Padres casados pedem o fim do celibato para ‘salvar’ a Igreja Católica

Eles recusam o título de ‘ex-padres’ e reivindicam o livre exercício do sacerdócio. Papa Francisco promete incluir o debate na agenda do Vaticano

Reportagem: Daniel Giovanaz


Crescei e multiplicai-vos”, disse Deus a Adão e Eva, os primeiros habitantes do Universo, de acordo com a narrativa do Antigo Testamento. O 28º versículo do capítulo inicial do livro de Gênesis é uma das frases mais citadas pelos setores conservadores do Vaticano para condenar o aborto e a utilização de métodos contraceptivos. Quando o assunto é o voto de castidade, porém, os mesmos cardeais ignoram a ordem divina e defendem o celibato obrigatório para os padres católicos. Nenhuma passagem bíblica proíbe o casamento e as práticas sexuais entre cristãos leigos ou religiosos; pelo contrário, as cartas do apóstolo São Paulo a Timóteo de Éfeso (17 d.C. — 80 d. C.) recomendam que os sacerdotes tenham esposa e filhos e que não deem ouvidos às doutrinas “demoníacas” que proíbem o casamento.

“Não existe ex-padre, e a própria Igreja sabe disso. Um sacramento não pode ser anulado”, defende Júlio Wiggers, neto de imigrantes alemães que precisou se afastar de sua paróquia em Morro da Fumaça-SC em 1968 para viver ao lado de Laureci Pereira, com quem teve três filhas. Eles estão juntos há 47 anos, e o padre reivindica desde então o direito de exercer as mesmas funções que desempenhava antes de oficializar sua união civil. “Nós, padres casados, somos uma classe marginalizada. Só o que queremos é o direito de ter uma família e escolher nosso meio de vida, mas a questão patrimonial ainda é muito forte na Igreja, e por isso não há uma revisão do tema do celibato”, argumenta, enquanto mostra dois porta-retratos com as fotos da família na sala de jantar.

Júlio e Laureci têm três filhas e quatro netos. O casal vive no bairro Coqueiros, na região continental de Florianópolis

A Igreja Católica estima que existam pelo menos 150 mil padres casados “egressos”, dos quais 7 mil vivem em território brasileiro — a escassez de sacerdotes está na lista de desafios da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para o século XXI. Júlio Wiggers relata que se colocou à disposição para “unir o útil ao agradável” e minimizar essa carência na região Norte do país, mas foi ignorado por um bispo amazonense. “Eles tinham só oito padres para dar conta de centenas de paróquias na Amazônia, mas mesmo assim não fui chamado. A Igreja não entende que eu não deixei de ter aquela vocação. Inclusive, dei muita extrema unção depois de me casar. Uma das vezes foi lá em São Paulo, no Minhocão, quando morreram dois homens num acidente de carro. Quem estava em volta achou aquilo tudo sublime”, relembra, com os olhos marejados. “Minha ideia é propor ao papa Francisco que a gente possa inicialmente ouvir a confissão e ministrar os santos óleos da extrema unção, porque são dois sacramentos que não têm registro, não têm burocracia. Seria um começo”, sugere.

Segundo o arcebispo José Cardoso Sobrinho, que publicou em 2004 o livro Perguntas e Respostas sobre o Celibato Sacerdotal, a proibição das práticas sexuais após a ordenação não tem a ver com a indefinição sobre a herança dos eclesiásticos, pois há uma separação clara entre o que é patrimônio do padre e o que é da Igreja: “O padre diocesano, portanto, tem direito de fazer testamento e dispor livremente sobre quais serão os herdeiros dos seus bens temporais”, esclarece o autor em um fragmento da obra. Os herdeiros, nesse caso, poderiam ser sobrinhos, primos ou irmãos, por exemplo. A justificativa para a castidade, de acordo com o arcebispo, é a necessidade de se resistir às “tentações da carne” como forma de aproximação aos propósitos de Jesus Cristo. Júlio Wiggers considera a explicação frágil, e acrescenta que o celibato é uma preocupação desnecessária no cotidiano dos religiosos: “Nós temos que pregar o Evangelho, a bondade, a salvação para as pessoas, e pronto! Não tem por que se preocupar com outras coisas”.

