A vitrine da humilhação: o lado da web que ninguém quer ver

Mulheres e meninas têm sua privacidade exposta devido ao ódio de ex-parceiros

Nessa nova era, temos a impressão de que nada mais é escondido. Uma época em que as pessoas concorrem umas com as outras para serem cada vez mais populares, para estarem cada vez mais expostas nessa vitrine chamada redes sociais. O que antes era feito e limitado ao conhecimento de poucos, hoje é de conhecimento de milhares. A intimidade tornou-se um valioso tesouro.

Em pleno século 21, muitos paradigmas e preconceitos são quebrados, mas existem fatos que ainda chocam e, inevitavelmente, muitos via internet. Entre eles está o que chamamos de revenge porn ou pornografia de vingança. Para quem não conhece trata-se da divulgação e exposição de vídeos e/ou fotos íntimas por companheiros, após o término do relacionamento, sem o consentimento da ex-parceira.

O lado da lei

Raivosos, inseguros e inconformados. Este é o perfil da grande maioria dos homens que cometem esse tipo de crime. Sim, crime, que prevê até um ano de prisão, segundo a lei 12.737, conhecida como Lei Carolina Dieckmann.

Dentre os delitos descritos na Lei estão a invasão de dispositivo alheio, conectado ou não à internet, com a intenção de obter, adulterar ou destruir dados sem autorização do titular; interrupção ou perturbação de serviço telefônico ou semelhante; e falsificação de documento particular ou cartão.

Em vigor desde 2 de abril de 2013, a Lei foi proposta em referência à situação na qual a atriz foi exposta dois anos antes, quando um hacker invadiu seu computador pessoal e divulgou trinta e seis fotos íntimas de Carolina na internet.

Segundo a juíza de direito da 3ª Vara Cível do Fórum de Esteio, Jocelaine Teixeira, outras leis já defendiam a privacidade da sociedade em geral, não somente dos usuários de redes sociais. “O caso da Carolina Dieckmann mostrou que, com o aumento da modernidade e da quantidade de usuários de internet, esse tipo de episódio vai acontecer cada vez mais”, ressalta.

Nem poucos nem bons

Pode parecer um tipo de crime incomum, mas a pornografia de vingança tem sido cada vez mais corriqueira no mundo virtual. Só em 2014, o site SaferNet, especializado no recebimento de denúncias de crimes realizados via web, recebeu 224 denúncias de revenge porn via chat e e-mail. O número é quatro vezes maior que em 2012, quando foram registrados 48 casos. Segundo o site, esta é a principal violação para a qual os internautas brasileiros pedem ajuda.

Em entrevista para o site UOL, a coordenadora psicossocial da SaferNet, Juliana Cunha, afirma que os casos continuam crescendo por conta da sensação de impunidade, já que a lentidão ainda impera na hora de punir o responsável pelo vazamento. Ela explica que, ao receber uma denúncia, a central da SaferNet envia os dados para o Ministério Público Estadual e Federal e para a Polícia Federal que fazem a investigação.

O SaferNet está no ar desde 2008 e já recebeu mais de 3 milhões de denúncias anônimas sobre diversos crimes cometidos via internet. Deste número, foram atendidos 9.577 casos, sendo 914 envolvendo crianças e adolescentes.

Manda nudes

Com o aumento do uso de internet no país, cresce, também, a quantidade de crianças e adolescentes nas redes sociais. Em entrevista para o UOL, Juliana conta ainda que o crescimento no número de casos de superexposição de crianças e adolescentes na internet é motivado, também, pelas primeiras experiências sexuais dos jovens. “Os adolescentes de hoje namoram pela internet, usam a webcam e as novas tecnologias para trocar mensagens e fotos. De cada quatro casos de meninas expostas intimamente na internet, uma é menor de idade”, afirma ela.

Em maio desse ano um grupo de jovens de Encantado viu suas vidas virarem um verdadeiro inferno quando fotos íntimas foram parar em um grupo de conversas no aplicativo WhatsApp. Algumas, inclusive, tiveram suas imagens publicadas em um dos principais jornais da região, sendo duramente criticadas por um dos proprietários do veículo em sua página no Facebook.

Na crítica, o fotógrafo e proprietário do jornal Antena, Juremir Versetti, diz que as meninas “não se valorizaram”. “Alguém disse que precisariam de um acompanhamento psicológico. Tem remédio, sim. Uma boa cinta de couro de búfalo com uma fivela de metal fundido, isso ajudaria e muito no psicológico delas”, afirmou Juremir em sua página no Facebook. A mensagem teve quase 700 curtidas e centenas de comentários em apoio ao fotógrafo, e alguns poucos criticando ou xingando.

