PARTE I:

Para fugir da violência, centroamericanos arriscam suas vidas no México

Reportagem e fotos: Luara Wandelli Loth

Edição: Rodrigo Chagas

O Rio Bravo deixou de marcar a fronteira entre Estados Unidos e México. A linha imaginária e a política anti-imigratória começam milhares de quilômetros ao sul, às margens do rio Suchiate, onde multidões de centroamericanos todos os dias saem da Guatemala e adentram o território mexicano, fugindo da pobreza e da morte nas cidades mais violentas do mundo. A maioria vem de San Pedro Sula, a cidade mais industrializada de Honduras e atualmente a capital mundial do homicídio, onde foram registrados 171 assassinatos para cada 100 mil habitantes em 2015.

Nem todos os imigrantes têm como destino final os Estados Unidos. Uma parte ficaria feliz com uma oportunidade de viver no México. Mas o país mais pobre da América do Norte oferece aos indocumentados uma estadia árdua e insegura. Até maio de 2015, oitenta mil pessoas foram apresentadas às autoridades imigratórias sem permissão para estar no país, 84% a mais que no mesmo período do ano anterior.

Desde 2006, estima-se que há entre 70 mil e 120 mil imigrantes em trânsito pelo país cujo paradeiro é desconhecido, segundo o Movimento Migrante Mesoamericano, que luta pelos direitos das pessoas em trânsito e organiza a Caravana de Mães Centroamericanas. Há 11 anos, a Caravana percorre o México anualmente em busca dos desaparecidos e exigindo justiça.

Em 2010, a Comissão Nacional de Direitos Humanos já registrava 10 mil imigrantes vítimas de seqüestros dentro do México. Para as mulheres, que representam uma minoria entre os que emigram, o maior temor se revela uma realidade: sete em cada dez imigrantes sofreu algum tipo de abuso sexual durante o percurso. La 72, Albergue-Hogar para Personas Migrantes, recebe centenas de pessoas diariamente há cinco anos em Tenosique, no estado de Tabasco, e registrou mais de 20 violações contra mulheres durante o percurso, somente entre agosto e novembro de 2015.

Para fugir das maras, gangues que atuam em praticamente toda a América Central, os imigrantes são obrigados a viajar por zonas dominadas por poderosos narcocartéis mexicanos, organizações criminosas que hoje atuam em praticamente todo o território.

A maioria viaja apenas com a roupa do corpo

As maras

A expressão “mara” significa, em El Salvador, gente ruidosa e barulhenta. As principais rivais, Mara Salvatrucha e a Mara Barrio 18, surgiram a partir de gangues formadas por jovens imigrantes que fugiram do conflito armado em El Salvador, nas décadas de 1980 e 1990, e se instalaram nos Estados Unidos. As maras possuem uma organização complexa baseada em regras próprias. Atuam e disputam territórios, prometendo proteção aos moradores das áreas que dominam. Dados da ONU estimam que exista cerca de 150 mil mareros na América Central. Uma das principais atividades destes grupos é a cobrança do que chamam de “impostos de guerra”, mediante ameaças, que muitas vezes se concretizam.
Em 1996, o governo dos Estados Unidos aprovou a Lei de Reforma da Imigração Ilegal e Responsabilidade do Imigrante, o que mudou drasticamente o quadro do conflito. A lei ampliou os pré-requisitos para deportação dos imigrantes, resultando em um brusco crescimento no número de pessoas que tiveram de voltar à América Central contra a vontade.
Segundo a Agência Estatal de Inteligência de Honduras, apenas na capital Tegucigalpa havia quase 300 grupos delitivos até o início dos anos 1990. Fragmentação que praticamente desapareceu no início do século XXI, quando as maras mais poderosas — MS 13 e a 18 — absorveram as menores. Este processo de expansão fez com que o conflito entre as duas maiores se intensificasse e se tornasse mais violento. A reação do governo foi a aplicação de leis punitivas mais severas, levando a um aumento de 50% da população carcerária. Na atualidade, a superlotação dos presídios é uma das mais graves violações aos direitos humanos no país.. O encarceramento massivo modificou o modo de organização das maras: em vez de isolar os lideres das ruas, fortaleceu a estrutura de comando.
Fonte: http://www.insightcrime.org/

Imigrantes centroamericanos correm atrás do apito do trem em Tenosique

A violência esperada nas cidades da fronteira com os EUA, como Tijuana e Cidade Juárez, torna-se cada dia mais recorrente nos estados sulinos que fazem parte do início da rota imigratória no México. Para melhorar a condição das pessoas em trânsito e promover o acesso à justiça e informação sobre direitos, La 72 -o Hogar Refúgio para Personas Migrantes, foi fundado há cinco anos por frades franciscanos em Tenosique, no estado de Tabasco. Neste estado, fronteiriço à Guatemala, quase dez mil imigrantes foram detidos em 2015, mais que o dobro em relação ao ano anterior. O recrudescimento da política anti-imigratória e a criminalização do imigrante promovidos pelo Estado preocupam a instituição, tanto quanto a exploração da vulnerabilidade dos viajantes pelas organizações criminosas.