Professor aposentado de Língua Portuguesa, o tocantinense Joarez Virgolino Aires também abdicou da batina para se casar e jamais pretendeu renunciar às atividades ministeriais. “Meu afeto reclamou uma complementação humana. Eu queria somar, não subtrair”, lamenta aos 80 anos. O padre comunicou ao bispo de sua diocese no Rio de Janeiro que desejava se unir com a pedagoga gaúcha Ausília Morés, catequista na mesma paróquia, em 1973: “Ela me deixou confuso — um sacerdote indiano certa vez usou esse adjetivo para definir meu sentimento, e eu nunca encontrei uma palavra mais precisa”. Joarez e Ausília vivem em um apartamento na região central de Curitiba, têm dois filhos e três netos e planejam uma viagem pela Estrada de Ferro do Carajás, no Pará, para comemorar os 40 anos de casamento. A pedagoga não se incomoda com a alcunha de “mulher do padre” e assegura que a união civil jamais afastou o casal da fé ou dos princípios do catolicismo: “É só ver o nome dos meninos: Davi e Daniel, um rei e um profeta. bom ou quer mais?”, brinca. “E agora os dois já têm mais de 30… o tempo passa para todo mundo”.

Ausília e Joarez estão casados há quatro décadas

Resistência e perseguição

Quando foi informado sobre as pretensões de Joarez Virgolino Aires, o bispo demorou a compreender que aquela não era uma paixão passageira. “A primeira reação dele foi me mandar estudar na Itália. Pediu que eu repensasse meus planos enquanto estivesse por lá”, relembra. Por dois anos e meio, enquanto lidava com a saudade, o padre cursou um mestrado em Antropologia Filosófica na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e voltou ainda mais decidido a se casar com Ausília. O bispo, então, deixou de impor resistência aos planos de Joarez e permitiu que ele renunciasse à batina em 1976.

A saída de Júlio Wiggers da paróquia de Morro da Fumaça foi menos amigável. Assim que ele chegou a Florianópolis com a esposa Laureci, em 1968, o então governador Ivo Silveira chamou-o para avisar que recebera uma carta do bispo da Diocese de Criciúma. “Dom Anselmo Pietrulla pediu que o governador não facilitasse a minha vida por aqui. O governador disse que ficou muito chateado com a situação, porque ele era ‘muito católico’, e aquela carta era uma decepção”, relembra. A perseguição, segundo o padre, era uma tentativa de evitar que sua decisão inspirasse outros sacerdotes. “Eles não queriam que eu desse certo fora da Igreja para não servir de exemplo para outros padres, que poderiam se encorajar. Os outros que tinham saído da Igreja antes de mim não tinham diploma, e eu tinha. Eu era visto como uma ameaça lá, porque poderia ter uma carreira bem sucedida”, analisa. Como Ivo Silveira recusou-se a atender ao pedido de Pietrulla, o padre casado aproveitou a formação acadêmica oferecida pela Igreja Católica para se tornar Secretário de Estado da Educação de Santa Catarina e lecionar por 32 anos no Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

“É necessário, pois, que o sacerdote seja (…) marido
de uma só mulher, tendo filhos crentes que não sejam acusados de dissolução, nem sejam acusados de libertinagem” (1ª epístola do apóstolo São Paulo
a Timóteo, capítulo 1, versículo 6).

A exemplo de Júlio Wiggers, o padre Joarez Virgolino Aires também escolheu ser professor. Após o mestrado, ele viveu 18 anos no Distrito Federal dando aulas de Filosofia na Universidade Católica de Brasília (UCB) e de Língua Portuguesa em colégios de ensino médio. Antropólogo nas horas vagas, Joarez exibe com satisfação um rascunho do livro que pretende lançar “assim que conseguir financiamento”: O Viandante — Saberes e sabores do Tocantins é uma antologia de textos sobre as peculiaridades da cultura e da cosmovisão do norte goiano das décadas de 1940 e 1950, território onde nasceu, e que deu origem a um novo estado da federação em 1989.

