(fragmentos de uma nova vida sem você – junho)

junho nos faz dobrar uma curva nessa estrada escorregadia que é a vida desse lado sem você. chegou cinza, denso, pesado. sinais de um frio que se aproxima nessa querência amada. água que cai do céu há dias, quase sem parar. lá fora e aqui dentro. frio anunciado, o mesmo de todas as lembranças que temos do mês que você nasceu. o inverno mais frio desde sei lá quando, dizia-se. frio que você não sentia ou dizia que não sentia, ou não se importava em sentir. só em nova iorque, lá sim, disse que era frio. nem na neve de bariloche você trocou a calça de moletom pela térmica. o que rendeu boas histórias e uma calça congelada, me contaram.

caminhamos ao encontro de completar três meses da tua morte e 21 anos da tua vida, se aqui você estivesse. morte e vida, tão longe, tão perto, separadas por 11 dias na contagem de tempo aqui da terra. morte e vida, opostos tão afetos que questiono se são tão opostos mesmo. afinal, viver é caminhar em direção à certeza de morrer um dia, não?

para ti, aniversários nunca foram diferentes de todos os outros dias. para mim, presentes sempre foram um desafio. a mãe também não é muito fã desse negócio de comemorar essa data. nunca entendi muito bem como é isso, já que comigo acontece exatamente o oposto. ou acontecia, não sei bem. um passo de cada vez, dizem. mas vocês se entendiam nessa e tudo bem. o certo é que sempre teve bolo e abraço e amor, sem dúvida. mas e agora?

junho chora, mostrando que pra andar nessa estrada sem cair, precisamos de um pouco mais de esforço, pois está deslizando mais. já eu chovo de saudade, de lembrança e de amor. chovo antes de dormir, às vezes. nas tuas camisetas e de vez em quando nas tuas meias brancas, dentro da primeira gaveta da direita no closet (não a segunda), absolutamente todas iguais, que escolho segunda e quarta pra usar no ensaio. junho chora tanto que a gente se pergunta: como pode ter tanta água pra cair ainda? já eu chovo de saudade e pra lavar. por dentro.

08 de junho de 2017.