Briga de marido e mulher: relatos de relacionamentos não exemplares

O que ninguém vê ou ouve por trás das quatros paredes

(Ilustração: Wikihow)

Experimente fazer uma busca no Google com o termo “inconformado com o fim do namoro”. Deixe que o próprio Google te mostre a triste realidade de mulheres assassinadas, sequestradas e agredidas pelos ex-parceiros. É assustador.

Todo mundo já ouviu falar de relacionamentos abusivos. O primeiro cenário que vem à mente quando se trata desse assunto é do relacionamento fisicamente agressivo, certo? A palavra “abuso” remete muito ao contexto do abuso sexual ou de agressão, mas existem mais variações de abusividade dentro de um relacionamento.

Camila* tem 18 anos e é moradora de São Leopoldo. Seu primeiro relacionamento abusivo começou com agressões verbais, torturas psicológicas, até que, em seu segundo namoro, a violência se intensificou . Desde cedo, a jovem já precisou aprender a ser mais forte do que o normal. Ela teve três relacionamentos, destes, dois foram abusivos.

“Quando eu tinha 16 anos, era meu segundo namoro. Eu nem sei porque eu me apaixonei por ele. Eu caí de cabeça. A gente só se dá conta de um relacionamento abusivo depois de muito tempo. Esse cara me humilhava constantemente, pela minha aparência e tal. ‘Tu seria tão mais bonita se emagrecesse…’, e isso acaba mexendo tanto com a tua auto estima que faz com que tu precise daquela pessoa. Ele me traía, pedia perdão e eu tava lá de novo. Me fazia achar que sem ele eu não ia sobreviver. A família dele era muito machista. O pai dele bateu na mãe e ele achou que ela merecia. Faz anos que não falo com ele. Terminar foi libertador“.
Meu segundo relacionamento abusivo foi com uma pessoa que, de início, era maravilhosa. Ele cuidava de mim em todos os aspectos. E acho que essa é a pior parte. Quando tu não espera que a pessoa possa te fazer um mal tão grande. Namoramos por um ano e moramos juntos por quatro meses. Eu havia sido expulsa de casa e ele também. Então juntamos nossas coisas e alugamos uma casa. Ele começou não me deixando falar com ninguém. Não me deixava sair. Tive que aguentar muitas ofensas. Um dia saí com minhas amigas, e ele foi muito agressivocomigo, tentei terminar e não deixou. E com isso, tudo foi piorando. Terminei com ele, pois ele me espancou“.
https://youtu.be/PbGfYes-XJg (Depoimento de Camila* sobre o último relacionamento abusivo)

Após o espancamento, Camila decidiu não denunciar. “Foi muito difícil. Fiquei com a cara toda roxa, mas ainda assim voltei com ele. Eu pensava que ele havia feito aquilo porque estava bêbado. Mas depois daquilo ele começou a me perseguir, dizia que queria me ver morta, ameaçou expor minhas fotos íntimas. Tudo acabou quando o melhor amigo dele decidiu ligar para a polícia. Então eu decidi denunciar — inclusive tenho uma audiência mês que vem. Precisei pedir medida protetiva”.

“Ele me drogou para que eu abortasse”

(Ilustração: Wikihow)

Pâmela Nunes tem 23 anos, é moradora de Esteio, e também teve dois relacionamentos abusivos seguidos. O primeiro aos 16 anos, com um rapaz de 24, e o segundo quando tinha 17, e ele 20.

“Eu conheci o primeiro na internet. Marcamos de sair e, em um mês, estávamos namorando. Meu pai sempre me proibiu de namorar — mais um abuso — então eu fazia tudo escondida. Ele descobriu, me tirou do curso técnico e me proibiu de sair. Eu via ele uma vez por semana só, onde era constantemente pressionada a transar, e tudo era motivo de briga.
Eu, que já havia sofrido estupro na infância, de alguma forma fui meio acostumada a ‘mendigar’ atenção. Como era constantemente rejeitada pelas pessoas, principalmente homens, quando tinha atenção, eu achava que aquilo era especial e não deveria perder isso. Logo, me acostumei com o fato de que, se eu era maltratada, era porque merecia. Apesar de tudo, via algo de errado ali. Mesmo assim entrei em depressão. Ficamos todas as férias de verão sem se ver. Quando nos vimos, em março do outro ano, já não estava mais tão afim. Mas não conseguia terminar por medo de ficar sozinha. Nisso, conheci o meu outro namorado, pai da minha filha. Se mostrou diferente. Amoroso, atencioso, querido. Então terminei com antigo e fiquei com ele”.

Sobre o novo namorado, Pâmela conta que, no começo, era tudo ótimo. Mas que, a partir do segundo mês de relacionamento, o rapaz começou a lhe menosprezar. “Ele começou a falar das minhas roupas, depois foi da maquiagem, cabelo, até que eu não tivesse vaidade. Então começaram os ataques. ‘Feia, gorda, ninguém te quer’. ‘Só eu pra te aguentar’. ‘Tu é louca’. E ele me pintando de maluca pra todos. Fomos assim por oito meses e eu engravidei. Daí foi só ladeira abaixo. Ele me humilhava. Me drogou pra eu abortar. Me enganou, me incriminou, me chamou de louca e eu acreditei. Ele tentou me matar. E me deixou sozinha”.