‘O Viandante — Saberes e sabores do Tocantins’ reúne textos de Joarez Virgolino Aires sobre diferentes aspectos da cultura do norte goiano, que hoje pertence ao território tocantinense

Os dois padres casados defendem que os eclesiásticos deveriam aproveitar seu tempo livre para exercer outro ofício. “Durante a metade do tempo, os padres não fazem nada. Agendar missa, marcar sepultamento, isso qualquer secretário pode fazer”, enfatiza Júlio Wiggers. O ócio e o celibato constituem o que ele chama de “fórmula da pedofilia”.

Combate à pedofilia

“A pedofilia é quase uma consequência natural do celibato. Os hormônios continuam à flor da pele, e muitas vezes as erupções levam a comportamentos inadequados, porque na linha normal do casamento tudo isso seria canalizado de outra forma, entre adultos”, argumenta Wiggers. “Eu, por exemplo, andava na rua e vinha um monte de crianças atrás de mim, em Criciúma. No fim, a gente acaba se afeiçoando, e aparecem as oportunidades, e tem gente que acaba perdendo completamente a noção das coisas e acaba entrando nessa — muitas vezes, já no internato”, comenta com naturalidade.

Joarez Virgolino Aires considera a hipótese de que os casos de pedofilia poderiam ser reduzidos com a diluição da hierarquia interna da Igreja Católica: “Os seminários se desvirtuaram e se tornaram espaços de poder. Eles estão cheios de homossexuais ‘enrustidos’ [sic], que acabam assumindo poder lá dentro e às vezes exercendo esse poder sobre os seminaristas mais jovens”.

“Alguns duvidarão da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas demoníacas (…) que proíbem o casamento” (1ª epístola do apóstolo São Paulo a Timóteo, capítulo 4, versículos 1 a 5).

Perspectivas de mudança

Júlio Wiggers e Joarez Virgolino Aires participam do Movimento Nacional das Famílias dos Padres Casados (MFPC), que começou a ser gestado na década de 1970 por dezenas de casais reunidos em Salvador-BA — o primeiro casal presidente, Leia e Felisbino Chaves, foi eleito em 1981, em São Paulo. Desde então, o movimento permanece alinhado aos propósitos do Concílio Vaticano II e da Teologia da Libertação, apostando no fortalecimento de um movimento predominantemente leigo para “fazer valer o fundamento bíblico do sacerdócio do Povo de Deus, que é a Igreja”, segundo o manifesto redigido em 1988. Em outras palavras, o MFPC se opõe à ideia de que as lideranças católicas devem ser tratadas como autoridades, com poder de influência em todos os aspectos da vida humana. Eles recusam qualquer tipo de simbologia que distancie ou diferencie os religiosos dos demais cidadãos e defendem que os padres passem a maior parte de seu tempo fora das paróquias, visitando comunidades periféricas, com vulnerabilidade socioeconômica.

Milhares de dioceses brasileiras conheceram as demandas do grupo na década de 1980 através de jornais e boletins impressos editados pelos próprios padres, principalmente na região Nordeste, como o Sinal, de Fortaleza, o Pontapé, de João Pessoa, e o Rumos, de Brasília. Em 1986, os membros do MFPC decidiram criar uma pessoa jurídica que os representasse legalmente, e então fundaram a Associação Rumos, batizada em homenagem ao jornal de maior circulação.