Por bater de frente com interesses dos cartéis do narcotráfico, que há anos também se dedicam ao seqüestro, à extorsão e ao tráfico de pessoas, os ativistas recebem seguidas ameaças. O último caso denunciado aconteceu em novembro de 2015, quando o Frei Aurelio Tadeo Montero Vázquez, integrante da instituição, recebeu uma ameaça de morte por telefone, supostamente de um membro dos Zetas.

Imigrantes sobem no trem em movimento. Em dias de sorte, a Besta pára

Los Zetas

Os Zetas foram formados na década de 1990 por um grupo de ex-militares que prestavam serviços de guarda para o Cartel del Golfo. Apenas em 1990, quarenta militares desertaram do Exército Mexicano para atuar dentro do grupo delitivo, segundo a fundação Insght Crime que se dedica à investigação e análise do crime organizado na América Latina e Caribe. O grupo paramilitar chegou a ser a organização criminosa mais temida do país. E apesar de terem origem em Tamaulipas, os Zetas atuam também em outras regiões do Golfo do México, como Veracruz e Tabasco. Por atuar na mesma zona da rota imigratória, o cartel passou a recrutar imigrantes e capturará-los como escravos.

Frei Aurélio está cego de um olho e usa uma muleta para caminhar. Doou-se tanto que endureceu. Passou pelo trauma de ver dois imigrantes sendo esmagados pelo trem e hoje já não tem coragem de acompanhar a passagem de La Bestia, o trem usado pelos imigrantes centro-americanos sem dinheiro para chegar à fronteira Norte e desviar controles militares nas estradas. Perguntado sobre a visita do Papa ao México em fevereiro de 2016, Frei Aurélio foi duro: “não houve nada de transcendente, apenas palavras”. Os Frades Franciscanos não poupam críticas à cúpula da Igreja Católica.

Futuros Frades Franciscanos vão a Tenosique conhecer a realidade da imigração no México

Depois da passagem pelo México, o Papa Francisco rebateu publicamente as declarações do candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos. O milionário Donald Trump disse que, se eleito, obrigará o governo mexicano a pagar a construção de um muro que isole os dois países. O Papa condenou a proposta e afirmou: “são necessárias pontes”. Frei Aurélio constrói pontes, sem a ajuda do Vaticano.

O nome La 72 é uma homenagem aos 72 imigrantes massacrados em 2010 no município de San Fernando, no estado de Tamaulipas, no norte mexicano, a menos de duas horas do Texas. Trata-se do primeiro massacre massivo de imigrantes amplamente difundido. O crime foi perpetrado por integrantes dos Zetas com anuência de agentes do Estado. Ainda hoje, onze dos corpos exumados das fossas clandestinas não foram identificados. A maioria das vítimas é centroamericana, mas há também sulamericanos e, inclusive, quatro brasileiros entre os mortos. Segundo a ONG Anistia Internacional, em seu relatório anual, as autoridades mexicanas obstruem o trabalho da comissão que acompanha o caso, sonegando informações e complicando a entrega dos restos mortais às famílias. A família do brasileiro Juliard Aires Fernándes, assassinado aos 20 anos, recebeu em Minas Gerais um saco de argila, onde deveria estar os restos mortais do filho.

A descoberta seria ofuscada pelo pior massacre de imigrantes da história no ano seguinte. Em 2011, foram descobertos mais cento e noventa e três corpos em uma fossa no mesmo município. A justiça ainda não havia sido feita, mas a garantia de não repetição, um dos direitos fundamentais das vítimas, já havia sido violada.

Eventos históricos importantes na história da luta pelo direito dos imigrantes registrados nas paredes de La 72

A casa do migrante La 72 foi construída quase à beira da ferrovia, onde sobre os trilhos desliza o trem que ficou conhecido como La Bestia ou Tren de la Muerte. Anualmente quase meio milhão de centroamericanos viajam pelo território mexicano em trens de carga. Segundo dados do Instituto Nacional de Imigração, pelos menos 1.300 imigrantes morreram tentando subir o trem em movimento. Outros perderam a vida ou se feriram ao despencar durante o sono ou até derrubados em brigas. A viagem torna-se mais perigosa quando o trem é interceptado pela polícia imigratória, o que leva os passageiros não-autorizados a se atirarem das locomotivas para fugir da prisão. A passagem da Besta é totalmente irregular, gerando uma tremenda expectativa, que é acentuada pelos constantes alarmes falsos: “o trem está subindo ou descendo?”, perguntam os guardas do refúgio que recebem informações via rádio.

