A agulha no palheiro

Elliott Smith teria feito, a uma semana, 47 anos. O cantor e compositor foi um dos principais nomes no cenário independente dos anos 90, tendo lançado 4 álbuns na década. Em Outubro de 2003, Elliott foi encontrado morto em seu quarto de hotel, após ter, aparentemente, se esfaqueado no peito duas vezes. Tinha 34 anos.
Meu primeiro contato com o trabalho do cantor foi em 2013, quando assistia ao incrível Os Excêntricos Tenenbauns. A canção Needle in the Hay pontuava a cena mais marcante do filme, onde um dos personagens principais, incapaz de lidar com os próprios sentimentos de amor pela meia-irmã, tenta cometer suicídio ao cortar os pulsos. Um momento carregado de melancolia, e a iluminação azul e chapada de Anderson sugere que o personagem atingiu o fundo do poço. Bem como Elliott.
A narrativa de Smith se assemelha àquela de artistas como Kurt Cobain e Ian Curtis: o artista torturado e gênio incompreendido que se vai muito mais cedo do que deveria, nos deixando uma série de álbuns e canções que, por gerações, serão ouvidos e seguidos de comentários como “estava tudo aqui”, e “como não perceberam isso antes?”. Sim, Elliott se fato se encaixa nessa categoria, mas o aspecto que mais o coloca nos mesmos degraus (ou até em degraus acima) dos artistas mencionados é a necessidade de autoflagelo, e como o cantor transformava suas frustrações ardentes em músicas que, acima de tudo, castigavam-no à um ponto quase sádico.
O vício em heroína e o alcoolismo o levaram à um ponto de colapso, e a música era seu jeito de escapar desse poço onde havia se encolhido. Armado apenas com um violão e sua voz quieta e acanhada, Elliott era como um cão machucado que se aproxima de alguém timidamente, na esperança de encontrar carinho no ser alheio.
Nunca o alcoolismo foi tratado de maneira tão direta e aterrorizante quanto na canção Between the Bars, um verdadeiro grito de socorro do cantor; e poucos artistas encararam seus traumas de maneira tão corajosa quanto Elliott o fez na canção Waltz 2, onde revisita sua infância na casa de sua mãe e seu padrasto abusivo. Elliott elaborava suas canções de maneira a fazer com que cada uma de suas estrofes se apoiassem na anterior para criar um efeito máximo, tudo obviamente sustentado pela bela habilidade do cantor em escrever canções. “Ela parece composta/ então ela está, eu suponho”, ele canta sobre sua mãe em um momento de Waltz 2, apenas para retornar no final da música dizendo “eu nunca vou te conhecer agora/ mas eu te amarei de qualquer jeito”.
Isso fez Smith se destacar dentre tantos outros compositores da época, e sua influência é ouvida até hoje. Um mundo sem álbuns como Either/Or ou Xo é um mundo sem álbuns como I’m Wide Awake It’s Morning, do Bright Eyes, ou Carrie & Lowell, de Sufjan Stevens. Ninguém, porém, conseguiu atingir o nível de Smith.
Pois, apesar de tudo, o legado do autor está imortalizado pela sua precoce morte. Suicídio ou não, a questão é que as facadas que o levaram ao final de sua vida não se comparam às suas letras e suas canções, já que essas sim o acertavam profunda e dolorosamente.