A associação tem 200 membros ativos — cada um paga uma anuidade de R$ 150,00 –, possui um portal de internet atualizado duas vezes ao dia, e promove encontros nacionais a cada dois anos. O padre Gilberto Luiz Gonzaga é o único jornalista que integra o movimento, e há oito anos edita a versão impressa do jornal bimestral Rumos. A publicação é financiada pelos próprios assinantes — além dos 200 sócios, outros 100 pagam uma anuidade de R$ 50,00 apenas para receberem o jornal em suas casas. A esposa de Gilberto, Aglésia Amaro, também participa do MFPC: “Há 34 anos, eu troquei a Iglesia pela Aglésia”, diverte-se o padre. Trocadilhos à parte, o casamento não significou para ele o abandono do sacerdócio: “Eu celebro missa, matrimônio, batizado, sempre que sou chamado por algum cristão, sem problema nenhum. O Código de Direito Canônico diz que essa é a nossa obrigação. Eu uso hóstia consagrada e tudo, mas sempre fora das paredes da Igreja, . Lá dentro a gente não manda mais”, reconhece.

Papa Francisco prometeu incluir o debate sobre o celibato obrigatório na agenda do Vaticano (Imagem livre de direitos autorais — Pixabay.com)

Joarez Virgolino Aires acrescenta que as propostas do MFPC “não são coisas absurdas”: a principal demanda é a efetivação dos princípios do Concílio Vaticano II, o mais recente encontro de arcebispos e cardeais católicos, realizado entre 1962 e 1965. “Somos contra a batina, contra o ouro, contra a ostentação. Na nossa visão teológica, o polonês [João Paulo II] e o alemão [Bento XVI] fizeram um retrocesso, deram a marcha ré, se colocaram acima do próprio concílio. O papa atual, que é o Francisco, está tentando consertar e retomar devagarinho os princípios do Vaticano II”, explica, antes de fazer uma ressalva: “O Bento XVI até sabia da bandalheira que havia no Vaticano, dos padres que levavam mulheres lá dentro, transformavam aquilo num bordel, mas perdeu a credibilidade aos poucos, foi desmoralizado, e por isso acabou renunciando”.

Em maio do ano passado, um grupo de 26 mulheres que mantêm relacionamentos secretos com padres italianos entregaram ao papa Francisco uma carta implorando pelo fim do voto de castidade obrigatório, e o pontífice prometeu inserir o debate na agenda do Vaticano. “Ele sabe que o celibato não é bíblico; dos doze apóstolos, onze eram casados. Era para ser uma medida temporária, para reduzir custos, mas acabou durando até hoje, e aí nós vemos esses escândalos todos, até pedofilia na Igreja, meu Deus!”, suplica o padre jornalista Gilberto Luiz Gonzaga. “O quanto antes for liberado, melhor. Para todos. E o papa Francisco concordou com essa demanda, mas disse que tem coisas mais importantes para resolver antes”.

Risco de extinção

A maioria dos casais que participam das reuniões do MFPC começaram a se mobilizar na década de 1970: não houve renovação. A cada ano, centenas de padres brasileiros renunciam às atividades ministeriais para se casarem, mas Joarez Virgolino Aires admite que as estratégias de diálogo e engajamento da Associação Rumos não foram capazes de transcender os limites da geração dos próprios fundadores. “A maioria de nós está perto dos 70 ou 80 anos. Os mais novos são mais individualistas, estão preocupados só com o seu sustento. E como não tem jeito de fazer eles se mobilizarem, é bem provável que a associação morra de cansaço. Talvez dure mais cinco, talvez seis anos…”, calcula nos dedos, resignado. “Uma pena, ?”.

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Saiba mais sobre a trajetória do padre Júlio Wiggers:

MARUIM — Muitos jovens de comunidades rurais, que não necessariamente querem ser padres, ingressam em seminários para ter a oportunidade de estudar. Foi o seu caso?
J.W. — Sim. Sou natural de Braço do Norte [município da região Sul de Santa Catarina] e venho de uma comunidade do interior chamada São José. Quando cheguei ao seminário, eu já tinha 14 anos. Muitos colegas da escola até mais novos do que eu já tinham ido, e eu tinha ficado trabalhando na roça. Então, durante umas férias, eu decidi ir também, justamente porque não tinha outro meio de continuar os estudos. Em Braço do Norte, nem segundo grau tinha! Só tinha em Tubarão, a 30 quilômetros dali, mas para nós era como se fosse outro mundo, desconhecido. A gente nunca tinha ido lá, nem meu pai, nem minha mãe. Então, eles foram muito solícitos com a ideia de eu ir para o seminário, até porque meu irmão mais velho já estava lá.

