Quem anda cos bão

Foto: Kaique Andrades

“Eu me governo!” Ouvi da minha amiga Gabriela, que rebatia outra quando foi alertada sobre já ter bebido umas a mais. Apesar de saber que um bêbado raramente se governa e que, portanto, nenhuma expressão poderia ser mais inapropriada pro momento, achei apropriada pra vida. Mais que isso: uma regra, um dever. Com algumas óbvias exceções, não há muita justificativa plausível para o desgoverno pessoal.

Depois dos 25 nada mais é desculpa. O turbilhão hormonal já arrefeceu, a realidade já mostrou os dentes, as necessidades imediatas urgem e os desejos supérfluos cutucam. Avia, te vira!

E a base do autogoverno é, precisamente, a escolha da equipe que te acompanha no processo. O teu imediato, diante do limite extrapolado, pede a conta ou pede outra?

Tenho amigos que amo verdadeiramente, mas que, se eu permitir, me carregam para um buraco. Não por maldade, não intencionalmente. Simplesmente porque querem companhia no próprio percurso, mesmo — ou principalmente — que este seja desastrado.

É fácil identificar o atrativo da cilada: não é bom sentir-se querido, requisitado?! Mas é ainda mais simples identificar quando o processo de acompanhá-los sem critérios é deletério: quanto isso te limita nas suas possibilidades? Quanto isso te atrasa não só em quem você é, mas em quem poderia ser?

Os artifícios são variados, um amigo pode nos atrasar de muitas formas. Há os que repetem sempre os mesmos convites para os mesmíssimos esquemas. Há os que não conseguem torcer genuinamente por nosso sucesso porque isso agravaria o amargor que sentem com seus próprios projetos ou porque significaria que nos afastaríamos para uma nova vida. Eu tenho uma amiga que reprovou, consistentemente, todas as pessoas com quem eu tinha algum flerte. Todas tinham defeitos insuperáveis e indignos de mim, segundo ela. Percebi, a tempo, que o que ela não queria era perder a companheira de farra da solteirice.

Há os que nos amam sinceramente, mas amam a si próprios acima de qualquer empatia. Um deles, dos mais queridos, sustentava o mesmo problema há tempo demais, era sua peça de estimação. Todos os encontros eram para ouvir suas lamentações e buscar soluções. Volta e meia o assunto variava, mas acabava voltando pra isso. Quando alguém tentava falar sobre suas próprias questões, ele ficava com aquele olhar de quem escuta mas não ouve e sempre encontrava um gancho pra puxar a questão dele grudada na do outro. Seu “problema” virou sua ferramenta para ser sempre o protagonista, a figura central das reuniões. Nunca queria sair quando a turma era grande. Quanto mais gente, menos chance de ser o foco. Acabou isolado pelo grupo.

Há os que nos apontam mudanças — “você mudou!” — com tom acusatório ou de lamentação ou de reprovação, muitas vezes austero. Essa reação geralmente se dá quando a mudança, na verdade, foi uma evolução. Essa mudança se dá quando passamos a enxergar o afeto com os critérios que nos escapavam justamente pelo… afeto. Esses percebem que demos um passo adiante enquanto eles ficaram. Mudamos porque já não nos reconhecemos nos mesmos papos, programas e, acima de tudo, propósitos.

Não há razão, porém, para questionar o valor da amizade. Nós ultrapassamos alguns e somos ultrapassados por outros. Cada qual se dá de acordo com o que tem no momento, de autoconhecimento e de discernimento geral. Não há razão para o afastamento total.

Mas o que não deve haver, antes de tudo, é a desculpa para a falta de critério e de mudança na forma como nos relacionamos com eles quando a evolução se dá. É preciso deixar que cada amigo nos toque somente naquilo que nos faça bem e, nos casos mais maduros, naquilo que nos provoque ao nosso melhor.

Pode ser difícil. Toda mudança de estrutura é. Perceber que algo em nós mudou quando tudo parecia tão certo, tão ordenado, tão confortável. A mudança, em si, já é a prova máxima de que não era bem assim. Uma zona de conforto pode ser infernal e você nem sentir, porque o ser humano a tudo se habitua.

Pode ser difícil se ver, como que de repente, absorvendo a influência de quem nos é superior de alguma(s) maneira(s). Exige humildade, exige coragem. Pode ser chocante olhar pro outro e perceber — ou ouvir — “Ei! Você é muito mais do que isso, muito melhor do que isso!” Assusta. Mas não adianta. Não há retorno quando vislumbramos o que podemos ser. É impossível voltar a quem se era há apenas um segundo depois desse contato. E esse processo pode — deve — ser constante.

Nos últimos dias recebi uma excelente notícia profissional. Corri dividir com os que amo, os que estavam ao alcance no momento. Um deles é um dos meus melhores amigos, muito melhor do que eu numa lista de quesitos. Ele comemorou, parabenizou, elogiou… Mas arrematou com um “Boroh, só não posso deixar de dizer que você, ainda assim, é muito melhor que isso daí!” Ouvir isso foi melhor do que a notícia em si, não porque foi agradável, lisonjeiro — ele não é de demagogia -, mas porque aquilo provocou uma mudança instantânea em mim, um crescimento imediato. Uma evolução. Por ser alguém bom de fato, pra ele e pros que o rodeiam, suas palavras não estavam carregadas de suas próprias crenças, sentimentos, ressentimentos, dúvidas… Ele falou pensando exclusivamente em mim.

Schopenhauer, meu filósofo sincerão preferido, disse logo cedo que pouca coisa é mais salutar para alguém do que a companhia de um outro mais maduro. Jordan B. Peterson, meu psicólogo favorito (também sincerão) de cabeceira dos últimos tempos, inclui entre suas 12 regras para a vida — um antídoto para o caos, aquela que resume todo esse texto: seja amigo de pessoas que queiram o melhor pra você. O melhor pra VOCÊ. Não pra você e pra elas, muito menos só pra elas. O melhor pra você.

A resolução é simples. Dispensa textão, filosofia fina ou psicologia precisa. Basta uma lição da roça que eu carrego comigo há muito tempo:

Quem anda cos bão fica mió.

Se governe.