O que aprendi sobre o Brasil sendo brasileiro

Exerço aqui meu direito de brasileiro, nascido e criado em terras de Macunaíma, de poder falar minha cota de generalismos. Aqueles que vierem cobrar coerência e profundidade, primeiramente exerça isso em seus comentários do Facebook.


Se fôssemos realmente tão cordiais, simpáticos e receptivos, não teríamos contextos sociais tão marcados pela violência. Brasileiro é engraçadinho e criativo, mas também violento, machista, racista, discriminador, oportunista e gosta de tirar vantagem.

O bom brasileiro é aquele que sorri dando dentadas e abraça enfiando a faca nas costas.

A “simpatia” do brasileiro só não é maior que sua hipocrisia.

O verdadeiro amor nacional não é ao futebol, mas à lógica de dominação. Um brasileiro médio é capaz de dar a vida para garantir o “direito” de matar, explorar e exercer violência — física e simbólica — sobre os demais.

Sim, o brasileiro médio — que na maioria das vezes sou eu e você , seu pai e sua mãe, vovô e vovó— é violento, adora todo o processo social do medo. Se não gostasse, reagiria a isso. Mas não, executa preto, amarra num poste e registra no celular para guardar de recordação. Está com pena? Leva pra casa.

A principal fonte de lucro nacional é o medo. Ele está institucionalizado em todas as instâncias: da família à religião.

Sair com camisa vermelha é correr risco de vida. Tourada humana, novo evento cultural do país.


O brasileiro médio é personalista, mimado e cheio de vontades. Faz birra, se algo não for do jeito que ele quer. E, se alguém fizer contra ele qualquer crítica ou avaliação negativa, torna-se inimigo mortal.

O problema é que esse traço personalista não se restringe à vida privada. A política é marcada pelo Eu. Os políticos e gestores querem, a todo custo, um protagonismo que não pode ser conjugado em primeira pessoa do singular, mas na primeira do plural: nós.

Esse rosnado personalista apresenta-se no apelo antidemocrático de muitos dos que vão às ruas. Eles querem direitos: seus direitos. Os outros que se lasquem. Odeiam a democracia e querem destruí-la a qualquer custo, melhor ainda se isso envolver a cruel violência das manifestações pacíficas.

Justamente por isso, saem às ruas em bandos, fantasiados de verde e amarelo, defendendo um nacionalismo ufanista que daria orgulho a Hitler, Mussolini e Mao Tsé Tung.

Não gostamos de democracia, mas do autoritarismo. Não queremos justiça, mas castigo. Não o livre pensar, o dogma. Não o conhecimento, a ladainha. A vida como receita de bolo.

Se assim não fosse, não teríamos índices tão vergonhosos, a exemplo das denúncias de violência contra mulher e casos de homofobia — só para ser sucinto. E não adianta culpar nenhum governo. Aliás, a estrutura política só se mantém pela legitimação dada pelo povo. Ou acha que Bolsonaro, Eduardo Cunha e etc ganharam um cargo político por rifa?

As pessoas que saem às ruas de verde e amarelo dizendo que vivem numa ditadura são as mesmas que pregam a intervenção militar, fazem listas de boicote e comemoram quando hackers tiram sites e páginas do Facebook do ar. Pra elas, isso é democracia.

A atual proposta de faxina geral na política, que significa tirar o PT do poder, é lavar pratos com água de fossa. Dizer-se contra a corrupção de um partido e fechar os olhos para os demais é enxugar pratos com pano de chão.

A preocupação contra a corrupção é tão grande que escolhemos corruptos com experiência para julgar. Afinal, ninguém melhor que um bandido pra descobrir outro.

Em suas atuações, a direita é patética; a esquerda, risível. Eterna briga entre Mises e Marx, que descansam em paz, graças à democracia da morte.


O Brasil é o país mais europeu das Américas. Com legítimos representantes ainda com vida dos povos dos séculos XVI e XVII.

A galera bege, que se autodeclara branca, nunca responde pelos próprios atos.

Falar inglês é a última moda. Mas não é preciso interpretar textos na língua nativa.