No grupo, intitulado “Ousadia e Putaria”, cerca de cem garotos da região do Vale do Taquari compartilhavam as imagens e vídeos. De acordo com relatos, algumas das meninas que tiveram suas fotos expostas eram menores de idade.

“Tentei cortar os pulsos até com a lâmina do apontador”

Yasmin Santos, moradora de Esteio, tinha 15 anos quando viu sua intimidade ir por água abaixo. A ausência do pai fez com a menina procurasse carinho e atenção em outros homens. Yasmin acabou conhecendo Diego e entre eles cresceu uma amizade e intimidade. Os assuntos eram diversos, dentre eles sexo. Durante conversas via webcam, Yasmin e Diego, frequentemente, ficavam ambos nus.

Quando Yasmin conheceu outro rapaz e começou a namorar, Diego começou a mostrar uma violência e um ciúme que ela desconhecia. “Ele começou a me ameaçar. Várias vezes ele foi na saída da escola tentar bater em mim ou no meu namorado. Até o dia em que eles brigaram e o Diego apanhou”, diz ela.

Yasmin conta que recebeu mensagens de Diego dizendo que aconteceria algo muito ruim com ela para que ela aprendesse que era do lado dele seu lugar. Quando Yasmin se conectou ao Facebook, haviam centenas de mensagens falando que havia uma foto de seus seios postada no perfil de um amigo de Diego.

Yasmin relata que, após o ocorrido, foi até a Defensoria Pública descobrir como deveria agir em caso de processo contra o rapaz. “Isso aconteceu em 2013, quando eu ainda era menor de idade. O Diego já era ‘de maior’ e pediu pro tal amigo postar a foto pois o cara era ‘de menor’. Se fosse para processar alguém, seria o amigo dele, e não aconteceria nada”, explica ela. Na época, a família decidiu não prosseguir com o processo pois não tinha condições de contratar um advogado.

Quando o caso estourou, Yasmin perdeu todas suas amigas e emprego. Colegas de escola de afastaram completamente. Todas a julgavam e as tentativas de suicídio começaram a ficar cada vez mais frequentes. “Comecei a cortar os pulsos com qualquer lâmina que eu encontrasse, até com a do apontador escolar”, afirma.

Logo após o acontecido, a menina conta que fez consultas uma psicóloga durante seis meses, trocou o turno da escola e teve que fazer novos amigos. Segundo Yasmin, o rapaz já fez isso com muitas outras meninas. “Ele já fez isso várias vezes e vai continuar até que alguém faça-o parar”, disse ela.

O trauma

A psicóloga que auxiliou Yasmin durante o tratamento, Andreia Bárbara, explica que o trauma causado por exposições desse tipo é extremamente grande, o que leva muitas meninas vítimas da pornografia de vingança ao suicídio. “O motivo da morte destas meninas é compreensível. Se para uma mulher já é muito dolorido, imagina para uma menina que recém está ingressando na vida adulta”, conta.

Andreia fala, ainda, sobre o perfil de ex-companheiros que cometem o revenge porn. Segundo ela, a vingança não deveria ser considerada algo comum e a pessoa que tem a capacidade de expor a outra desta forma necessita de acompanhamento psicológico. “A pessoa que tem a necessidade de se vingar, normalmente tem transtorno de personalidade. É um indivíduo que não sabe lidar com o ‘não’, com a frustração, com a rejeição de terceiros e tem uma estrutura emocional muito frágil. Ela vê na vingança uma forma de obter prazer, através da punição ao outro”, explica a psicóloga.

“Minha mãe começou a me tratar como lixo; meu pai esqueceu que eu existia”

A soma de conversas eróticas de webcam e confiança em pessoas erradas também jogaram a intimidade de Raquel Martins* na lama. Em 2013, ela tinha apenas 12 anos e teve que suportar a dor de ver suas fotos nua rolando em grupos de WhatsApp. Embora as imagens tenham sido feitas há dois anos, a menina conta que até hoje as pessoas ainda comentam bastante. Inacreditavelmente, o rapaz que vazou as fotos de Raquel é o mesmo que cometeu o crime contra Yasmin.

“Eu era tão ‘cabeça fraca’, ia nas conversas dos outros. Ele era muito meu amigo, nunca chegamos a ter nada além de amizade. Achei que poderia confiar, pois estávamos sempre juntos, saíamos, conversávamos bastante”, conta ela. As imagens de Raquel nua nunca foram parar em redes sociais, embora ela tenha recebido várias ameaças.

