A graça brasileira

O circo está armado! Já são 20h14 e o público aguarda ansioso pelo início do espetáculo. A exibição começa. Alguns reclamam da atração principal, contudo esperam para ver no que vai dar. O tempo passa e nada muda. O show chega à metade e vaias são ouvidas na parte direita da platéia.

Do lado de fora, escutam-se batidas de panelas anunciando uma nova apresentação. De repente, todos são obrigados a sair. Uma parte do público protesta, indignada: “Pagamos por esse show. Não vamos abandoná-lo!”. Não adianta, são forçados a ir para o circo ao lado.

Para alegria de uns e tristeza de outros, a lona que vai abrigá-los pelas próximas horas não é da cor vermelha, como estavam acostumados, mas verde e amarela, repleta de escudos da CBF na decoração. Enquanto uma pequena parte acomoda-se nos poucos assentos disponíveis no local, o restante tem de assistir de pé a entrada da trupe.

“Respeitável público!”, exclama o apresentador fantasiado de mordomo de filme de terror, “apresentar-lhe-ei o nosso show de horrores”.

Então entra, no picadeiro, um grupo de homens brancos e velhos com chicotes e narizes de palhaços nas mãos. Os que estavam sentados acham graça da cena e começam a rir. O restante olha desconfiado o movimento dos sujeitos. “Coisa boa não é”, diz um senhor de meia idade vestindo uma camisa das Diretas Já.

Subitamente, tropas cercam o local, bloqueando as saídas. O temido apresentador reaparece anunciando que o circo está quebrado e, se quiserem voltar para suas casas para descansar o resto da noite, todos devem pagar caro pela continuação do espetáculo.

“Mas e os que estão sentados? Eles têm dinheiro e escolheram vir para cá. Eles devem pagar por isso, não a gente”, alegam os que estão de pé. Ignorados, todos são levados ao centro do picadeiro e, aos poucos, os narizes vermelhos são entregues, um a um, a cada pobre coitado.

Cientes do rombo nas contas, a plateia percebe que o trabalho não terá fim. “Vamos aluta!”, “queremos nossos direitos!”, “não trabalharemos até a morte!”,brada o povo revoltado, na esperança de que, do alto do trapézio, ouçam seus protestos. A resposta, rápida e derradeira, pega a todos de surpresa: “Esse é o som da aprovação. Todos entendem que os sacrifícios são necessários. Agora, parem de reclamar, apenas trabalhem! ”

*Essa crônica foi escrita em 17 de março de 2017 para uma disciplina da faculdade de jornalismo.