O analfabetismo funcional é um grave problema no Brasil. O brasileiro médio não consegue entender o que lê, mesmo que tenha pós-graduação.

A elite brasileira sempre adorou livros. De capa dura, letras douradas e, obrigatoriamente, fechados. Livro é objeto de decoração. Ler? Nem a Bíblia.

Lemos 50 Tons de Cinza, mas só enxergamos duas cores, nada além disso. O mesmo vale pare bem e mal, certo e errado, herói e bandido, coisa de homem e coisinha de mulher. Brasileiro é binário e ignora a sociedade complexa e ambivalente em que vive.

Por aqui, rico gosta tanto de pobre que quer que continuem bem pobres.

Pobreza dá tema de livro, teses de doutorado em sociologia e, principalmente, manchete nos jornais. A pobreza é negócio rentável por aqui.

Luxo no Brasil é saber identificar ironia.


No Brasil, cristão é contra caridade. “Não dê o peixe, ensine a pescar”, diriam a Jesus na partilha dos pães e peixes. O que eles não dizem é que a represa é privada e que o rio foi destruído pela Vale.

Os mesmos cristãos que odeiam mobilidade social adoram dar esmola. Por dois motivos: sentirem-se heróis e se certificarem de que os pobres continuarão nos seus devidos lugares.

Por falar em cristãos, eles adoram a imagem de Jesus morto pregado na cruz. E a expõem em todos os lugares como ameaça: fizemos isso com o Messias, adivinhe o que faremos com você…

É um país onde Joelma, ex-Calypso, fala mal dos gays depois de ter ficado rica às custas deles. O mesmo vale para a senhora que fica menos feia por causa do viadinho no salão, vai à igreja e repete com o pastor: — Mate uma bicha por Jesus!

No Brasil, odeia-se em nome de Deus.

O estado é laico, reza até o Pai Nosso.


Por aqui, faz-se justiça infringindo as leis.

Leis que são parnasianas: lindas, com métrica e rimas riquíssimas. Tão ricas que condenam só os pobres.

Como a imprensa julga os casos, o Judiciário tira folga.

Imprensa, aliás, é o nome que dão às agências de publicidade e de assessoria do baronato. São elas quem ditam as tendências do Brasil Império do século XXI.

As “elites” orientam-se por memes e manchetes que ela mesma paga para serem produzidas. As outras classes costumam seguir o fluxo. Todos riem da própria desgraça.


Precisamos de heróis em todos os âmbitos da vida social. O pai é herói, mesmo batendo na mulher. Viram heróis Pelé, Neymar, Sérgio Moro e a Carreta Furacão.

Essa carência heroica é indício da infantilidade nacional. Um brasileiro médio nunca ultrapassa o limite de maturidade de um garoto de 12 anos, isso com boa alimentação.

A História nacional é escrita por Glória Perez e ilustrada por Romero Britto.

Existe um pacto de mediocridade entre os brasileiros. Não seja bom em nada, pois será punido: exibido, arrogante, pretensioso. Seja exibido, arrogante e pretensioso e talvez vire humorista ou colunista da Veja. Seja medíocre e será amado pelo povão.

No Brasil, tudo existe para ser deslegitimado e desvalorizado. Se um pesquisador falar algo que contrarie o senso coletivo da ignorância, é vendido e deve ser calado. Boicote, eles dizem.

A crise nacional é motivada por dois fatores: problemas de interpretação de texto e o amor incondicional à burrice.

Os analfabetos funcionais vão conseguir falar nos comentários mais besteira do que as que estão escritas neste texto. Eles sempre se superam.

Brasileiro é especialista em generalidades. Este texto exemplifica bem isso.


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Obviamente que há brasileiros que contrariam essa regra: dois em cada mil, segundo o IBGE. O Datafolha contraria esses números: segundo eles, são oito entre cada 10 ricos. Não entraram na pesquisa as pessoas abaixo da classe B.

No Brasil, tudo é histórico e histérico, nada é História.

O pior do Brasil também é o brasileiro.

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