A menina sempre fez o possível e o impossível para esconder a situação dos pais. A história estourou quando um parente de Raquel mandou as fotos para a mãe dela por e-mail. Raquel conta que a relação com a mãe era muito distante e, mesmo assim, sua reação foi das piores. “Ela avançou sobre mim, tentou me bater, mas meu pai impediu. Ela não me bateu, mas nem precisou. A forma como ela e meu pai passaram a me tratar doeu mais do que a pior das surras. Os dois me tratavam como lixo. Era só ‘oi’ e ‘tchau’. Meu pai disse que eu não merecia o sobrenome que tinha. Ele esqueceu que eu existia”. Quanto ao rapaz que enviou as fotos para sua mãe, Raquel conta que nunca mais o viu. “Ele é dono de todo o meu nojo”.

Raquel nunca chegou a fazer boletim de ocorrência ou ir a psicólogos. Ela conta que conversava muito com amigos, o que amenizou a dor da pornografia de vingança. “Eu sei que ele fez isso comigo para ‘se achar’, para que os outros vissem que ele era ‘bonzão’. Até hoje sou conhecida como a vagabunda da escola. Só o tempo para curar essa história”, afirma ela.

“Os pais acham que não precisam ensinar mais nada aos filhos”

Marisa da Costa é orientadora pedagógica de uma das escolas de Esteio com maior número de meninas vítimas de revenge porn. Segundo ela, o início do amadurecimento dos alunos e alunas e a necessidade da autoafirmação são os fatores responsáveis por fotos íntimas de menores de idade irem parar na internet. “Eles estão saindo da adolescência e indo para a fase adulta. Sentem a necessidade de que os outros olhem para eles e os admirem. As meninas acham que precisam ser vistas como ‘gostosas’ e os meninos acham que devem ser os ‘melhores’. É normal. O problema é quando isso se mistura. Os garotos recebem essas fotos de meninas que se acham lindas e distribuem para massagear o seu ego”, sinaliza.

Marisa conta que quando estes casos ocorrem entre os alunos da escola, a direção procura conversar e orientar os pais e os próprios estudantes. “Quando os burburinhos começam a gente já fica atento. Chamamos os envolvidos para explicarem a situação e ligamos para os pais. É um tipo de caso muito delicado, por isso, quando necessário, encaminhamos para psicólogos”, explica ela.

A orientadora ainda afirma que, há alguns meses, ela e demais membros da direção da escola passaram por um curso realizado pela SaferNet sobre segurança na web. “Durante a palestra descobrimos um pouco mais sobre a visão dos pais para a tecnologia. Muitos deles acham que já que os filhos sabem tanto, eles não precisam ensinar mais nada. Independente do avanço das tecnologias, ainda cabe aos pais ensinarem valores morais e éticos aos seus filhos”, conta Marisa.

Denunciar? Nem pensar…

Poucos casos chegam ao conhecimento da mídia, mas a quantidade de mulheres e meninas vítimas da pornografia de vingança é enorme. Segundo a advogada especialista em direito digital e idealizadora do Movimento Família Mais Segura na Internet, Patrícia Peck, apesar do aumento no número de denúncias, os casos de revenge porn ainda são pouco notificados. “Apesar do aumento da denúncia, ela representa menos de 20% dos episódios. Em 80% dos casos, as pessoas têm vergonha do que aconteceu”, afirma.

Patrícia alerta que, ao ser vítima de vazamento de fotos íntimas, a pessoa relembrará o caso por muito tempo. “Antigamente, mudava de escola, de cidade. Hoje em dia não adianta mudar de escola, de cidade, aquele conteúdo vai atrás da família aonde ela for”.

E agora? Como eu denuncio?

As denúncias de violações íntimas via internet podem ser feitas pelo Disque Direitos Humanos (Disque 100) e pelo aplicativo Proteja Brasil, disponível em tablets e smartphones, que mostra onde encontrar serviços de proteção integral dos direitos das crianças e adolescentes.

Se for necessário fazer um boletim de ocorrência, é preciso ter em mãos todas as provas possíveis contra o agressor. Nome completo, telefone, endereço e imagens. Tudo conta a favor de quem sofreu essa violação de intimidade.

É sempre bom alertar: cuidado com fotos e vídeos que você compartilha. Os limites entre público e privado estão cada vez menores, portanto seja prudente com o uso das redes sociais para este tipo de fim.

*nome fictício

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