MARUIM — O senhor tinha namorada naquela época?
J.W. — Eu era adolescente, mas já frequentava aqueles bailinhos do interior. Os gaiteiros se reuniam todo domingo à tarde, na chamada “domingueira”, e eu ia também em casamentos… mas não tive namorada nessa época, não. Aos 14 anos, no interior, filho de alemão e italiano não namora! O costume mesmo era se dedicar apenas à roça e às atividades familiares.

MARUIM — E, no seminário, era permitido encontrar amigos e amigas nos horários de folga?
J.W. — Estive no pré-seminário em São Ludgero-SC, com outros 150 colegas. Era um ano de nivelamento, uma preliminar para entrar no ginásio. Fiquei dois anos, e depois fui a Brusque-SC, no Seminário Menor de Azambuja. Lá, havia três turmas: os pequenos, os médios e os grandes. As três turmas viviam no mesmo prédio, mas não conversavam entre si — era proibido. Só na Páscoa é que se fazia a chamada fusão, ou seja, tinha uma horinha para a gente conversar. Mesmo que tivesse um irmão do outro lado, não podia conversar entre si no dia a dia.

MARUIM — Como as normas de convivência eram rigorosas, havia muita desistência?
J.W. — Posso dizer que sim. Muitos dos colegas que tinham me convidado para ir acabaram desistindo logo nos primeiros anos. Estavam ali só para fugir da roça! Mas as vocações no interior surgiam assim mesmo: as famílias eram muito católicas, se rezava o terço todo domingo — uma parte em alemão, outra parte em português. E é normal que eles desistissem, porque do preliminar até o final do ensino médio eram oito anos. É muito tempo. Mas, enfim, quem conseguia terminar o ensino médio recebia a tal da batina! Depois disso, no meu caso, acabei indo a Viamão-RS, e fiquei estudando três anos de Filosofia por lá. E depois ingressei na Teologia, e foram mais quatro anos. Fui ordenado em 5 de julho 1964, e nesse meio tempo dei um ano de aula em Tubarão-SC. Só tinha férias no final do ano, de 8 de dezembro a 3 de fevereiro, e era quando a gente ia para casa e trabalhava na roça, para ajudar os pais.

MARUIM — A sua ordenação coincidiu com o início da ditadura militar. Isso afetou em alguma medida as suas atividades religiosas?
J.W. — Na época do golpe, eu estava em Viamão, e nós fomos todos convocados para entrar na luta da legalidade, com o [Leonel] Brizola. O 3º Exército tinha aderido ao Brizola, ao João Goulart, e nós estávamos no meio do fogo. Passávamos em áreas interditadas pelos militares… era um clima de guerra. Nós fomos chamados para ficar na retaguarda, no atendimento aos doentes e aos feridos, mas a luta da legalidade só chegou até Tubarão, praticamente, e não conseguiu avançar mais que isso, nem até Florianópolis. Então, estávamos convocados, mas não chegamos a ser mobilizados.

