Sobre o novo jeito de blogar

Michele Contel
Jul 6, 2015 · 4 min read

Por que não existem fórmulas fabricadas e quais são os motivos que estão levando empresas a procurarem por conteúdos mais autorais?


Desde 2010, blogar nunca esteve tão na moda. É a nova profissão do glamour, da ostentação, da fama e do sucesso. Blogueiras têm mais destaques que atrizes globais e mais credibilidade que grandes profissionais da área de moda e beleza. Principalmente em ações publicitárias.

Erika Palomino , recentemente, que a profissão de crítica de moda está cada vez menos relevante.

“Cada vez que você abre o Instagram, a crítica de moda se torna menos relevante. As resenhas e os textos publicados por veículos independentes, como os jornais, por exemplo, ou mesmo sites, perderam importância diante de meninas de sociedade que têm dinheiro para comprar tudo ou ganham e são pagas para vestir aquilo. Aí, é um festival de look do dia, de “olha minha sandalinha #nãoseioquê que estou usando hoje, gente”. E você olha o número de gente que segue essas pessoas, é gigantesco. Eu acho essa coisa do look do dia péssima, não sei. Tem essa “bloguerização” da moda. Gente, a pessoa vai lá, produz cinco looks, chama um fotógrafo profissional que faz fotos dela fingindo que está atravessando a rua, ela publica, e todo mundo diz: “Ai, que lindo, fulano, adorei!”. Fica tão pueril, infantil, adolescente, que eu acho uma loucura. E é uma mudança dos tempos. Eu sigo algumas blogueiras. Depois de um tempo, eu paro, porque canso. Tem algumas com quem eu simpatizo mais, outras menos. Acho que vão ficar as melhores, as mais legais.”

Não tem como discordar: blogueir@s de moda se colocam na posição de críticos e despejam opiniões, embasadas unicamente em seus gostos e experiências pessoais. Seus seguidores compram essa ideia e, assim, todo um mercado é influenciado. As “blogueiras de moda” compõem apenas uma das inúmeras fatias que preenchem esse grande mercado, que um dia, já foi definido como nicho.

A procura por esses conteúdos, no entanto, está passando por uma grande mudança. Com a popularização, a ideia de que existe uma fórmula do sucesso para crescer foi enraizada junto a ideia de que ser famoso, na internet, é fácil. Gurus de beleza, fashionistas e rainhas do look do dia dominavam todo um mercado que era rentável e que funcionava. Em razão disso, centenas de milhares de blogs segmentados foram criados. Todos falando sobre um único assunto e buscando a mesma relevância. Centenas de milhares de vozes gritando a mesma coisa. Era um movimento rentável. Até então.

A forma com que as empresas estão enxergando blogs, blogueiras e seguidores está, sim, mudando. Antes, apenas números contavam e, até mesmo por isso, uma nova forma de negócio foi criada — o da compra de likes e seguidores. Hoje, o que está contando é o conteúdo. A forma com que influenciadores são denominados como tal também está mudando e, mesmo que a passos lentos, números estão deixando de ser considerados estatísticas comprovantes de sucesso. O engajamento está falando mais alto.

Um exemplo recente foi um , que traz um modelo teórico de influência, desenvolvido por Michael Wu, do Lithium, que são formados por quatro tópicos: relevância (a informação correta), timing (o tempo correto), alinhamento (no lugar correto) e confiança (a pessoa certa), o que comprova que qualquer pessoa pode ser um formador de opinião, independentemente de quantos seguidores. Basta a influência que essa pessoa tem em seu círculo social. Associado a esse estudo recente, podemos destacar novas campanhas que focam no conteúdo e não em seus porta-vozes, como o caso do blog , ou da blogueira . O foco desses dois grandes blogs são os textos, o conteúdo e a reflexão proposta em cada linha. Não são os tutoriais, não são as comunicadoras como pessoas. São seus conteúdos autorais e que promovem, além de tudo, a empatia. Outro grande fenômeno é o da youtuber JoutJout, que conquistou a relevância por nadar contra a corrente dos vídeos “que já fazem sucesso” e promoveu a empatia com milhares de espectadoras que se sentiam representadas pela carioca. JoutJout trata assuntos que realmente fazem parte da vida de qualquer mulher.

Outro caso recente que mostra que a massificação não está sendo tão vantajosa é o caso do reality show The Bloggers Show. Vendendo uma ideia de que o sucesso pode ser comprado (com inscrição paga + participação + mentoria de um youtuber relevante para um nicho segmentado), o reality não teve adesão e, o pouco que teve, não se converteu em relevância. Não conquistou destaque na mídia, não obteve anúncios e acabou com um comunicado do programa.

É claro que isso não vai acabar de uma hora para outra e, muito provavelmente, quem já tem a sonhada “relevância”, continuará tendo por um bom tempo. Para quem ainda quer seu lugar ao sol, o caminho será um pouco mais estreito e os formatos “mais manjados” perderão força com o passar dos anos (ou podemos arriscar dizendo “meses”?). Existiam dúvidas sobre o futuro dos blogs — principalmente com a popularização dos vlogs -, e alguns profissionais apostavam até mesmo em sua extinção. (Eu) Acredito que eles continuarão muito vivos (afinal, resistem há décadas e muito mesmo antes de todo o glamour envolvido), mas com uma grande mudança em seu conceito de relevância.

Para mim, o mercado de blogs está se fechando e o grande número de blogs que tratam o mesmo assunto é a principal causa. No meio da multidão, está destacando-se o diferente e o que causa a real empatia. São os textos pessoais, autorais e únicos. Hoje, o diferente, veja só, é o old school.

Michele Contel

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Eu escrevo e tomo café. Muito.