Acorda.

Acordou, saiu de casa atrasada usando um vestido. Não tinha maquiagem. Estava de tênis. O calor era infernal. Pegou o ônibus. Ouviu “gostosa, te quero, hoje tá pedindo, vou te comer”, por todo o trajeto. Entrou no ônibus lotado, sem possibilidade de se mexer. Ficou perto de outras mulheres. Achava que ao lado delas poderia se defender.

Acordou, saiu de casa. Foi correr de manhã no bairro nobre daquela capital. Vestia uma calça preta e uma blusa soltinha. Usava fones de ouvido, mas lia lábios. “Gostosa”, “que saúde”, “que mulher”, “tesão”. Voltou pra casa. Tomou banho, se lavou daquela gente nojenta, da qual não pediu opinião.

Acordou, saiu pra escola. Errou o caminho de volta pra casa. Entrou na rua errada. Sentiu que estava no lugar errado. Passo rápido, olhos baixos. Viu movimento do outro lado. “Moça!!”, gritou ela “deixou cair o seu casaco!”. Quase chorou. Era só outra mulher naquele lado.

Acordou, feriado. Dia lindo. Brigou com namorado. Um príncipe encantado. Será? Bom partido, bonito, bem de vida. Bateu nela. E na ex-namorada. Entendeu que ela era sua propriedade. Seu corpo lhe pertencia, achava ele. Mas jamais seus pensamentos. Denunciou. Gritou. Não se calou. Outras tantas inspirou.