“Não foi nada demais. Ele só estava nervoso, vai estragar a vida dele por isso?”

(Ilustração: Wikihow)

Larissa de Oliveira Jesus. 21 anos. Assistente de Recursos Humanos. Namorou o cara que enganou a melhor amiga durante meses. Tudo aconteceu em dois anos e dois meses, durante 2013. Entre conversas nos extintos serviços virtuais Orkut e MSN, ocorreram infinitas discussões, ofensas e ameaças.

“Ele era namorado da minha amiga e eu não sabia. Quando estava com ela, dizia que eu era louca, e vice-versa. Depois de inúmeras confusões, ele terminou comigo e foi pedir minha amiga em namoro. Ela disse não. Então ele veio atrás de mim, com a mesma aliança que ia dar pra ela, e eu disse sim.
Ele sentia ciúme do meu pai, do meu irmão, do meu melhor amigo e não me deixou ir no enterro de um amigo que morreu em um acidente. ‘Não vai trabalhar, não! E se encontrar alguém melhor? Não vai continuar na academia! Eu sou gordo e você pode achar homens mais bonitos lá. Não vai ingressar na faculdade, eu ainda nem concluí o supletivo’. Ele era aquele tipo de homem que não podia ver a namorada ganhar mais que ele, então começou a me proibir de fazer tudo. Até esse ponto, eu já havia engordado, pois não frequentava mais a academia, por sua ordem. ‘Você tá gorda. Ninguém vai te querer’. Então eu continuava com a única e última pessoa na face da Terra que aceitava ficar com a gorda”.

O namoro de Larissa foi de muitas idas e vindas. O rapaz até fez com que ela ajoelhasse e implorassepela reconciliação. As torturas psicológicas eram frequentes. Até que chegou a gota d’água: a agressão física.

“Uma vez a gente foi pra praia com a família dele. Numa das tardes, eu dormi e assim que todos saíram, ele subiu em mim. Eu acordei sem roupa e ele gemia, deu uma risada quando percebeu que eu acordei. ‘Tá gostando, né?’. A família dele chegou e viu o que acontecia no momento, mas não viram tudo o que tinha acontecido. Não viam como eu estava por dentro… Foi tudo muito rápido e nem tive tempo de pedir pra ele me soltar. Eu acordei, eles chegaram e, em segundos, eu me tornei uma vagabunda.
A mãe dele me chamou pra conversar e eu contei o que havia acontecido. Ela chorou e eu não entendi. ‘Ele é como o pai!’, ela dizia, em prantos. Ele ouviu e me bateu na frente de todos. A família não permitiu que eu fizesse o B.O. por agressão. ‘Não foi nada demais. Ele só estava nervoso, vai estragar a vida dele por isso?’. Eu morri ali. A minha vontade de viver, a minha alegria, minha autoestima também morreram”.

Do outro lado também acontece

(Ilustração: Wikihow)

Embora relatos de casos abusivos realizados por mulheres sejam mais raros é importante salientar que eles também ocorrem. Mateus* passou um ano e três meses com uma menina que lhe privava de toda e qualquer liberdade. O rapaz conta que, como foi ele quem teve maior interesse no início do relacionamento, acabou deixando que a ex-namorada tivesse total controle da situação.

“Durante o ano de 2015 fui me afastando de amizades que construí ao longo da vida toda pelo simples fato de ela não gostar de alguns hábitos deles — mesma coisa vale para familiares julgados precocemente por ela. Amizades femininas então, nem sei se preciso comentar. O abuso chegou ao ponto de ela pedir a senha do meu Facebook e, sem autorização, excluir todas as gurias que ela conseguiu — no total foram mais de 400.
Eu tinha que viver pra ela e apenas pra ela. Ao passar a pior semana da minha vida com ela, com brigas todos os dias, terminei o namoro. Só vi o quão abusivo foi aquilo quando não me vi mal com o término, quando me senti aliviado. Mas principalmente quando fui correr atrás do prejuízo e tive que remontar todas minhas amizades novamente. Quem viu de fora é quem sabe, porque eu nem notava, ela usou direitinho o fato de eu estar apaixonado”.

Pausa para a ficção: não era amor, era cilada

O filme Esquadrão Suicida estreou em agosto e desde antes de o longa começar a ser produzido, já haviam discussões sobre o relacionamento da Harley Quinn (interpretada pela atriz Margot Robbie) com Coringa (Jared Leto). Muitas pessoas romantizaram a relação como um exemplo perfeito de amor no meio nerd. Mesmo após o lançamento do filme, fãs ainda insistem que, apesar de complicado, é um relacionamento em que os dois personagens se amam independente de qualquer coisa — ainda que em Batman: Harley Quinn, de 1999, o Coringa já tivesse tentado matar a personagem porque ele está começando a ter “sentimentos” por ela. Harley Quinn consegue escapar, fica furiosa, diz que ele nunca se importou com ela de verdade, e está a ponto de atacá-lo. Então, ele pede desculpas e ela aceita. O Coringa é manipulador, e sabe que no fim do dia, não importa o que ele faça, se ele precisar dela, a Arlequina vai voltar. Ele sabe exatamente como manipular os sentimentos e as ações dela.