MARUIM — Depois da sua ordenação, algo mais lhe desagradou na Igreja Católica além da obrigatoriedade do celibato?
J.W. — Logo após a ordenação, fui trabalhar em Criciúma. Primeiro, na Igreja Matriz, e dois meses depois me tornei vigário no bairro Próspera — mais tarde, fui removido para Morro da Fumaça-SC, onde fiquei mais dois anos.
Eu tinha sido formado sob as resoluções do concílio Vaticano II, que dizia que os padres tinham que sair, não ficar só na paróquia, esperando os fiéis. Mas a Igreja continuava fazendo as velharias de sempre, esperando que os fiéis fossem até ela. Eu, não. Eu ia confessar os operários lá embaixo, nas minas, voltava todo cheio de carvão. Ficava na boca da mina, visitava os operários. A caixa onde os carregadores derramavam o carvão da Mina IV era ao lado da casa paroquial, então eu ia lá, conversava com os maquinistas, com os caminhoneiros… eles viam o padre presente! Eu perambulava, me despia da batina, para não ser constrangido, e ia nos botecos, descia a mina dois, três quilômetros para dentro, lá onde se faziam os furos para extrair o carvão. Porque na igreja, mesmo, só tinha as irmãs, as velhas, as crianças. Os jovens não estavam lá, e os homens também não. Mas, assim, aos poucos, fui conquistando a comunidade. Quando saí, no final, a igreja estava cheia de novo! Depois, me mudei. Eu e a Laureci, minha esposa, já nos conhecíamos, e acabamos decidindo que íamos ficar juntos. Comuniquei então ao bispo de Morro da Fumaça que eu não pretendia ficar mais. Quando eu saí, em 1968, me despedi do povo e apresentei o padre substituto, mas continuei sendo o padre Júlio. A “italianada” aceitou muito bem, e todos por lá ainda me chamam assim, e me veem dessa forma.

MARUIM — Quando você comunicou ao bispo o seu afastamento, houve algum constrangimento ou resistência?
J.W. — Sim, e foi um momento muito complicado. Eu tinha vindo a Florianópolis, e o bispo Dom Anselmo Pietrulla enviou uma carta ao então governador Ivo Silveira para que ele não facilitasse a minha vida por aqui. O governador me chamou sigilosamente e disse que ficou muito chateado com a situação, porque ele era “muito católico”, e aquela carta era uma decepção. Ele escondeu a carta porque disse que estava com vergonha. Eu disse então ao governador que não queria nada: só queria que não me atrapalhasse.
O Dom Anselmo era uma boa pessoa — foi ele quem me ordenou –, mas não sei o que deu na cabeça dele. É muita pressão de cima, do clero. A verdade é que eles não queriam que eu desse certo fora da Igreja para não servir de exemplo para outros padres, que poderiam se encorajar. Os outros que tinham saído da Igreja antes de mim não tinham diploma, e eu tinha. Por isso, eu era visto como uma ameaça lá, porque poderia ter uma carreira bem sucedida.

MARUIM — O senhor considera que o fim do celibato poderia ajudar a melhorar a imagem do catolicismo entre os leigos?
J.W. — Evidentemente. A pedofilia é quase uma consequência do celibato. Porque, biologicamente, o padre não muda: continua sendo um ser humano. E a natureza nos criou para a procriação, para o amor, o afeto. Ninguém perde a afetividade por ter sido ordenado padre, nem é castrado, nem coisa nenhuma. Os hormônios continuam à flor da pele, e muitas vezes as erupções levam a comportamentos inadequados, porque na linha normal do casamento tudo isso seria canalizado de outra forma, entre adultos.
Eu, por exemplo, andava na rua e vinha um monte de crianças atrás de mim, em Criciúma. No fim, a gente acaba se afeiçoando, e aparecem as oportunidades, e tem gente que acaba perdendo completamente a noção das coisas e acaba entrando nessa — muitas vezes, já no internato.
A pedofilia é um desastre, e está levando tempo demais até a Igreja tomar consciência. Em vez disso, ela prefere sempre acobertar. É o caminho mais fácil, remover o padre para outra cidade, tirar o cara do meio do “fervo” da comunidade que o descobriu. Agora, isso é a solução? Não é. A solução é ter uma família, ter um relacionamento, ter filhos…
O celibato deveria ser uma questão livre. Ninguém deve ser obrigado a casar. Já no tempo de Cristo havia os eunucos, aqueles que não casavam. Então, quem quiser seguir o celibato, por convicção ou falta de apetite sexual, beleza. Nada contra! Mas a afetividade tem que ser cultivada. Faz parte da natureza humana. Deus disse: “Crescei e multiplicai-vos!”, e isso vale para todos nós. Essa é a nossa reivindicação.

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