As pessoas do outro lado da janela

Certa vez decidi fazer uma jornada até o centro da cidade em que moro, para comprar artigos de uso doméstico, destes que todos gostam de ter em casa. Quem procura economia, sabe que a parte central das grandes cidades é uma excelente pedida. Podemos encontrar de tudo por lá, desde a banquinha de frutas e verduras frescas com o simpático senhor do … “Olha o cheiro verde, um é 60 dois é um real” … Tem laranja fresquinha, meu patrão! Mulher bonita não paga, mas também não leva” até os donos de vale transporte repetindo exaustivamente o “Olha o vale, é o vale, o vale, o vale” , que depois fica martelando na nossa cabeça, como aquelas marchinhas de carnaval que tocam quase que 24 horas por dia nas rádios FM.
Sacolas cheias e bolso feliz pelas 4 horas a fio de pechincha sob o sol escaldante da parte da tarde, eis que o dia termina e decido então ir à Praça da Estação a fim de apanhar a condução para retornar para casa. Linha 609, também conhecida como Sítio São José, e que até hoje tenho curiosidade de saber onde fica, mas o medo de me meter no famoso “cheiro do queijo” vence no final(como nós cearenses assim batizamos locais em que o encontro com Deus é cada vez iminente, haja vista a periculosidade do local).
Eis que o ônibus chega e me ponho a enfrentar uma disputa pela cadeira da janela. A vantagem de pegar uma linha de coletivo no início da viagem é poder sentar-se durante todo o percurso para casa, fato impossível para quem entra em paradas mais afastadas, no fim de tarde, próximo das 17 horas, no horário de pico, em que parece que todas as pessoas do mundo voltam para casa ao mesmo tempo e decidem pegar o mesmo ônibus. Resultado: até o lugar para seu pé é alvo de disputa… tente a artimanha de tira-lo da posição que estava anteriormente e recolocá-lo… é uma missão mais impossível que as vencidas por James Bond.
Devidamente sentado, me ponho a observar as pessoas ao redor. Um trajeto de volta do centro da cidade, no horário de pico, nos permite fazer as mais diversas reflexões sobre a dinâmica da vida. Fiquei, pois, observando o comportamento das pessoas que estavam do lado de fora da janela, nas suas paradas de ônibus.
Percebi a inquietude de cada pessoa que passava por mim enquanto o veículo se deslocava, que se manifestava no próprio comportamento delas. Sempre olhando para o relógio, como que perdidas no tempo e espaço e, ao mesmo tempo, evitando o mínimo de contato com os que estão ao redor, talvez aguardando a mesma linha de ônibus e que carregavam consigo a mesma característica por mim percebida.
Um comportamento tão atípico que me chamou realmente a atenção. Todos que passavam por mim eram praticamente iguais. Nenhuma comunicação ao redor, nem o mínimo sinal de atenção ao que se passava ao redor. Apenas, e exclusivamente, a inquietude. O olhar de cinco em cinco minutos ao horizonte para ver se o ônibus chegava, enquanto mantinham, quase numa simultaneidade de ginástica rítmica, os olhos também voltados para o relógio que parecia parar no tempo.
Nenhuma palavra com o semelhante. Apenas a correria. Unicamente a preocupação com o que virá a acontecer consigo. Um olhar apenas para dentro de si, esquecendo que, bem ao lado, poderia ter alguém que precisasse de um outro olhar, de ao menos um sorriso, ainda que descompanhado de qualquer palavra, mas que, ao mesmo tempo, transmitisse uma certeza de que amanhã tudo ocorrerá bem… que amanhã será um novo dia e que terás forças novamente para ir adiante, na luta diária pelo sustento.
Percebi, então, que aquelas pessoas do lado de fora do ônibus eram reflexo de nós que estávamos do lado de dentro. Eram projeções nossas. Quantas vezes no nosso dia a dia corrido, deixamos de cumprimentar alguém e dar ao menos um sorriso? Quantas vezes fomos aquelas pessoas inquietas, a olhar apenas para nossos relógios e buscar apenas nossos ônibus da vida?
A vida é passageira demais para vivê-la de forma solitária. Já dizia Cora Coralina que de nada adianta a vida se não tocarmos o coração das pessoas. Então permita-se viver. Permita-se rir. Ria só. Sorria. Só ria.