Estatísticas não mentem

(Ilustração: Wikihow)

Casos de violência contra a mulher após o término de relacionamentos não são raros na grande mídia e no cotidiano da maioria das pessoas. Em 2013, o Instituto Avon, em parceria com o Datafolha, promoveu uma pesquisa intitulada “Percepção dos homens sobre a violência doméstica contra a mulher” como parte da campanha “Fale sem medo — não à violência contra a mulher”. A maioria dos entrevistados eram homens, casados, com idade entre 25 e 59 anos e pertencentes à classe média. A pesquisa mostrou que a visão dos homens sobre os papéis destinados a eles e as mulheres na sociedade ainda é conservadora, o que dificulta a percepção da violência dentro dos relacionamentos. De acordo com o levantamento, 41% dos brasileiros conhecem um homem que já foi violento com a parceira, no entanto, apenas 16% admitem já terem sido violentos com a companheira (atual ou ex).

Esse número aumenta quando, ao serem apresentados a uma lista de atitudes violentas, 56% dos homens admitem já terem cometido uma dessas agressões contra a parceira e, a maioria, mais de uma vez. Algumas das ações citadas são: xingar (53%), empurrar (19%), ameaçar com palavras (9%), impedir de sair de casa (7%), humilhar (5%) e obrigar a fazer sexo (2%).

Raquel Silva Barretto é psicóloga graduada na Universidade Federal Fluminense e mestranda em Saúde Pública pela ENSP/Fiocruz, na sub-área Violência e Saúde. Ela é colaboradora voluntária no siteLivre de Abuso e em entrevista ao Repórter Unesp (Universidade Estadual Paulista) falou sobre as principais características de um relacionamento abusivo.

Segundo ela, relação abusiva é aquela onde predomina o excesso de poder sobre o outro. É o “desejo” de controlar o parceiro, de “tê-lo para si”. Esse comportamento, geralmente, inicia de modo sutil e aos poucos ultrapassa os limites causando sofrimento e mal estar.

“Sabe-se que, no Brasil, mulheres jovens são as maiores vítimas de relacionamentos abusivos. Na Pesquisa DataSenado 2013, 30% das mulheres disseram não confiar nas leis e nas medidas formuladas para protegê-las da violência. Somado a tudo isso, a nossa sociedade persiste na cultura da culpabilização das vítimas. Percebemos ao longo dos atendimentos que as pessoas nos procuram (99% do sexo feminino) relatando um extremo cansaço e desgaste na relação, porém, aindaquestionam se esse abuso teria sido por culpa delas ou se o parceiro de fato é assim. As vítimas, principalmente da violência física e abuso sexual, quando relatam a possibilidade de denunciar o parceiro, sentem medo diante de um processo que ainda é juridicamente longo. Portanto, a dificuldade em sair de um relacionamento abusivo pode passar por questões econômicas, emocionais e afetivas, legais e burocráticas”.

Então? O que fazer?

1. Ame-se. O amor próprio é a coisa mais maravilhosa que pode acontecer na sua vida. Quando você se ama, não permite que ninguém te trate mal, que grite com você, que te bata, que lhe faça nada de mal. Faça o que te fizer feliz.

2. Tenha a sua vida e cuide dela com carinho. Amar-se é um processo e ele pode ser demorado, mas existem outras coisas que podem ser feitas enquanto isso. Procure ter uma base de apoio. Isso é, tenha amigos para conversar, saia com eles, mantenha sua família por perto, procure criar e manter vínculos que vão além do seu namoro. No começo é difícil,mas você precisa ter a sua vida independente da vida de seu(sua) cônjuge — e se ele(ela) não valoriza isso, é porque não valoriza você.

3. Faça terapia. Ter alguém para conversar, que não tenha laços afetivos com você, pode te ajudar de várias maneiras. Aos poucos, isso vai te fortalecendo, e fazendo você perceber o seu valor. Conversar com um psicólogo é muito diferente de conversar com seus amigos ou com a sua mãe: é uma forma de cuidado. Você também pode procurar grupos de apoio como o MADA (Mulheres que Amam Demais Anônimas).

4. Por último, não deixe ninguém te diminuir. Cada pessoa é única, todos nós somos feitos de qualidades e defeitos. Então, saiba que você também é assim. Autoconhecimento é a ferramenta mais poderosa que você pode possuir. Para saber mais e dar algumas risadas, veja o vídeo da Jout Jout, “Não tira o batom vermelho“.

E nunca, em momento algum, hesite em chamar a Polícia: disque 180.

*Os nomes foram trocados a pedido das fontes.