(fragmentos de uma nova vida sem você — teu quarto)

mano,

estive no teu quarto. não só pra chorar, pegar um moletom e vestir uma camisa tua como uns dias atrás. nem também pra olhar aquele tanto de livros de fantasias e histórias de guerreiros que eu quero ler muito, que tão naquele armário que fica perto da tua cama.

estive ali, observando. te observando. uma luva de beisebol, um porta-retrato com um bilhete — que tu nunca colocou foto nenhuma, vez que era avesso às fotos, de modo geral -, carrinhos de coleção. as baquetas com as quais tu nunca tocou bateria em casa, mas que embestou que queria colocar uma na garagem, certa vez. dentro do armário, pokecoisas de todos os tipos. pokebonecos, pokecartas, pokesacolas. encontrei muito mais cartas de pokémon do que achei que tu tinha, mais de mil, e não consigo nem imaginar quantos mil reais tu gastou nisso. acho que isso era a única coisa que tu realmente era apegado materialmente: as cartas de pokémons.

atrás daquele álbum que tu guarda as cartas mais fortes dos pokemóns — e certamente estou usando algum termo errado aqui, me desculpa, eu apenas não consigo saber todos os nomes e nem tenho a tua facilidade em decorar nomes, datas, fatos inventados ou reais, de qualquer tempo — encontrei também uma garrafa de vodka, é verdade. escondida em um belo lugar, tendo em vista que ninguém nunca ia mexer ali. e certamente tu não pensou que alguém mexeria tão breve. contei pra mãe, que contou pro pai. rimos.

coloquei de volta no lugar, exatamente como tu deixou. tua ausência é tão presente que eu consigo ouvir a tua voz todos os dias. comprei um caderno novo onde te conto coisas dos dias sem ti. escrevo até minhas mãos doerem, na esperança de que a minha tendinite seja mais forte, por pouco tempo que seja, do que esse monte de sentimento misturado e dolorido que vem da tua ausência.

e não gosto de vodka, tu sabe. mas tomaria aquela meia garrafa contigo, pura, com ou sem gelo, tu escolhe. se eu pudesse. talvez não, mas talvez ficaríamos bêbados como naquele final de semana na praia e dançaríamos funk pouco antes de filosofar sobre a vida de madrugada e atacar a geladeira fazendo um prato de arroz, feijão, massa 4 queijos e um resto de camarão. tudo misturado. como se fôssemos imunes a qualquer sentimento diferente de alegria na vida. se eu pudesse.

[30 de março de 2017]

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