Na 72, estão todos 24 horas de sobreaviso, esperando o apito do trem, com as mochilas nas costas ou só com a roupa do corpo, prontos para correr. Para chegar a Tenosique, os imigrantes percorrem a pé um extenuante trajeto de 60 km desde a fronteira sul, com a Guatemala, onde chegam em lanchas que fazem a travessia de forma clandestina. Após sete horas de percurso, o trem que passa por Tenosique chegará à cidade turística de Palenque, onde está uma das principais zonas arqueológicas do Império Maya.

Após cada parada do trem de carga que transporta matéria-prima, os imigrantes necessitam esperar o trem passar mais uma vez para seguir em direção à fronteira norte, isso se escaparem da polícia imigratória e dos sequestros. Chiapas, Oaxaca, Tabasco, Veracruz, Puebla, Tlaxcala, Estado do México, Guanajuato, San Luis Potosí, Tamaulipas… Nuevo Leon ou Coahuila… Zacatecas, Durango, Chihuahua… Jalisco, Nayarit, Sonora, Baja California… as rotas por trem são muitas.

Os caminhos por onde passa La Bestia estão desenhados em um grande mural em uma das paredes do albergue, uma informação de grande valor para os estrangeiros, apesar de muitos já estarem na sua oitava viagem. Além de mostrar as cidades de onde o trem sai ou passa, o mapa adverte sobre os riscos de assaltos, extorsões e seqüestros. Com tantos desembarques e incertezas, a viagem pode demorar meses.

Legenda: Do outro lado do traço que representa o Rio Bravo, onde as mãos já não alcançam a superfície do mapa, os imigrantes colaram cédulas de dinheiro, como se a viagem fosse uma espécie de jogo desafiante, onde chegar ao destino final significa ganhar em dólares

Olhar o mapa é a primeira coisa que fazem quando chegam ao albergue. Com os pés detonados e as roupas em farrapos, enquanto esperam na fila do registro, os imigrantes se reúnem em frente ao mapa e ensinam uns aos outros os melhores caminhos e o que os esperar em cada ponto.


Quando o sonho de chegar ao norte morre no sul

A passagem dos imigrantes pelo México está cada vez mais árdua. O país presidido por Enrique Peña Nieto ultrapassou os EUA em número de deportações de centro-americanos, segundo dados da Secretaria de Governo. Até novembro de 2015, quase 180 mil irregulares haviam sido apreendidos pelo Instituto Nacional de Migração. Em 2014, o número não passou dos 130 mil, o equivalente a pouco mais de 1% da população mexicana, cerca de 120 milhões.

Felicidade no início da viagem

Entre todos os que tentam, 80% não consegue chegar aos Estados Unidos e acaba caindo no esquema tentativa-deportação. A metade é deportado ainda no território mexicano e 29,5% voltam para a América Central expulsos pelas autoridades estadunidenses.

O governo dos EUA delegou parte de sua empreitada anti-migratória ao país vizinho, que desde 2014, instaurou o Plano Fronteira Sul. Esse programa é apontado como causa do agravamento no quadro de violações aos direitos humanos dos imigrantes, de acordo com organizações e ativistas, como o Movimento Migrante Mesoamericano.

O Plano Fronteira Sul blindou as principais rotas já conhecidas pelos imigrantes, por meio do aumento no número de blitz imigratórias, policiais e militares. Para evitar estas barreiras, os centro-americanos caminham dezenas de quilômetros por rotas mais perigosas. Com o Plano, os imigrantes acabam tendo de evitar justamente as cidades onde atuam instituições que já consolidaram o trabalho de assistência e garantia dos direitos das pessoas em trânsito pelo México.


Ameaçado em Honduras, sequestrado no México, Kellen pede refúgio

O hondurenho Kellen, de 31 anos, foi seqüestrado pelo crime organizado no México, quando tentava chegar aos Estados Unidos, e hoje espera por um visto humanitário no albergue La 72.

Ele e outros oito imigrantes, entre eles um adolescente de 13 anos de El Salvador, encontraram-se na fronteira do México com a Guatemala e resolveram unir forças para seguir juntos: o plano era chegar à fronteira norte viajando de cidade em cidade em ônibus de pequeno porte.

