Amores de viagem – é uma cilada!

Ele tem olhos azuis. Tem o sorriso mais charmoso desse mundo. Tem um jeito sedutor irresistível. Mesmo não sendo brasileiro, tem pegada. Ele sabe conquistar quando quer, sabe tampar meus olhos e me surpreender com a vista mais bonita das estrelas que eu já vi em toda minha vida. Sabe falar dos mais variados assuntos. Tem senso de humor e sabe me fazer rir das piadas mais sem graças.

Ok. Parece o cara perfeito.

Quando a gente viaja, seja pra dar umas voltinhas pelo mundo, seja para tirar um ano sabático, seja para se descobrir, seja o que for, a regra é clara: Não se apaixone! É cilada! Exceto se o crush estiver disposto a largar tudo pra viver essa aventura com você. Caso contrário, controle sua carência, controle seus impulsos, controle seus desejos.

Durante a viagem é normal se sentir vulnerável, apesar de ser incrível poder ter essa experiência, passamos por momentos do tipo: “cara, que que eu tô fazendo aqui?”, dá saudade de casa, dá vontade de chorar e aí o seu crush gringo nesse momento se aproveita pra te oferecer colo, apoio, uma cama confortável (depois de dias em hostels o que você mais quer é dormir numa cama confortável) e outras coisas mais. Mas lembre-se, é uma cilada!!!!! E isso eu acho que aprendi finamente no meu terceiro período longo de viagem fora do Brasil.

Aprendi na dor, no sacrifício, aprendi na marra porque infelizmente eu me apaixonei. E como eu já falei, não caiam nessa. Não estou dizendo para não se apaixonar, estou dizendo para não achar que esse crush gringo fofo que parece ser perfeito vai ser o homem da sua vida.

Sim, ele iria causar inveja nas amigas e inimigas, em todos os ex, ia ser o genro dos sonhos da minha mãe, nossos filhos seriam lindinhos e bilíngues mas ele causaria um estrago irreparável: eu deixaria de ser quem eu sou.

Vamos aos fatos: eu gosto de desbravar o mundo e me aventurar por aí, ele nunca saiu do país e nem pretende sair tão cedo. Enquanto a gente trabalhava junto, eu gostava de ouvir música, ele gostava de ouvir podcasts de história. Eu queria adestrar o cachorro sendo carinhosa e ele queria ser rígido. Eu queria beber vodka e tequila, ele queria beber whisky. Eu queria ir pra Califórnia, ele queria ir pra New Orleans. Eu queria cantar no karaokê e ele queria só sentar no bar e beber cerveja. Eu gosto de azul, ele gosta de amarelo. Eu entro no mar com água gelada e ele não suporta água fria. Eu gosto de doce, ele gosta de salgado. Eu acredito em Deus e sou espiritualista, ele não acredita em nada. Ele gosta de caçar e eu não suporto ver animal sofrendo. Eu sou feminista e acredito no empoderamento das mulheres, ele é machista assumido. Eu demonstro afeto e sentimento, ele é racional e frio. Eu sou insegura, ele é extremamente auto confiante. Eu sou romântica, ele não. Eu gosto que me responde rápido, ele leva dias pra ver a mensagem. Ele é controlador, mandão, eu sou de boa. Eu sou ciumenta, ele nem um pouco.

Apesar disso tudo, ele tem o melhor abraço do mundo. Ele sempre vai estar lá pra me apoiar e dar os melhores conselhos. Lá no mesmo lugar que a gente se conheceu. No mesmo lugar que eu o vi pela última vez. Talvez não do jeito que eu queria estar. Talvez essa distância seja proposital. Talvez essa distância que nos separa hoje seja Deus e o destino dizendo que foi bom enquanto durou. Que ele foi uma das minhas mais significativas memórias. Que ele é umas das minhas lembranças favoritas. Porque talvez eu não esteja preparada pra abrir mão de ser quem eu sou, de deixar de fazer o que eu gosto de fazer, de deixar de ver o mundo com os meus olhos, do meu jeito sem precisar me adaptar tanto pra estar com uma pessoa tão diferente de mim.

Sinto a falta dele todos os dias mas eu acho que a saudade vai passar assim que eu decidir meu próximo destino. Pelo menos assim eu espero.

Nem todas as histórias vão terminar com finais felizes como a Julia Roberts em “Comer, rezar e amar”. Mas é isso, a gente tem que fazer sim o que o coração manda mas ciente e consciente das consequências e das mudanças que acontecerão depois. Ciente de que se ele não pode abrir mão da vida que tem e não pode fazer nenhum esforço pra estar comigo, por que eu deveria fazer ? A vontade de estar junto deve ser recíproca, deve ser verdadeira e não só passageira. A vontade de mudar também. Eu não acredito que pessoas diferentes se completam, eu acredito que elas se aceitam. E pra aceitar, é preciso dar um grande passo que talvez nem todos estejam preparados, como é o nosso caso.

Que seja então só mais um carimbo no coração e que essa experiência sirva de lição.

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