O passado, o presente e o futuro

Michel Silva
Sep 3, 2018 · 4 min read
“O Triunfo da Morte”, de Pieter Bruegel (1562). Museu do Prado, Madri.

Possivelmente a imagem mais marcante e triste dos últimos dias foi o incêndio que destruiu o Museu Nacional. Além do prédio e sua arquitetura que por si só era um objeto de pesquisa das representações culturais de uma determinada época, sabe-se com certeza que uma parte considerável o acervo foi destruída. Será preciso algum tempo para saber quanto do acervo foi efetivamente destruído, mas, mesmo que tivesse sido uma única peça, certamente poderíamos dizer que trata-se de uma perda gigantesca.

Enquanto ainda ocorria a tragédia, na mídia e nas redes sociais começava-se a buscar culpados e, claro, o raciocínio médio não conseguia ir muito além do superficial. Embora com ambiguidades, parte da imprensa parece sugerir que a responsabilidade seria da atual gestão da universidade que administrativa o museu, a UFRJ. Contudo, há muito tempo a referida universidade alertava que os insistentes cortes de recursos impossibilitavam o funcionamento das atividades mais básicas da instituição e, consequentemente, de órgãos a ela ligados, como é o caso do Museu Nacional.

Os problemas estruturais do prédio que sofreu o incêndio são antigos. Em 2004, um laudo alertava para os riscos de incêndio, devido especialmente à precariedade das instalações elétricas. Um conjunto de reportagens realizadas pela imprensa em maio deste ano apontavam que este problema não havia sido resolvido. Outros problemas estruturais do prédio vinham sendo apontados havia algum tempo, apresentando a urgência de uma necessária solução. Pela tragédia de ontem, se percebe que pouca coisa ou mesmo nada foi feito para que se solucionasse esses problemas.

Paralelo a isso, outros órgãos federais, como o Arquivo Nacional e a Biblioteca Nacional, vem denunciando há algum tempo os problemas estruturais que enfrentam. Não seria uma grande surpresa se os prédios desses órgãos também enfrentassem um incêndio ou alguma outra tragédia. Isso porque há um descaso consciente com esses órgãos, que se materializa nos permanentes cortes orçamentários. Com o projeto de “austeridade à brasileira”, materializado mais recentemente tanto na política de contingenciamento de Dilma como na aplicação do teto de gastos do Temer, o Museu Nacional vem sistemicamente perdendo recursos, numa política que vai muito além da disputa superficial de cores partidárias.

Contudo, se há registros de pelo meno quatorze anos dos problemas do prédio do Museu Nacional e de outros órgãos e nada foi feito pelos mais variados governos que passaram por Brasília, mostra-se outro sintoma ainda mais grave, que é fato de não haver nenhum compromisso com memória, história e patrimônio. Para ser mais preciso, o passado não tem importância para aqueles que mandam na nossa sociedade, sendo considerado como uma despesa contábil que serve apenas para onerar as despesas do Estado. Para eles, espaços como arquivos e museus guardam um conjunto de velharias cuja utilidade não conhecemos muito bem e para as quais acaba-se não dando muita importância.

Esses espaços guardam fragmentos — objetos, documentos e por aí vai — da nossa cultura e de outras com as quais mantivemos algum contato. Podem guardar o que restou da vida de outras épocas e que nos possibilita conhecer nossa própria espécie ou outras que talvez não tenham nem convivido com nossos antepassados. Nesses espaços podem existir inclusive informações sobre outros planetas, que abrem infinitas possibilidades de pesquisa e reflexão.

Para um historiador, um fragmento rasgado de papel pode ser o início de uma grande pesquisa sobre um século inteiro. Para um arqueólogo ossos sujos de terra podem abrir a possibilidade para revolucionar o conhecimento que temos sobre a vida em determinada região. Para um antropólogo um objeto que hoje olhamos como mera decoração pode ser a chave para compreender culturas inteiras. O que se perde com um incêndio como o de ontem não é um conjunto de coisas interessante para se visitar e tirar fotos, mas centelhas de conhecimento que mudaram ou que ainda poderiam mudar a forma como enxergamos o passado, o presente e até mesmo o futuro.

Na medida em que sucessivos governos, de diferentes cores partidárias, que priorizam seus contratos com os setores da burguesia que os financiam e sustentam, mantém um completo descaso com o patrimônio cultural e a história, não é equivocado falar que se trata de um projeto político de apagamento do passado. Não se trata mais de construir e manter espaços públicos em que a população possa circular, em que se possa realizar ações intrinsecamente vinculadas ao processo educativo e em que pesquisadores tenham estrutura para produzir novos conhecimentos.

No melhor dos casos, os governos buscam alguma parceria com o setor privado, que provavelmente será o caminho da reconstrução do Museu Nacional, ou seja, depois de décadas priorizando seus consórcios partidários com a burguesia os sucessivos governos destroem o patrimônio cultural e histórico para depois reconstitui-lo com seus parceiros empresários. Com isso, não há garantia de acesso livre de qualquer pessoa a esses espaços e muito menos de pesquisa. Inclusive o que deve ser priorizado ou até mesmo preservado se torna objeto de lucro e de interesses privados.

Não é possível dizer que a tragédia de ontem tenha sido um acidente. Ela é parte de um projeto que prioriza os lucros privados imediatos e não a preservação dos fragmentos do passado e a possibilidade de construção de novos conhecimentos no futuro. Para conservadores e reacionários, não faria diferença se ainda acreditássemos que a humanidade nasceu no Jardim do Éden ou que a maioria das pessoas morresse em massa por epidemias, desde que seu lucro fosse garantido, pelo livre mercado ou mesmo pelas permanentes benesses do Estado. Para a maioria da população, seria garantida apenas algo como uma terra arrasada da qual mal podem tirar seu sustento, a partir das migalhas que eventualmente caiam das mesas dos poderosos.

Preservar os fragmentos do passado e lutar para que sejam preservados e estejam acessíveis a todos faz parte da luta pela revolução que somente os trabalhadores podem realizar.

Michel Silva

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Doutor em História pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Atua no Instituto Federal Catarinense (IFC).

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