Bolo de chocolate

Com os olhos e a boca cheios de água, a menina olhava vidrada para a televisão. Em um programa de culinária, um homem fazia um delicioso bolo de chocolate. Sua cobertura deslizava como neve em uma montanha. Era uma visão linda. A menina não teve nem tempo de raciocinar. A primeira coisa que lhe veio à mente e a boca foi:

– Mãe, faz bolo!

Ela foi pisando na calça do pijama até a cozinha e pegou na barra da saia da mãe, puxando até a sala de TV.

– Eu quero esse. Você faz?

– Daqui a pouco. Agora, eu estou ocupada!

A menina olhou para a mãe e olhou para a TV sem acreditar na resposta. Como assim, depois? O que isso queria dizer? A cobertura negra e densa estava lá deslizando sobre o bolo, a maciez da massa e do recheio ela podia sentir na boca. Ela precisava do bolo! E precisava agora, não podia ser depois.

Ela se sentou arrasada no sofá. Como a mãe pôde fazer aquilo? O programa estava terminando e o bolo estava sobre a bancada ao lado do apresentador. O bolo estava lá, era tudo que ela queria. Sua boca salivava, ela precisava do bolo.

A mãe, na cozinha, se preocupava com o almoço, remexia e mexia nas panelas como um capitão dando ordens em um navio.

A menina continuava na sala, olhava os detalhes do bolo até ele ir saindo de foco. Começou um programa de desenhos, o bolo tinha ido embora e, mesmo assim, ela pensava nele, em como ele devia estar delicioso. Escutou o barulho no portão. Era o pai chegando para o almoço. Ele sempre sacudia o cadeado para entrar, era uma zorra quando ele chegava para almoçar, o cachorro logo latia, a mãe se desesperava na cozinha.

Ele passava pela cozinha, dava um beijo na mãe, bagunçava o cabelo da filha e brincava com indi, o labrador caramelo que nunca se cansava de nada. Ele se sentava no grande sofá marrom, pegava a revista da semana e ia ler enquanto a mãe colocava o almoço na mesa. Em minutos, tudo ficava pronto, as panelas soltavam fumaça, uma névoa saborosa se espalhava pela mesa. A ânsia da menina aumentava: devia vir de sobremesa? Sim, era isso, a mãe não lhe negaria nada.

O almoço estava servido, todos foram para a mesa, menos o labrador, que se continha em ficar no pé de alguém aguardando que algo caísse do alto. Foi servido arroz branco, strogonofe, e salada. A menina comeu sem vontade, tudo parecia insosso e sem graça, o bolo era tudo que ela queria. Um belo e delicioso bolo de chocolate com cobertura de chocolate caindo pelas bordas.

A mãe estava tirando os pratos, era chegada a hora. Estava chegando a hora da sobremesa, ela salivava mais e mais. A mãe fez barulho na cozinha, ela tentava captar o cheiro do maravilhoso bolo que a mãe fez. Ela passou pelo corredor, a menina pôde ver algo nas mãos da mãe e, quando chegou perto, sua decepção. Ela tinha feito pudim. Pudim!

O que era um pudim perto de um bolo de chocolate, como eles poderiam concorrer existencialmente. Ele não era nada, aquela coisa branca e insossa, com aquele caldinha melequenta de açúcar.. Ela olhou para a mãe desolada. Como ela pôde fazer aquilo?. ELA QUERIA BOLO! TINHA SIDO CLARA, PRECISAVA DE BOLO DE CHOCOLATE COM A COBERTURA CAINDO NAS BORDAS.

Ela disse que não queria, saiu da mesa quase chorando e foi para o quarto. A mãe e o pai ficaram sem entender por que a menina agia daquele jeito. Ela foi para o quarto e ficou quietinha encolhida na cama, pois os bichinhos de pelúcia ocupavam todo o espaço. Sem saber por que, ela olhou embaixo da cama, vai que ela encontrava um bolo escondido por lá. Não tinha nada. Nem bolo, nem migalha. O pai tinha de voltar ao trabalho, passou pelo quarto dela e deu um beijão e uma sacudida na menina, prometendo que a levaria ao parque no domingo. Ela não queria parque, ela queria bolo. Um delicioso bolo.

O pai saiu e ela voltou para a TV, foi procurar algo para assistir. O desenho dos pinguins estava passando. Ficou entretida com a série de desenhos que passavam. A mãe continuava na cozinha. Depois de quase uma hora vendo desenho, a mãe chama a menina:

– Filha, vem aqui me ajudar, vem!

A menina foi até a cozinha e encontrou a mãe com uma colher de pau melada de chocolate.

– Você quer rapar a panela?

– Aham.

A mãe foi cobrindo o bolo e deixando o chocolate cair pelas bordas enquanto ela assistia quieta e atenciosamente. Quando o bolo foi para a mesa, nobre com sua casaca de chocolate denso e derretido, sua massa macia e recheio gostoso, a mãe cortou um bom pedaço, colocou em um pratinho e deu para a menina com um grande copo de suco de goiaba.

– Experimenta, amor!

– Sabe mãe, a vontade passou.

A mãe olhou a filha com ternura e guardou o bolo. Ela voltou a ver o desenho de pinguim.