Apenas dois já tinham tentado emigrar, mas não conheciam o novo caminho. Quando cruzavam o estado de Veracruz (no Golfo do México), entre as cidades petroleiras de Cárdenas e Coatzalcoacos, o grupo soube que haveria um retém imigratório na estrada e resolveu desembarcar, mesmo sabendo que a região era extremamente perigosa.

As três mulheres que viajavam junto ficaram com medo e não quiseram seguir a pé. Pouco depois de se separarem, elas seriam deportadas do México e os homens seriam seqüestrados por três dias. Para desviar das autoridades, os seis percorreram áreas isoladas, onde acabaram sendo emboscados por sequestradores.

O grupo que se identificou como Zetas exigiu 5 mil dólares por resgate aos familiares, valor padrão entre os que se dedicam ao seqüestro de imigrantes. A maioria ligou para parentes nos Estados Unidos. Todos os resgates foram enviados via Western Union. Mas Kellen levou um susto: quando seus irmãos nos Estados Unidos perceberam que a ligação era um pedido de resgate, deixaram de atender às chamadas. “As famílias depois de muito tempo nos EUA perdem o amor e o afeto, desgraçadamente”, lamentou. Kellen não quis ligar para a esposa em Honduras, pois previa que ela não conseguiria o dinheiro e resolveu apelar a amigos e clientes americanos que conheceu quando trabalhava com turismo em Honduras. Os amigos prontamente depositaram o dinheiro.

Quando estavam para ser liberados do cativeiro, a polícia ministerial descobriu o esconderijo. Já desamarrados, os hondurenhos e salvadorenhos tiveram medo de responder às perguntas dos policiais. Supuseram que aqueles soldados fortemente armados e não identificados poderiam ser o comando dos Zetas.

Quando a tensão se desfez e os seqüestradores foram identificados e capturados, as autoridades mexicanas deram duas alternativas às vítimas: uma passagem de volta à América Central ou dar seguimento ao processo e solicitar um visto humanitário para permanecer no México por um ano. Três deles resolveram regressar a seus países de origem.

Não foi no México que Kellen foi vítima do crime organizado pela primeira vez. Sua saída de Honduras também foi marcada pela violência. O agente de turismo morava em um bairro dividido em sete comunidades, mas para entrar e sair sempre tinha que passar pela mesma entrada, controlada por mareros. Ali era cobrado semanalmente o imposto de guerra. Até que um dia os criminosos cobraram mil dólares de uma só vez e Kellen não conseguiu pagar. Com medo da morte, resolveu fugir do país.

A condição de ameaçado faz com que Kellen tenha o perfil para solicitar de refúgio ao México ou nos Estados Unidos. Agora, o hondurenho espera receber a residência temporária no México para poder viajar pelo país com mais tranqüilidade e chegar à fronteira com os Estados Unidos dentro da legalidade. Kellen expõe seu dilema: entregar-se às autoridades imigratórias estadunidenses e pedir refúgio ou trabalhar ilegalmente no país. Também acrescenta que não se importaria de voltar ao México, caso seus planos sejam frustrados nos EUA.

O mesmo drama foi vivido pelo salvadorenho Carlos, que sofreu ameaças e buscou refúgio no Canadá, pedido que já havia sido negado uma primeira vez em 2012. Mesmo depois da deportação, o operário da construção civil decidiu insistir e tentar recomeçar a vida no Canadá. Carlos iria tomar o trem pela primeira vez, mas, naquela terça-feira nublada de fevereiro, a Besta não passou. No dia anterior, o trem havia cortado Tenosique, mas não parou e a maioria dos imigrantes que tentaram subir ficaram para trás, vencidos pela velocidade. O albergue La 72 anoiteceu cheio, não existe superlotação. Ninguém é barrado na entrada, a não ser se for a polícia imigratória. Sempre cabe mais um no pequeno mundo sem fronteiras.

Kellen teme a presença de mareros entre os imigrantes que freqüentam o albergue. Não conta sua história para os outros, fala baixo e olha para os lados para ver se alguém o observa. Mesmo sabendo da existência de mareros infiltrados, a política da instituição não permite medidas como revistas, exigência da apresentação de antecedentes criminais ou qualquer outro tipo de imposição que faça com que o imigrante sinta-se tratado como um criminoso. Tudo que os voluntários desejam é que os viajantes sintam confiança para apresentar denúncias e compartilhar as histórias que viveram, mesmo que isso não gere mais que estatísticas mais confiáveis. Três regras principais buscam fazer da casa um oasis no meio do inferno: não entram coiotes, nenhuma violência física é tolerada e os homens não podem pisar o dormitório das mulheres.

Adolescentes hondurenhos separam-se: um segue de trem e outro espera a tramitação para um visto de residente
Show your support

Clapping shows how much you appreciated MARUIM’s story.