brasília, mostra que o homem negro (entre 10 a 29 anos) morre 50% a mais comparado com brancos e seis vezes a mais que a mulher negra.

Matheus Cruz, 20, é estudante de Direito. O que o diferencia da maioria é sua cor, mesmo os negros sendo a maior parte da população brasileira. Sua história com o racismo começou cedo. Ele relembra que, na sétima série, chorava todos os dias por causa de preconceito. Na sua sala só havia ele e mais outro menino negro, que na segunda metade do ano pediu transferência.

A cada 23 minutos morre um jovem negro/Crédito: Michael Fonseca

Sete anos depois, ele acredita ter superado isso, mas ainda reconhece que precisa ser forte e evitar algumas coisas, já que esses mesmos preconceitos ainda existem, muitas vezes de forma velada. “As pessoas soltam algumas frases que elas não percebem que têm preconceito, mas eu consigo sentir”, conta. Matheus recorda que, em seu trabalho, após cortar o cabelo que antes deixava black, sua coordenadora comentou na frente de todos que com aquele cabelo ele tinha uma cara de "relaxado". “E eu não soube o que fazer, só continuei o meu trabalho”, relata.

“As pessoas soltam algumas frases que elas não percebem que tem preconceito, mas eu consigo sentir” - Matheus Cruz

Seu desafio diário não para por aí. Seu trajeto começa de manhã quando vai para a faculdade. Ele pega um trem e um metrô que dá em média 40 minutos, depois segue a pé para o trabalho, já que os dois locais ficam no bairro da Liberdade. Na volta, leva uma hora. Em uma dessas viagens, conta que, no metrô cheio, conseguiu sentar em um lugar que estava vago, mas mesmo com outro lugar vazio ao seu lado ninguém sentou. “Eu me senti naquele momento à parte da sociedade”, lembra.

Matheus, acredita ter superado alguns traumas/Crédito: Michael Fonseca

Saúde mental

O racismo pode causar problemas além do social, na saúde mental do negro. Como explica Diogo Silvino, psicólogo negro que trabalha com estes jovens, “o racismo pode levar à ansiedade e até crises piores, como ataque de pânico”. Diogo explica que esse transtorno pode levar a pessoa a ser mais controladora, já que ela tenta sempre antecipar as coisas para evitar novos traumas.

O racismo pode afetar a rotina e a saúde mental do jovem, que causa uma invulnerabilidade diante da sociedade. Isso pode levar com que ele se sinta sem valor, subjugado e sem importância, comenta Diogo.

“Esse problema pode ser contornado a partir do momento que a gente começar a repensar nossas estruturas sociais”, acredita o psicólogo. Para ele, um dos principais motivos dos jovens negros terem mais problemas psicológicos é a falta de mobilização da esfera pública, pois a falta de educação, saúde e segurança é comum na vida desses jovens. É preciso um “espaço acolhedor” e mudar essa cultura que incentiva o racismo.

Jovem negro e gay, Gabriel Arcanjo, 19, luta todo dia contra a sociedade quebrando padrões sobre a masculinidade/Crédito: Arquivo Pessoal

Jovem negro e gay, Gabriel Arcanjo, 19, luta todo dia contra a sociedade quebrando padrões sobre a masculinidade. Morador de Diadema, desloca-se todos os dias para o bairro da Lapa, onde trabalha de domingo a domingo em uma central de telemarketing e estuda produção de moda. Ele sai de casa às 8h e só chega depois da meia noite.

Como a maioria dos negros, Gabriel em muitas situações se sente em desvantagem em relação aos outros. No seu curso, há termos que ele conta que não entende, mas os alunos brancos, que tiveram suporte e bom ensino, já entendem. Essa desvantagem não é de agora: bailarino há treze anos, relembra que já perdeu papel principal por ser negro.

Mesmo com sua rotina agitada, Gabriel encontra tempo para ser bailarino/Créditos: Arquivo Pessoal

Assim como Matheus, já sofreu racismo por causa do seu cabelo. Aos 17, quando trabalhava como recepcionista em um hospital, pediram que ele cortasse o cabelo por não “representar o hospital”. Mesmo com isso, ele sabe a importância de se manter firme. “Meu corpo é 24 horas um ser político. Ser um ser político sobrecarrega”, ressalta. Ele acredita que é muito mais do que se posicionar. “Por mais que já tivesse minha consciência racial estabelecida, ou trabalhava e tinha o meu dinheiro, que precisava naquela época, ou eu militava”, descreve.

“Meu corpo é 24 horas um ser político. Ser um ser político sobrecarrega” - Gabriel Arcanjo

Marcos Martinez, sociólogo, acredita que ainda vivemos no “mito da democracia racial”. O sociólogo Florestan Fernandes, em suas obras, falava que por causa da mistura de raças no país esse mito foi instalado. “Os assuntos mais profundos não foram discutidos com plenitude”, complementa Martinez. Isso impede a compreensão da causa, tornando a sociedade mais ignorante e racista.

Para Martinez, é preciso empatia da sociedade e do jovem. “Hoje em dia nós vivemos uma geração extremamente individualista”, explica. O papel do jovem para reverter tudo isso é lutar e se manifestar para defender os direitos, o espaço já conquistado e exigir mais. Martinez ainda comenta a importância dos movimentos negros para defender e unir o jovem.

Matheus e Gabriel, dois jovens distintos, não se conhecem, mas dividem o mesmo sofrimento entre eles e entre outros milhares de jovens negros em todo o Brasil e no mundo. Com o pensamento em preservar essas vidas, a ONU conta com a campanha “Vidas Negras”, onde no mês da Consciência Negra levantam reflexões sobre o tema. Em nível nacional, o Plano Juventude Viva pretende reduzir em 15% das mortes com ações no combate contra à violência jovens negros.


*reportagem produzida no primeiro semestre de 2019 para o jornal Fapcomunica

    Michael Fonseca

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    Apenas um jovem negro tentando ganhar a vida com palavras.

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